Pesquisa mostra como a globalização afeta alimentação tradicional em Pirenópolis

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Foto: Internet

No dia 7 de outubro, Pirenópolis completa 291 anos. A senhora goiana, que por meio de seu patrimônio histórico cultural, mantém viva as memórias de todo um passado nacional é um destino bastante procurado por viajantes do mundo todo, tornando o turismo a base da economia local. Sendo assim, pensar em Pirenópolis é logo lembrar de suas cachoeiras, da arquitetura colonial, dos inúmeros festivais e cultura pulsantes pelas ruas de paralelepípedo. Entretanto, uma pesquisa realizada pelo geógrafo e professor da Universidade Federal de Goiás (UFG) Caio Sena, lança um outro olhar sobre a cidade e passa a compreendê-la a partir dos hábitos alimentares dos seus turistas e moradores. Como resultado, o estudo mostra uma relação estreita entre turismo e alimentação, além de alertar sobre os impactos da globalização para a região.

“As pessoas não comem as mesmas coisas em todos os lugares e isso se dá por vários fatores, primeiro do ponto de vista dos ingredientes, do modo de preparo, dos hábitos alimentares, ou seja, as pessoas possuem hábitos, ingredientes e comidas diferentes ao redor do globo e a gente expande para pensar o porquê disso acontecer. Toda a pesquisa é uma reflexão política, é uma reflexão cultural sobre os hábitos alimentares nos territórios”, explica o pesquisador que descobriu o peso que a cultura alimentar tinha na sua vida, quando fez seu primeiro intercâmbio fora do país. “Me perguntavam: ‘esse pequi do qual você está falando, se parece com que alimento que temos por aqui?’. E eu respondia com certo orgulho camuflado: ‘Nenhum!!!’”.

Na era das comidas rápidas – ou fast food, como são conhecidas – Caio aponta para os perigos de deixar com que esses hábitos alimentares ocupem os lugares das comidas locais, produzidas por cozinheiros da própria região e com ingredientes típicos do Cerrado. O geógrafo analisa que “quando você deixa de produzir algum alimento, quando algum alimento ou receita ‘entram em extinção’, parte da cultura daquele povo também se perde. Por isso que a gente tenta colocar luz, colocar foco nas questões alimentares, que são constituintes de culturas em constante movimento”.

Ele afirma ainda que as mudanças nos hábitos alimentares estão ligadas diretamente à modernização e a processos de urbanização. “As revoluções industriais e as mudanças nas formas de trabalho e apropriação do tempo do trabalhador acarreta em uma também mudança nos hábitos alimentares. Não se come o mesmo no campo e na cidade. A maioria da população brasileira vive nas cidades, para alimentar tanta gente em um espaço urbano, alterações são necessárias nos regimes alimentares. A necessidade de trabalhar uma maior quantidade de tempo cria uma demanda pelo fast food, ou seja, você comer rápido para poder trabalhar mais. Ao mesmo tempo em que existe uma resistência a esse movimento (por meio de uma luta por mais qualidade de vida). Quando iniciei uma pesquisa geográfica sobre o tema, não esperava encontrar um universo tão amplo”, explica o pesquisador.

Comer é resistir

Sendo assim, alimentar-se é um ato político a partir do momento que sinaliza uma resistência à apropriação dos espaços e culturas locais por empresas e culturas estrangeiras. No caso de Pirenópolis essa relação com o que vem de fora fica ainda mais forte, já que a cidade encontra no turismo a base da economia local. “Ao mesmo tempo em que ela é uma cidade histórica, ela também é uma cidade muito voltada ao turismo em Goiás, ela é muito aberta ao que é de fora, ela é muito aberta a alterar sua paisagem para inserir elementos da globalização”, alerta Caio.

Para ele esse paradoxo existente entre a história contada pelo patrimônio tombado e a constante chegada de multinacionais e franquias criam no contexto urbano um constante diálogo que acaba por desenvolver novas narrativas para a cidade e conferem à paisagem um novo sentido. “O que tenho percebido, depois da observação de aspectos e fenômenos culturais e econômicos, é que na disputa local-global, não se trata de um diálogo amigável em si, mas sim a perpetuação de uma cultura globalizante que tende a dominar e apagar as forças locais. É claro que existem processos de resistências, mas eles só se vão adquirir eficácia, se conseguirmos fortalecer nossa cultura alimentar ou nossos ingredientes. Além disso, é preciso criar uma força local de produção de alimentos aliada a uma valorização de receitas ancestrais”, expõe.

Neste sentido, o pesquisador alerta que “caso contrário, estamos fadados a apenas incorporar o que é de fora, substituindo a possibilidade de diálogo por uma sobreposição ou dominação da mundialização ou modernização nos aspectos locais. Isso pode ser visto nos hábitos alimentares mas também em outros aspectos da cultura de uma sociedade. Nota-se que as franquias alimentares que chegam em Pirenópolis não conseguem alterar por completo os hábitos alimentares locais, mas de certa forma insere outras lógicas alimentares. Os impactos dessa inserção vai depender de como o local se coloca na disputa, pois quanto mais fortalecido estão os ingredientes locais, maiores são as chances de diálogos menos predatórios”.

A ideia defendida não é a de banir essas propostas alimentares “estrangeiras”, mas criar na população e nos governos a consciência de que valorizar aquilo que é local é muito importante. “A gente não pode abrir mão dessa valorização do cerrado e dos ingredientes e receitas que aqui estão porque, na verdade, mora dentro de uma cultura alimentar a sociedade inteira. Aspectos culturais, aspectos de manutenção da própria vida, estão nos nossos ingredientes e na nossa alimentação. Esse é um debate geográfico, político, econômico e cultural e o fortalecimento do cerrado é muito importante e várias coisas podem ser feitas, como maior investimento em cultura, na agricultura familiar. São vários os aspectos que a gente pode investir para não deixar que uma única cultura globalizante tome conta de vários aspectos da vida, inclusive de aspectos da nossa alimentação”, finaliza Caio.

 

 

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