Entrevista | “Meu sonho é a construção do Hospital Pediátrico de Goiás”

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Zacharias Cali – Médico e candidato a deputado federal

Daniela Martins, Fabiola Rodrigues, Fagner Pinho e Manoel Messias

Conhecido mundialmente por suas cirurgias de alta complexidade de separação de gêmeos siameses e por ter criado, e por isso ter a patente, de medicamento para o tratamento de hemangiomas e linfohemangiomas, o médico goiano Zacharias Calil quer, agora, aos 63 anos de idade, concorrer a uma cadeira na Câmara Federal. Para tal, ele se fi liou ao Democratas e vem, aos poucos, tentando conquistar o apreço e, consequentemente, o apoio de eleitores. Nesta entrevista exclusiva concedida à Tribuna do Planalto, Calil revela o que o motivou a concorrer a um cargo político, fala sobre sua vida, sobre suas relações políticas anteriores – ele por pouco não foi candidato a vice-prefeito de Goiânia em 2016 e faz uma revelação: quer trabalhar pela construção de um Hospital Pediátrico em Goiás.

Tribuna do Planalto – O senhor tem uma carreira conhecida internacionalmente como médico, por que entrar na política agora?

Zacharias Calil – O Brasil está passando uma fase muito difícil. A gente vê todo dia essa situação de corrupção, de descaso na saúde, da educação, na segurança pública, uma série de fatores que vem corroborando para que a gente fique desanimado de trabalhar, de progredir. Para você ver, qual é o futuro que vamos ter? Nossos filhos? Nossos netos? E muita gente fala: ‘Vou embora’. Muitos jovens não têm perspectiva. E a gente vê as pessoas que estão no poder, são pessoas que às vezes não condizem com o cargo que ocupam. Então, nós temos que procurar melhorar, mudar essa situação. E de que maneira a gente procura melhorar? Tomando o lugar dessas pessoas. Eu tive a honra de ser convidado pelo senador Ronaldo Caiado. Eu o conheço desde 1979. Pouca gente sabe disso. Agora ele me procurou, pedindo: ‘Olha, gostaria que você entrasse comigo, vamos formar uma frente parlamentar de médicos, é uma coisa muito séria, é um projeto que nós temos na Câmara’. A primeira resposta que eu falei foi não. Minha família também. Mas aí fomos discutindo e minha família aceitou. Conversei com ele novamente e me filiei ao Democratas. Depois chegou um ponto em que pensei: ‘Gente, acho que estou no lugar errado. Acho que não vou mexer com política mais não’. Ele falou assim: ‘Deixa eu te pedir uma coisa. Você não está confiando’. Eu disse: ‘Não tenho estrutura financeira. Para uma campanha de deputado federal é uma coisa muito pesada’. Ele disse: ‘Mas você tem seu nome. É uma coisa séria, honesta, trabalho prestado. E eu preciso de você. Mesmo se você não for candidato, vamos comigo até o final’. Aí eu pensei novamente e cheguei à conclusão que a gente tem que entrar.

“Quando eu vou aos lugares e as pessoas me veem, elas me reconhecem na rua. É impressionante. Vai acontecendo, vai pegando, vai criando uma onda”

Como o sr. pretende espalhar seu nome pelo Estado?

Não está sendo muito difícil, porque a aceitação é muito grande. Quando eu vou aos lugares e as pessoas me veem, elas me reconhecem na rua. É uma coisa impressionante. As coisas vão acontecendo, vai pegando, vai criando uma onda. Vou te contar outro caso: há dois anos eu tratei uma criança muito grave, muito grave mesmo. Eles não tinham condição de nada. Essa criança nasceu com uma má formação no pescoço, na face, chamado hemangioma tumoral, ele chegou a sangrar. Eu tive que sair de casa em um sábado à noite e acudir lá no Materno Infantil. Segunda-feira agora eu estava lá no Materno, no ambulatório, e disseram: ‘Olha, tem o Márcio que quer falar com você’. Ele estava com um menino no colo, e eu pensei: ‘Esse menino complicou de novo’. Aí ele falou: ‘Dr., eu vim aqui para te falar o seguinte: estou bem de vida, construí um patrimônio e tenho vários carros de aluguel, vans, tenho Kombis, tenho geradores, eu monto palco, eu tenho palco de som. Quero trabalhar na sua campanha’. Eu disse: ‘Mas eu não tenho condição de te pagar, eu não tenho dinheiro’. Ele disse: ‘Dr., deixa eu te falar uma coisa: o que o sr. fez pelo meu fi lho não tem preço. Estou doando meu serviço para o sr.’. Eu fiquei até emocionado. Eu aprendi uma coisa muito grande, que quando você pega uma criança, você tem que tratar, é obrigação de alguém da minha especialidade.

Como o sr. está fazendo a transição para mostrar esse nome que é forte para relembrar o eleitor?

Como é o material de divulgação? Isso é um desafio, porque as pessoas me conhecem, mas elas não sabem que eu sou candidato. Eu vou em vários locais e eu chego lá, alguém me apresenta: ‘Você conhece o dr. Zacharias Calil?’. Dizem: ‘Não, não conheço’. ‘É aquele médico que separa os siameses’. Na hora muda tudo, as portas se abrem. Eu falei: ‘Não vou aproveitar disso’. Mas é um marketing, está pronto, é uma coisa que foi criada há 20 anos. Agora nós colocamos nas divulgações, inclusive nas preguinhas, essas coisas, ‘Referência em separação de siameses’. Senão não vai.

Como o sr. está separando tempo para fazer a campanha? Ainda continua atuando como médico?

Continuo. E esses pacientes que estão internados lá ainda exigem muito, porque toda hora a gente tem que estar vendo, tomando alguma conduta, discutindo com os pediatras da UTI e tem que estar ligado, você não pode sair de Goiânia de jeito nenhum. E é desse jeito, você para em um posto de combustíveis, como parei ali no Extra, abasteci minha moto. E olha: ‘Ô, dr., estou sabendo que o sr. é candidato. Tem santinho?’. Tiro da bolsa e entrego. Lá no consultório, paro e está lá o pacote. E a gente vai fazendo o boca a boca. A rede social está muito intensa também.

“Eu não vejo melhora na Regulação. Pelo contrário. Vejo paciente chegar em mim, no Materno, depois de mais de ano tentando marcar”

Em relação ao descrédito da classe política, como levar um nome forte para uma área que está sendo malvista?

Eu acho que nem todos são ruins, acho que tem uma parte lá que é a turma do bem, é onde a gente tem que associar com essa parte política e procurar fazer o melhor possível, e trabalhar em prol da sociedade. Quero ser político por um mandato só. Não quero ficar preocupado com o mandato seguinte, porque a maioria dos que entram lá já está pensando na próxima eleição, não está pensando que vai cumprir neste mandato.

Quais suas propostas e o que dá para fazer em quatro anos?

Minha proposta principal primeiro é o combate intensivo à corrupção, isso a gente tem que deixar bem claro. Segunda coisa: sou focado e meu grande sonho – tenho uma meta na minha vida – que é a construção do Hospital Pediátrico de Goiás. Isso aí, mesmo eu não sendo eleito, vou brigar muito. Ronaldo sendo eleito, ele terá um carrapato atrás dele, porque esse hospital vai ter que sair, de qualquer maneira. Goiânia, Goiás precisam. Nós temos vários hospitais bons, todo mundo sabe disso, mas e a criança, onde ela está? Hoje, a grande Goiânia tem dois milhões ou mais – porque vem todo mundo para cá, fora o interior – e o Hospital Materno Infantil continua do mesmo jeito. Essas reformas que têm lá não resolvem. O dia que tem uma chuva lá, inunda tudo, aí da curto aqui, ali, acaba a energia. Se você faz uma energia de grande porte, fi ca tudo ligado, ar condicionado e tudo, cai a fase. Então, você tem que construir um novo, não adianta reformar. Nós começamos a fazer o projeto desse hospital, à época do Dr. Alcides. Acabou o governo dele e acabou o projeto.

Não houve interesse?

Não, nenhum. Nunca nem fui chamado para conversar. Pegaram o projeto e jogaram não sei aonde. Inclusive a área é escolhida, em frente ao Hospital Santa Genoveva, de mais de cinco mil metros quadrados que está mato puro. Porque não poderia ter sido feito o Hospital Pediátrico lá? É uma região de fácil acesso, duas pistas, próximo ao Aeroporto, Rodoviária, tudo ali. Agora, tem que cobrar…

Qual sua posição em relação à implantação das OS’s dentro da Saúde do Estado?

Eu trabalho nos dois sistemas, e já trabalhei em um só. Eu acho que a OS veio para fi car, porque não adianta falar: Vou acabar com as OS. Isso é demagogia, sabe porquê? Na hora que você está vendo a realidade igual eu vivi e vivo hoje dentro do hospital, é diferente. Antigamente era: Olha, vou comprar isso. Vai passar por licitação… Eu vou comprar um lápis e tem licitação? Aí fi ca dois, três anos para você conseguir chegar ali. A OS não, ela encurtou o caminho. As OS são uma coisa que funciona bem também no Canadá, mas existe uma fi scalização muito rígida por parte dos Conselhos Municipais, Estaduais e Federais, fora o Ministério Público. Tem que fi scalizar para onde estão indo os recursos, qual o valor está recebendo. Para você ver, a OS do Materno foi a que mais teve aprovação, pelo menos pelo que eu vi atrás do Ministério Público. Por outro lado, piorou muito a situação de profi ssionais da área da saúde, isso foi ruim. Eu, por exemplo, tenho um contrato com a OS e sou CLT. Se amanhã não der certo, eles me mandam embora. Falta segurança. O médico, o psicólogo, o fi sioterapeuta, o farmacêutico, o enfermeiro não tem o plano de cargos e salário, acabou isso. Hoje é “pejotização” da saúde.

Outra questão hoje é a regulação. Como está funcionando? Melhorou o sistema, como vem sendo pregado pela secretária Municipal de Saúde, Fátima Mrué?

Eu não vejo melhora nenhuma na Regulação. Pelo contrário, eu tenho um ambulatório muito grande e vejo paciente chegar em mim no Materno que tem mais de ano tentando marcar uma consulta comigo. Esses dias eu cheguei para o paciente e disse: Espera aí, seu fi lho tem três anos, como você não veio aqui antes? Ele disse: “Dr., esse menino está na fi la desde os seis meses de idade, não consegue vaga aqui com o sr. não”. Não adianta fi – car andando de lá para cá de ambulância. O paciente tem que estar no sistema. Então, por exemplo, quem tem a gestão plena, Goiânia é gestão plena, quem domina é a Prefeitura, e o Estado é alta complexidade, ele que realiza os procedimentos, mas as ações básicas eu só vejo conversa fi ada. E não adianta falar comigo que eu bato de frente, sabe porquê? Eu estou na linha de frente, estou vendo a situação desses pacientes, eles não conseguem.

O sr. se arrepende de ter se filiado ao PMB?

Arrependi e muito. Eu me senti usado pelo PMB. No início eu não sabia, eu não prestei muita atenção naquela situação.

Como foi o processo de filiação?

O delegado Waldir me procurou e falou: Olha, vamos montar uma chapa para a Prefeitura de Goiânia, porque quero sair a prefeito e quero te convidar para ser vice-prefeito. Eu falei: Tudo bem, como é essa situação? Ele disse: Você tem que se filiar ao partido, tem quatro partidos aqui. E deu os nomes. Eu falei: Olha, esse aqui eu não quero.

Nesse momento você não estava mais filiado ao PP?

Não, já tinha me desfiliado. Eu falei: Olha, esses aqui eu não conheço, não vou, as pessoas que estão nesse partido não dá certo. Aí um dia ele chegou ao meu consultório, com duas sr.as e falou: Olha, essa é a presidente estadual do PMB e essa é do municipal.

Cida e Sabrina Garcêz?

Não, a Sabrina estava junto. A outra era a Rosi [Guimarães]. Eu fui muito bem atendido, tratado com a maior educação e respeito e me filiei. Mas eu achei que deveria ter uma estrutura para sair candidato, mas me falaram que “aqui é cada um por si”. Depois que eu me filiei, me falaram “se vira”. Como eu me viro? Não… Eu preciso de estrutura. Aí eu viajei para Aruanã e quando voltei sábado à noite, a nossa convenção acho que seria na terça-feira, e o Waldir me ligou, falou: “Olha, conversa com a presidente do partido, parece que ela vai apoiar o outro candidato”. Acho que era o Vanderlan, da base aliada. Aí falei: Mas somos oposição, como ela vai apoiar? “Não, ela já passou para lá, já declarou apoio a ele”. Falei: Mas não pode. Aí eu liguei para ela e perguntei: Aconteceu isso? Ela disse: “Aconteceu”. Mas você não falou comigo. Ela falou: “Não tenho que falar com ninguém”. Falei: Como não? Ela disse: “Não, não tenho, é uma decisão que o partido tomou”. Falei: Olha, deixa eu te falar, você não está me entendendo. Não sou homem de duas palavras. Não sou mais candidato. E para mim, encerrou ali. Aí eu liguei para o Waldir, ele tentou argumentar, não teve jeito. Eu me senti mal, mas deu uma mídia muito grande e foi aí que eu descobri que eu tinha uma densidade eleitoral que eu nem imaginava. Porque além de ser procurado pelos partidos, todo mundo fi cou sabendo que eu fui pré-candidato. Então, pensei agora é o momento.

Como o sr. vê a sucessão presidencial?

Eu ainda não defini. Estou vendo os debates ainda. Às vezes eu vejo um candidato a presidente da República, igual eu vi ontem, ele falando assim, a postura dele, física, com empáfia…

Está se referindo ao Jair Bolsonaro?

Sim. E é uma pessoa que fala muita gíria: “Oh, meu irmão”. Quer dizer. Não pode ter uma postura dessa, tem que ter uma formação, um cara centrado, não é?

O sr. segue a linha de que o DEM deveria ter um candidato próprio à presidência?

Sem dúvidas. Acho que você tem que ser livre para tomar decisões. Por exemplo, parece que o centrão definiu que tem que fazer isso. Ronaldo não aceitou. Aqui não, aqui quem decide somos nós. Não é você ir lá em São Paulo, reúne e diz: agora é assim. Não, de jeito nenhum.

O sr. acha que o eleitor também sabe diferenciar e não costuma ser encabrestado?

Ah, hoje mudou, esse voto de cabresto, acho que as pessoas não querem saber mais. Vou falar uma coisa: eu participei de algumas caminhadas e fi quei impressionado de ver a falta de entusiasmo do eleitor, me chamou muito a atenção. Tem lugar lá que você vai entregar seu santinho e ele se recusa a receber, ele está indignado com a política, ele pensa assim: Poxa, vida. Você só vem aqui na época da eleição?

Como quebrar essa resistência do eleitor?

Eu converso. Muitos falam: “vou votar em branco”. Rapaz, não faça isso, se você votar em branco, você está votando na pessoa que, às vezes, você não conhece. Ele vai ser eleito e vai te governar, você não terá voz ativa, não faça isso. Qual mudança da Reforma Política o sr. acha que deve ser mais urgente? Esses partidos pequenos são partidos de aluguel, o cara está ali para vender cargo depois para se manter. Quer dizer, tem partidos aí, mas não tem representatividade. Tem a cláusula de barreira, o coefi – ciente eleitoral e você tem uma votação maior em relação…

O sr. entra nesta eleição querendo vencer a qualquer custo?

Não quero vencer a qualquer custo. Eu sou muito tranquilo em relação a isso. Já comentei em casa, com a assessoria e eles fi cam preocupadíssimos: Tem que fazer isso e isso. eu digo: Eu estou em uma margem muito tranquila. Não estou obcecado para ganhar a eleição, eu não preciso da política, a política precisa de nós.

Quais as principais estratégias?

Reuniões. E principalmente redes sociais que estão muito intensas.

Os próximos dias serão mais intensos?

Vou intensificar.

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