Inferno astral

Tucanos e base aliada encaram a pior crise de sua história depois de quase duas décadas de poder e eleições deste ano

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Fagner Pinho

A eleição deste ano em Goiás não poderia ter sido mais devastadora para a base aliada. Em especial para o PSDB, maior partido da base governista durante os quase 20 anos de permanência do grupo, liderado pelo ex-governador Marconi Perillo (PSDB), no comando do Estado. Além de perder o poder na administração estadual, o partido viu minguar em quase 50% suas cadeiras na Assembleia e eleger apenas um deputado federal.

A base aliada ainda perdeu as três vagas ao Senado que possuía em 2014. Naquele ano, o então deputado federal Ronaldo Caiado (DEM) venceu Vilmar Rocha (PSD) na disputa por uma vaga. Neste ano, o ex-governador Marconi Perillo e a atual senadora Lúcia Vânia (PSB) não se elegeram. As vagas ficaram com a oposição, que elegeu o empresário Vanderlan Cardoso (PP) e o radialista Jorge Kajuru (PRP).

Não bastasse a derrota nas urnas, o inferno astral do PSDB atingiu em cheio ex-governador Marconi Perillo (PSDB) por meio da Justiça, que decretou sua prisão três dias após a eleição por indícios de participação em um esquema de financiamento irregular das campanhas de 2010 e 2014 do PSDB, que culminou com a Operação Cash Delivery, da Polícia Federal no início do mês. A defesa de Marconi nega irregularidades nos financiamentos.

Nesta semana, novo abalo. O ex-governador Marconi Perillo e o ex-secretário de Governo João Furtado Neto tiveram seus bens bloqueados no valor de R$ 7.632.190,50 pela Justiça. A decisão foi resultado de ação ajuizada pelo Ministério Público de Goiás e é referente a um decreto 7.141/2010, que aumentou em 25% o valor das diárias e indenizações de transporte para o governador, vice-governador, secretários de Estado e ocupantes do Poder Executivo. Segundo a ação, a medida teria gerado um prejuízo de mais de R$ 2,5 milhões ao Estado. A defesa de Marconi novamente nega as irregularidades.

A situação financeira do Estado é outro fantasma a assombrar os tucanos. Os atrasos no pagamento a fornecedores e no repasse a Organizações Sociais geraram uma grave crise no Hospital de Urgências de Goiânia (Hugo), o maior do Estado, que chegou a ter sua interdição solicitada pelo Ministério do Trabalho, devido à impossibilidade dos profissionais da Saúde exercerem suas funções.

O quadro se agravou mais após as eleições. Sem dinheiro em Caixa, servidores e membros do Tribunal de Justiça e dos Tribunais de Contas, bem como servidores da Secretaria da Fazenda, não receberam seus salários em dia. Até o fechamento desta edição, o pagamento ainda não havia sido creditado.

A situação financeira do Estado foi alvo de levantamento realizado pelo consultor Raul Velloso, que apontou que, além de Goiás, outros seis estados – Minas Gerais, Mato Grosso, Rio Grande do Norte, Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul – além do Distrito Federal, não conseguirão fechar as contas no final do ano.

Outro desgaste é o do presidente da sigla em Goiás. O deputado federal Giuseppe Vecci não se reelegeu e hoje enfrenta críticas duras de aliados, por sua suposta preferência em auxiliar aliados no pleito deste ano. Após todos os tropeços e percalços, grande pergunta é o que a base fez de errado neste ano. E mais: conseguirá se reerguer após uma derrota tão grande nas urnas e uma crise financeira que assusta a todos no Estado?

Giuseppe Vecci, Marconi Perillo e José Eliton, presidente, ex-governador e atual governador: cúpula tucana naufragou nas eleições deste ano. Reerguimento é desafio

Desgaste

Um dos primeiros a falar após as eleições sobre o fracasso da base governista neste ano foi o presidente regional do PSD, Vilmar Rocha, que concorreu como primeiro suplente do candidato ao Senado Marconi Perillo. Em entrevista à Rádio Bons Ventos, ele cravou o desgaste de 20 anos de poder como o principal dificuldade da base.

“O grande problema é quando um grupo vai ficando muito tempo no poder, ele vai ficando dentro de uma bolha de interesses legítimos ou não. Dentro de uma bolha perde o contato com a sociedade, o contato com as pessoas. Vamos até usar uma expressão mais romântica: ter contato com as ruas, com as vozes roucas das ruas. Isso é um perigo para uma pessoa”, apontou.

Para ele, os partidos precisam sair da bolha criada por este longo período no poder para se reaproximar da população. “Então, a gente tem que, todo dia ao sair de casa, passar Bombril na pele para sentir, para perceber e muitas vezes quem vai ficando muito tempo no poder vai perdendo esse contato. Isso é uma verdade que quaisquer grupos, quaisquer pessoas têm que ter muito cuidado. Não perder o chão da realidade, não tirar o pé do chão, sair dessas bolhas que se criam às vezes em torno dos governantes”, afirmou.

As críticas de Vilmar não são recentes. Desde 2016, ele defendia um nome alternativo para a disputa ao governo estadual do lado da base aliada. O ex-deputado sempre foi enfático em afirmar que a manutenção da candidatura do vice-governador José Eliton (PSDB) seria um grande erro.

A insistência denotaria, argumentava, a tentativa de continuísmo do grupo político que comanda o Estado há 20 anos. “Defendo a continuidade de ideias, de manter o que deu certo na gestão, mas não o continuísmo. O continuísmo é um erro. E a manutenção das mesmas pessoas no poder”, dizia. O resultado comprovou sua teoria.

Perseguição

Já outro importante nome da base governista, o ainda deputado federal Jovair Arantes, que preside regionalmente o PTB, apontou outro problema. Para ele, a Operação Cash Delivery, deflagrada praticamente uma semana antes do primeiro turno das eleições, suplantou qualquer possibilidade de eleição de nomes governistas na eleição.

Segundo Jovair, que também não conseguiu se reeleger neste ano a uma cadeira na Câmara dos Deputados, o Ministério Público Federal e a Polícia Federal poderiam ter aguardado o fim do processo eleitoral antes de realizar a operação.

“O Marconi é um grande homem, um homem de Deus, um homem de fé. Entendo que o que foi feito com ele foi uma perseguição política muito intensa nesse período eleitoral. Volto a repetir que isso não é normal. Isso não é do processo democrático. Poderiam muito bem ter esperado o processo eleitoral para fazer o que tem que fazer”, justifi cou, em entrevista à Rádio Sagres.

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