Entrevista | Professora Geli: “Somos trabalhadores que defendem trabalhadores”

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Daniela Martins

“A nossa luta está impressa na memória e no coração do povo.” A declaração da vereadora e candidata ao Senado Federal, Professora Geli, sintetiza bem o pensamento dos integrantes do Partido dos Trabalhadores (PT). Em seu segundo mandato na Câmara de Vereadores de Anápolis, Professora Geli (PT), ou Maria Geli Sanches, diz crer no voto consciente do eleitor que opta pela esquerda. Advogada, ela deixou a carreira no Direito para fazer história nas salas de aula. São 34 anos no “chão da escola”, destaca, por acreditar em uma Educação transformadora: “aquela que muda o cidadão e que permite que ele mude a sociedade”. Não à toa, esse é o foco de sua campanha. Defende também a inclusão, em especial de pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), melhorias na saúde e o combate à violência contra a mulher. É o que Professora Geli conta na entrevista à TP.

A sra. é vereadora por Anápolis. Como tem sido seu trabalho na Câmara de Vereadores, o que é possível destacar?

Junto à Educação, levanto a bandeira da inclusão, porque não acredito em uma sem a outra. Meu trabalho é muito forte nesse sentido, especialmente com as pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), e é desenvolvido ao lado da Associação dos Pais e Amigos dos Autistas de Anápolis (ASPAA), que ajudei a fundar. Todas as leis voltadas para o autismo em Anápolis são da minha autoria. Sou membro do Conselho Municipal da Cultura, presidente da Comissão da Educação, Cultura, Ciência e Tecnologia da Câmara e primeira secretária da mesa. As mulheres também são prioridades em minhas ações voltadas para a proteção, independência econômica a representatividade social. Lá, criamos a Associação das Mamães de Anápolis (AMA), que promove o empoderamento da mulher, especialmente daquelas que não quer se distanciar dos filhos para trabalhar. Então, nos preocupamos em capacitá-las. Outro trabalho forte acontece por meio da luta pela não violência contra as mulheres. De forma muito determinada, participo do Conselho Municipal das Políticas Públicas para as Mulheres. Mais recentemente, conseguimos levar para a nossa cidade o Juizado Especializado em Violência Doméstica e Familiar, que representa um grande avanço para todos nós. Sou muito vigilante e ativa nas questões relacionadas à saúde básica, mas precisamos dar atenção especial também à alta complexidade, mais especificamente à qualidade de vida e de tratamento às pessoas com câncer. Junto à Associação Voluntária de Apoio às Pessoas com Câncer (Avapec), levamos amparo aos pacientes e ampliamos nossos esforços na busca por políticas públicas que fortaleçam o atendimento em todos os estágios da doença.

A sra. tem afirmado que levantará a bandeira da educação no Senado. Quais são suas propostas para a área?

Tenho dito e não é um discurso para o período eleitoral. É a realidade da minha vida. Sou advogada e deixei os tribunais para me dedicar integralmente à Educação. Fiz pedagogia, especialização e mestrado nessa área para me capacitar para o trabalho. Uma das minhas propostas é garantir a lei do Fundeb, que termina em 2020. Quero fazer com que ela seja permanente e ampliá-la, para possibilitar mais investimentos do governo Federal na Educação Básica. É aí, desde a creche, que formamos verdadeiramente o cidadão. Faz-se mais do que necessário ampliar as vagas nas creches, além de, lá na frente, no Ensino Médio, garantir que o aluno permaneça com sucesso na escola. Para isso, a infraestrutura é de extrema necessidade para todas as unidades escolares, além da valorização dos professores e dos profissionais que atuam na Educação. Para garantir essas verbas e mais aplicações federais para essas finalidades, precisamos, com urgência, extinguir a Lei do Teto de Gastos, que é muito prejudicial para a educação, a saúde e a assistência social. Proponho também rever a Reforma do Ensino Médio, que permite uma educação para o rico e outra completamente diferente para o pobre, porque forma os estudantes de escola pública apenas de forma técnica. Esse não é e nunca foi nossa ideia sobre o educar. Queremos formar um estudante cidadão, oferecer uma formação completa. Disciplinas como sociologia e filosofia são muito importantes. Não podemos abrir mão delas.

“Somos trabalhadores que defendem trabalhadores. Isso não agrada aos poderosos e às oligarquias e, por esse motivo, sofremos muitos ataques”

E quais as propostas em áreas como inclusão, saúde e defesa da mulher vítima de violência doméstica, que são também temas defendidos pela sra.?

Todo o trabalho que realizo na cidade de Anápolis será ampliado para o Estado de Goiás. Não vejo os candidatos falarem em inclusão nem apresentarem propostas para a área. E essa é a realidade do meu dia a dia. Além de promover a inclusão do aluno especial na rede pública, precisamos garantir que ele ali permaneça, com a monitoria, o apoio e o acolhimento adequados. Tenho a felicidade de dizer que o nosso esforço garantiu a implantação de uma Clínica Escola do Autista em Anápolis, um lugar de atendimento multidisciplinar, que oferece várias atividades e tratamentos aos autistas e suas famílias. Quero levar essa estrutura para outras cidades goianas. A saúde básica vive comprometedora dificuldade no nosso Estado. Vemos aí o fechamento ou interdição de várias unidades extremamente necessárias à população. Minha preocupação não é só trazer recursos para a construção de mais unidades, é buscar investimos para o bom funcionamento e a adequação das que já existem. Precisamos muito de mais vagas de UTI. Muitas pessoas estão morrendo nos hospitais e postos de saúde pela falta dessas estruturas de atendimento. Quero trabalhar também pela alta complexidade, sobretudo, pelos pacientes com câncer. A rede pública não possui hoje a agilidade necessária para esse tratamento. Precisamos urgentemente mudar isso. A mulher deve ser olhada com muito carinho pelo poder público. A violência só tem aumentado, os números de feminicídios nos colocam na vergonhosa segunda posição no ranking nacional. Precisamos combater esse problema na escola, também na família, orientando pais e responsáveis. É necessário ampliar os plantões das delegacias especializadas no atendimento às mulheres vítimas de violência, fazendo-as funcionar nos finais de semana e feriados, quando a maioria das agressões acontecem. A essas mulheres, precisamos oferecer capacitação profissional, incentivando-as à inserção no mercado de trabalho e tornando-as independentes de seus companheiros. Há ainda a necessidade de aumentar o número de juizados especializados em violência doméstica e familiar e das casas de acolhimento às famílias que precisam de apoio.

Estamos chegando ao final da campanha, uma campanha bem menor, fortemente influenciada pelas redes sociais, fake news e extremismos por parte do eleitor… Qual balanço a sra. faz da sua campanha ao Senado? Conseguiu alcançar os eleitores, levar suas propostas?

Confesso que essa foi uma campanha muito difícil, porque o tempo é curto e eu ainda concilio a divulgação da minha candidatura com a minha legislatura em Anápolis. Assumi uma responsabilidade com o meu eleitor e com o cidadão da minha cidade. E tenho me desdobrado para cumpri-la. Existe ainda uma dificuldade de fazer com que nossas propostas e pensamentos cheguem a todos os goianos. Mas fizemos o nosso trabalho nas ruas e nos espaços concedidos pelas mídias, pelas redes de TV e emissoras de rádio. Sem contar o horário gratuito eleitoral, que é um ótimo espaço para a divulgação de ideias e propostas. Buscamos aproveitar ao máximo essas oportunidades, além de participar dos debates, das caminhadas e de falar diretamente às pessoas em todas as cidades que conseguimos alcançar. O trabalho é de formiguinha, mas é gratificante. Não há nada que pague ouvir de um eleitor que eu sou merecedora do seu voto porque inspiro confiança e minhas propostas coincidem com as suas ideias de cidadania e desenvolvimento. Essas pessoas querem mudança. Disso, eu tenho certeza! Mas, esse desejo sincero deve ir ao encontro das pessoas que realmente estão dispostas a realizar essa transformação. Foi por isso que eu coloquei meu nome à disposição do eleitor. Confio também muito na militância do nosso partido, que é muito determinada e trabalha com afinco pelo sucesso dos candidatos nas urnas.

Qual a estratégia para essa última semana? A exemplo de outros candidatos, a sra. tem focado no eleitor indeciso?

Nestes últimos dias, nossa ideia é focar no eleitor indeciso. Estamos buscando não só o primeiro, mas o segundo também, já que, nessas eleições, poderemos escolher dois senadores para Goiás. O nosso contato é sempre direto. Como eu faço questão de dizer à minha equipe, é olho no olho, coração com coração, sempre levando a nossa mensagem e esperando que as pessoas possam recebê-las com carinho e entende-las como promessa sincera de um futuro melhor. Nessa caminhada, tentamos atingir o maior número possível de eleitores, com uma mensagem de incentivo, de real intenção de hastear a bandeira da Educação inclusiva no Senado Federal, para trazer qualidade para o ensino de Goiás e valorização dos profissionais da Educação, porque as soluções para todos os problemas sociais passam pela educação.

As mulheres que estão na política garantem que não é fácil ser mulher na política. Mas temos visto uma movimentação diferente das mulheres nestas eleições, um engajamento maior do eleitorado feminino e uma grande importância do voto feminino na definição das eleições. Esse cenário deve influenciar positivamente nas atividades das candidatas que forem eleitas a partir de agora?

Não somente na política. A vida não é fácil para as mulheres, que sofrem com a desvalorização e, em pleno século XXI, recebem 25% menos que os homens. Isso, sem contar a falta de acesso aos espaços sociais. Podemos contar nos dedos aquelas que conseguem vencer sem tanto desgaste e sofrimento. Esse é o caso da política também, cuja legislação determina que 25% dos concorrentes sejam do mesmo gênero. Hoje, o menor percentual é de mulheres. Eu gostaria muito o contrário e que 75% de mulheres ocupassem as vagas de disputa. Ou, dentro da paridade, 50% para uns e 50% para outras. No Partido dos Trabalhadores é diferente. Tudo o que ocorre nele passa, primeiramente, pela consideração da paridade de gêneros. Precisamos ir além e garantir não somente a participação das mulheres na política, mas a cadeira delas no parlamento. É o que defendo. Mesmo assim, acredito que o número de mulheres teve interessante aumento no processo eleitoral. Elas estão buscando o seu espaço, porque, como repito sempre, lugar de mulher é onde ela quer estar. Espero mesmo que elas possam se envolver mais na política, não apenas na hora da candidatura, mas no momento do voto, quando as mulheres confiam os seus votos a outras mulheres para representá-las com conhecimento de causa. Quero, neste ano, ser a merecedora dessa confiança, para continuar e ampliar o trabalho que já realizo como vereadora.

Teremos uma representatividade feminina mais forte nos poderes? Isso pode influenciar em um aumento ou melhoria das políticas públicas voltadas às mulheres?

Acredito que sim e, sinceramente, conto com isso. Somos mais de 52% do eleitorado. Precisamos despertar para o poder que temos nas mãos, para a possibilidade de aumentar a nossa representação política e, com isso, a defesa dos nossos direitos. Queremos chegar ao ponto de reconhecer que todos nós, homens e mulheres, somos realmente iguais perante a lei.

É grande a probabilidade de um segundo turno entre Fernando Haddad e Jair Bolsonaro, o que provavelmente vai inflar os ânimos dos eleitores, o extremismo. Como superar o antipetismo para vencer as eleições?

Acredito na memória do povo brasileiro e na sua necessidade de resgatar os direitos retirados pelo governo Temer. Eu ando pelas ruas e escuto as pessoas falando que têm saudade dos projetos que respeitam e dão oportunidades aos cidadãos; que possibilitam que o filho do pobre frequente uma universidade; que constrói creches; espalham Institutos Federais de Educação pelo Brasil inteiro; constroem casas para as pessoas menos favorecidas e diminuem a vulnerabilidade dos cidadãos diante da pobreza. Eles querem esse Brasil de volta e reconhecem, com todas as evidências e até com a confissão de culpa feita por uma importante figura da direita, que tudo o que aconteceu para essa mudança brusca de poder foi um golpe não só contra uma presidente eleita, mas contra o trabalhador. Veem, principalmente, que esse governo golpista está retirando todos os benefícios sociais e direitos adquiridos durante anos de luta.

“Precisamos [as mulheres] despertar para o poder que temos nas mãos, para a possibilidade de aumentar a nossa representação política e, com isso, a defesa dos nossos direitos”

O voto útil vai ser um fator favorável para Haddad? Ou pode representar um perigo?

Eu creio no voto consciente do eleitor que opta pela esquerda. É exatamente dessa consciência que as pessoas nos falam. Somos trabalhadores que defendem trabalhadores. Isso não agrada aos poderosos e às oligarquias e, por esse motivo, sofremos muitos ataques. Mas, a nossa luta está impressa na memória e no coração do povo.

A sra. acredita em uma união das esquerdas para o segundo turno para a presidência?

Claro. Mas, como gosto de pensar em um dia de cada vez, quero trabalhar para que o presidente Haddad vá para o segundo turno com frente segura de votos. O segundo turno é outro passo, embora eu tenha muita confiança no sucesso das propostas que apresentamos aos cidadãos e, em torno disso, na união dos partidos de esquerda.

Goiás é um Estado patriarcal e que trata com muita violência as mulheres. Os goianos estão preparados para eleger uma mulher como governadora?

Sim. Acredito que o segundo turno será com a Kátia Maria. Sou extremamente otimista quanto a isso e estou trabalhando para que aconteça, tendo como base um projeto muito bonito e muito bem feito, com vistas para uma mudança de verdade para o Estado de Goiás. Kátia é uma mulher preparada não somente do ponto de vista técnico, mas demonstra uma visão progressista, que sabe como o que fazer e como fazer para mudar a política estadual e, pela primeira vez, condicioná-la ao atendimento das necessidades do povo e não dos poderosos. Nosso trabalho é para que ela vá para o segundo turno, levando toda a sua experiência política e conhecimento sobre as necessidades das diversidades regiões goianas. O Estado de Goiás, apesar de todas as aparentes dificuldades, está preparado para ter a sua primeira governante. Nada melhor do que uma mulher para saber o que as outras mulheres precisam, sobretudo, no que se refere à violência contra a mulher e ao feminicídio que tanto nos assusta. Incomoda-nos saber que temos a segunda maior taxa de incidência desse crime no país. Acredito que a Kátia tem essa capacidade de mudar esse triste histórico em nosso Estado e de governar o nosso estado com coração generoso e, ao mesmo tempo, pulso forte para realizar as mudanças que os goianos tanto precisam.

Na possibilidade de um segundo turno entre Ronaldo Caiado e José Eliton ou entre Caiado e Daniel, qual seria o posicionamento do PT?

O partido decide as suas posições de forma colegiada. Mesmo tendo a crença na nossa candidatura, respondo a sua pergunta assim: esse seria um segundo passo, decidido por cada companheiro e companheira pelo voto.

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