Entrevista | Lessandra da Aspaan: “Não podemos penalizar os animais por falta de gestão pública”

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Daniela Martins, Fabiola Rodrigues,
Manoel Messias e Maria José Rodrigues

Quem gosta de bicho se identifica de pronto com a campanha de Lessandra da Aspaan, candidata a deputada estadual pela Rede Sustentabilidade, em Goiás. Consultora e instrutora na área de gestão empresarial, Lessandra Maione está há oito anos à frente da Associação Protetora e Amiga dos Animais (Aspaan) e tem como parte de sua história a luta em defesa da causa animal e ambiental. Luta de longa data e que a motivou a ingressar na política.

Lessandra critica a ausência de políticas públicas efetivas para a proteção dos animais e garantia de seu bem-estar em todo o Estado. Uma falta que as associações e entidades sociais têm tentando compensar de forma voluntária. Tarefa muito difícil diante do crescente número de animais de rua e vítimas de maus-tratos. “O preocupante é que os lares estão se esgotando. Não existe uma política de enfrentamento ao problema. Os animais estão procriando, as ONGs enxugando gelo, conseguindo lares”, aponta.

Entre as ideais defendidas pela candidata estão os eixos estratégicos da Organização Mundial da Saúde (OMS) relacionados aos direitos e bem-estar dos animais, uma ampla reforma no programa de proteção e conservação das espécies do bioma do Cerrado e uma reforma das leis que ainda oprimem economicamente os pequenos produtores rurais, comunidades quilombolas e os microempresários. Confira na entrevista a seguir.

Fotos: Mônica Salvador

Tribuna do Planalto – Como é a sua trajetória como defensora dos animais?

Lessandra da Aspaan – Sou formada em administração e, há dez anos, comecei a trabalhar na Aspaan como voluntária. Eu cuidava dos animais, catava carrapato, limpava o ouvido, dava banho. Passados dois anos, a Aspaan começou a passar por uma situação de crise de gestão, e corremos o risco de fechar a entidade mais antiga do Estado. O pessoal me convidou para gerir e eu aceitei o desafio. Em ONG, a gente tem que pensar na gestão enquanto empresa. Trabalhamos para trazer o equilíbrio financeiro e lutar para a construção da sede da entidade. De lá para cá, a gente tem trabalhado em quatro linhas: cuidado com os animais dentro das escolas, educação, palestras para as crianças, porque a gente acredita que a criança transforma o adulto… e a gente fazia o resgate de animais nas ruas, mas entendemos que Goiânia só aumenta a quantidade de animais. Em 2015, teve um levantamento da Secretaria da Saúde apontou 250 mil animais abandonados na Grande Goiânia. Foi quando a gente entendeu que não conseguiria mais acolher todos os animais errantes e começamos a fazer um trabalho mais focado em animais vítimas de maus-tratos. Nós mudamos nossa forma de atuação, sempre mexendo e movimentando para tentar fazer um trabalho com gestão de políticas, trabalhar para que aconteçam as políticas públicas dentro do Estado de Goiás. Se um órgão não está funcionando, o que precisa? O que pode ser feito? O que tem apertado muito todas as ONGs e tem nos deixado com uma sensação de frustração muito grande é que o nosso papel de Associação é o de apoio às políticas públicas. Mas esse papel está invertendo dentro do Estado de Goiás. Estamos cumprindo o papel de políticas públicas enquanto deveríamos ser somente apoiadores. Estamos todos sobrecarregados emocional e financeiramente, e não temos respaldo por parte do poder público.

O trabalho com animais que a motivou a entrar na política?

Foi esse o motivo. A população tem se conscientizado cada vez mais em relação aos cuidados e respeito com os animais. Você vai para uma escola municipal, por exemplo, fala da importância da castração, educa as crianças. Elas chegam em casa e falam: “Pai, aprendi na escola que precisa castrar os animais para não procriar e não ter mais animais nas ruas”. Mas quando ele procura a castração animal, não tem condições financeiras para realizar. Nesse ponto, a gente começa a ver como nosso trabalho inicia, mas para em determinado momento da atuação. Foi esse motivo que me levou a me candidatar. Quando vemos Paraná, Santa Catarina, São Paulo e alguns outros estados em que as políticas públicas em relação aos animais caminharam, percebemos que é porque alguém se envolveu de fato na política.

“O recurso que seria destinado ao meio ambiente não fica no meio ambiente, é repactuado e colocado para outras finalidades”

A sra. afirma que há um excesso de leis relacionadas ao meio ambiente que não são cumpridas. Como mudar isso?

Essas leis foram criadas como forma de fazer “politicagem”, para fazer propaganda política em época eleitoral. As leis que foram elaboradas não trabalham de forma sistêmica e muitas não têm uma funcionalidade na prática. Outras deixam de ser cumpridas porque não tem fiscalização. Por exemplo, a questão ambiental. Cadê a verba ambiental, que não é fiscalizada vigiada? O ICMS ecológico do Estado vai para pintar meio-fio. As pessoas se preocupam e falam: “Ah, vocês vão tirar dinheiro da saúde para cuidar dos animais?”. Temos verbas ambientais que poderiam ser utilizadas para essa finalidade. A proposta é exigir do Estado o cumprimento dessas leis já existentes e trabalhar outros formatos que atendam de forma sistêmica. O que seria essa forma sistêmica? A Organização Mundial de Saúde (OMS) traz eixos para a proteção animal. Não adianta trabalhar só um eixo. O que seriam esses eixos? Conscientização e educação em relação à guarda responsável dos animais; microchipagem e cadastramento dos tutores, porque nenhuma caixinha de papelão procria, está jogado nos lotes baldios. Com relação aos maus-tratos, é preciso conseguir localizar quem são os agressores que cometem maus-tratos e aprimorar as leis de maus-tratos. Temos o controle de natalidade, conhecido como castração. São quatro eixos que existem há muitos anos e que nenhum deles é trabalhado de forma sistêmica ou nenhum, na verdade, é implementado no Estado de Goiás.

E por que isso não ocorre?

Porque nenhum legislador ou executivo tem isso como pauta principal, não priorizam. A gente reconhece a importância de todas pautas, saúde, educação, segurança, mas se não tiver ninguém que defenda a pauta do meio ambiente e da causa animal, ela sempre será engavetada nos projetos de lei. Esse foi um dos motivos que me coloquei como candidata, por ver essa necessidade, de ter um representante da causa animal lá dentro para vigiar, cobrar e pedir emendas em relação à proteção animal.

A causa animal também tem dificuldades em relação à gestão?

Sim. Vamos pegar como exemplo a Agência Municipal de Meio Ambiente (Amma), de Goiânia, que trabalha com animais silvestres. Está tudo ali misturado e acaba que não atende ninguém. Não se pode misturar animais domésticos, por exemplo, com animais silvestres. Cada um tem sua necessidade. No Centro de Zoonoses, entende-se que zoonoses seja o controle de doenças. E aí, onde ficam nossos animais domésticos? Voltando, quando você vem para a Amma também existe um descaso em relação aos animais silvestres. Se falasse: “Ok, vocês estão cuidando dos animais silvestres”. Mas não. Tem técnicos e pessoas lá que querem fazer algo, mas falta estrutura. Volto novamente na questão do valor que seria destinado ao meio ambiente e o recurso não fica no meio ambiente, é repactuado e colocado para outras finalidades.

Existem políticas públicas voltados para a questão animal?

Não, não existe nada de política. Apenas a campanha de vacinação antirrábica e só isso. Várias vezes já questionei a doação sem castrar e entrei nessa questão. Inclusive, no Mutirão da Prefeitura de Goiânia estavam doando animais sem castrar para a população de baixa renda. Olha, todas as ONGs estão trabalhando, colocam os animais para adoção já castrados, vacinados, vermifugados. A gente faz entrevista, uma triagem, para ver se a pessoa tem essa capacidade e a responsabilidade por essa vida. Quando você a um Mutirão que é para atendimento social, lá poderia ter sido implementado o atendimento com veterinários para atender essa população e não levar animais para doar sem castrar. Assim, nós estamos multiplicando esse problema. O que essa família vai fazer com esse animal sem castrar? Procriar. Voltamos àquela primeira fala, da caixinha de papelão que começa a surgir nos lotes baldios e o problema deixa de ser do indivíduo e passa a ser do município.

A posse responsável tem evoluído em Goiânia, há menos animais nas ruas?

Não tem menos animais nas ruas. Temos pessoas que estão mais conscientes adotando mais animais. O preocupante é que os lares estão se esgotando. Não existe uma política de enfrentamento ao problema. Os animais estão procriando, as ONGs enxugando gelo, conseguindo lares, a gente está fazendo esse trabalho. Hoje, se você observar, tem pessoas que já estão com o terceiro animalzinho adotado.

As prefeituras não têm programas de castração?

Não, nada. É isso que eu falei: por que a Lessandra entra? Por esse motivo. E não é por falta de projeto. Em 2015, sentamos junto com o Ministério Público do Estado de Goiás e elaboramos um projeto chamado Programa de Bem-Estar Animal. Várias secretarias e órgãos participaram da elaboração, porque à época o prefeito falou que queria um projeto. Ficamos seis meses trabalhando em cima para que o projeto novamente ficasse na gaveta. Entra gestão, sai gestão; entra projeto, sai projeto e, efetivamente, não há nenhuma ação por parte dos municípios.

“os lares estão se esgotando. Não existe uma política de enfrentamento ao problema [dos animais nas ruas].”

O Zoológico de Goiânia já foi alvo de grandes denúncias, principalmente em função de mortes de animais. Como está hoje?

Continua da mesma forma. O Zoológico está em pleno Setor Oeste e há uma questão hoje com os urubus. De um lado, a população que os urubus começam a incomodar e, de outro, a situação do Zoológico com a falta de estrutura. Começamos a ter conflitos por falta de gestão e investimento nessas áreas. Esses dias chegaram e disseram: “O que pode ser feito com os urubus?”, começa aquela situação: “Vamos sacrificar todos os urubus”. As ONGs não permitem isso, porque são soluções de maus-tratos, de penalizar o animal por falta de uma gestão pública. Tenho alertado muito sobre o fato de que estamos em uma situação em que o Estado não enxerga isso como saúde pública. Mas a falta de política e a falta de cuidado podem gerar uma epidemia dentro do nosso Estado. E eles vão chegar com aquela velha prática, que as ONGs e associações não vão permitir, que é a de sacrificar todos os animais no Estado. Porque não é culpa dos animais, a culpa é da falta de políticas públicas, de gestão pública, de cuidado com esses animais. Você cita o Zoológico, mas vamos falar do Centro de Animais Silvestres. Lá falta estrutura, falta medicamento, os funcionários dão o sangue para conseguir fazer algo acontecer ali dentro. E o Cetas recebe verba estadual.

E como está o Hospital Público Veterinário?

O Hospital Público Veterinário me preocupa porque é um projeto desde 2013. Ele aparece em épocas sazonais, geralmente são épocas de campanha política, e acaba se tornando uma pauta de campanha política. Temos a questão do Hospital Público Veterinário que é a seguinte: hoje em Goiás temos uma emergência de ações práticas, efetivas. O Hospital Público Veterinário é uma proposta ótima, mas vai demandar um tempo para nosso Estado, que já está na UTI. Então, até que se construa a estrutura, coloque equipamentos e comece o atendimento, a gente tem que entrar com as ações de formas mais emergentes e efetivas.

Como tem sido trabalhada a campanha eleitoral, em vista que nosso sistema privilegia quem tem maior poder econômico?

Primeiro, estamos unindo força entre os protetores das Associações. A gente chama essa união de Corrente do Bem. Estamos trabalhando a questão da renovação política. Não sou filha, não sou esposa, não tenho nenhum parentesco político, não tenho história política. A população hoje pede essa renovação, mas a renovação não de nomes, mas de práticas políticas e de pessoas que não têm envolvimento político. A nossa campanha é franciscana, então é pedindo, é batendo de porta em porta e a gente tem ido muito para as redes sociais. Já estou há oito anos realizando esse trabalho voluntário, já tenho uma história, um ativismo. E eu vejo que a população pode mudar seu voto começando a escolher quem eleger pelo ativismo que a pessoa já vinha praticando.

Além da causa animal, a sra. defende empreendedorismo e diversidade. Como será a atuação?

Sou microempresária e trabalho com consultoria para micro e pequenos empresários. Vivo e acompanho a realidade do microempresário, sendo achatado por questões econômicas e excesso de taxas, burocracias que funcionam muito para o pequeno e para outros tem toda uma assessoria jurídica que conseguem sobressair a todas essas dificuldades que o pequeno tem. O micro e pequeno empresário é quem abre a empresa, abre caixa, faz atendimento e, no final do dia ou na metade do dia, ele ainda tem que buscar as questões legais da empresa, enfrentar a burocracia. Além do microempresário, trabalho com o desenvolvimento de cooperativismo e associativismo como geração de renda, por exemplo, para pequenos produtores rurais. Eles também estão sendo novamente achatados por um poder econômico muito forte, que vai de grande commodities. E é esse pequeno produtor que põe o alimento na nossa mesa, gera muito emprego. O produtor precisa ter políticas também de apoio. O pessoal da agrofloresta, que trabalha com orgânicos, está trabalhando com cuidado pela saúde. Por que não valorizar esse tipo de produção? Temos as comunidades quilombolas, com quem já desenvolvi algum trabalho. Não é levar assistencialismo. Eles querem o desenvolvimento social. Existe uma grande diferença entre o assistencialismo e o desenvolvimento social.

Como enfrentar a descrença da população em relação à política?

Não existe cadeira vazia, alguém vai ocupar. Então, ou a gente começa a mudar essa forma de pensar a política e que essas cadeiras sejam ocupadas por pessoas que queiram, de fato, fazer, ou elas serão e continuarão sendo ocupadas por pessoas que continuam fazendo isso com a nossa sociedade, com nosso país. Eu até faço o convite para que as pessoas de bem enfrentem isso de fato e ocupem essas cadeiras.

Quais as propostas relacionadas à educação?

São dois projetos. Primeiro, fazer a implementação de fato com a educação dentro das escolas em relação ao meio ambiente e os animais, tratando os animais com compaixão pela vida. Quem cuida do animalzinho vai ser um cidadão do bem. Acredito nessa linha. Segundo é com relação à Universidade Estadual de Goiás, que teve seus recursos cortados e hoje só consegue pagar folha de funcionários. A faculdade não consegue fazer pesquisa. Na infraestrutura começa a faltar investimento, equipamentos, enfim, tudo isso. A proposta para a educação é, principalmente, fortalecer a UEG e dobrar, chegar a pelo menos 4% do orçamento do Estado destinado à UEG, para que não morra. É uma universidade importantíssima, estamos trabalhando os jovens em várias regiões do nosso Estado com as características daquelas regiões. É uma universidade que não pode ser esquecida e ser tão maltratada como está sendo. Não olharam por esse caminho, da importância da UEG. A UEG trabalhava com um orçamento, foi cortado dessa forma.

A Rede está coligada com o PSDB?

A Rede Sustentabilidade está apoiando José Eliton, sim, na majoritária. A gente começou o lançamento de candidatura própria, com perfil característico da Rede, mas infelizmente temos as questões relacionadas à estrutura de partidos pequenos, que estão sendo massacrados pela reforma política e a cláusula de barreira. É algo que nos entristece muito em uma reforma política, você começa a perder esse DNA por esse massacre que sofremos dos grandes partidos.

“a população pode mudar seu voto começando a escolher quem eleger pelo ativismo que a pessoa já vinha praticando”

Como é ser mulher na política, é difícil?

É desafiador. Uma mulher falou para mim: “Entre sem ser filha, sem ser isso, vamos mostrar a força da mulher”. E a mulher tem que enfrentar essas barreiras impostas, até por nós mesmo que somos mulheres, de achar que não somos capazes. Nós temos que nos empoderar e falar: “Somos, sim”. A gente tem que lutar por nossos direitos.

Como você vê o redirecionamento das forças políticas para a extrema direita?

Hoje a gente tem trabalhado dentro da Rede Sustentabilidade o que a gente chama de trabalhar o centro, nem tanto à direita nem tanto à esquerda. Se não tentarmos trazer uma política mais de centro, convergindo todos os lados, não vamos encontrar uma solução para o país. A Marina traz muito isso na fala: “nós temos gente boa em todos os partidos, o que precisamos trabalhar é com as melhores ideias”. O que acontece no Brasil é que programas sociais, o partido pega aquele programa social e faz dele uma bandeira política. Outro partido pega uma história econômica e a transforma em uma bandeira daquele partido, e na verdade as conquistas do Brasil não são partidárias, nem da esquerda, nem da direita. São conquistas do país, de cidadania. Quando a gente começa a trabalhar muito essa extrema direita e extrema esquerda, o Brasil não vai conseguir caminhar, porque a gente começa no radicalismo, ou sou um PT ou sou um Bolsonaro. E a gente não consegue convergir em uma construção para o país, mas de brigas partidárias ou de brigas de lado dessa posição política.

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