Jogo dos 7 erros

Vinte anos no poder e o desejo de mudança do eleitor atrapalharam, mas problemas internos foram cruciais para a derrota tucana em Goiás

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Foto: Arquivo Tribuna do Planalto

Daniela Martins

Não foram “apenas” os quase 20 anos de poder que pesaram sobre os ombros da base governista. Um conjunto de fatores, internos e externos, desenhou o vexame eleitoral do PSDB e de seus partidos aliados. A começar pelo cenário político nacional que, imerso em um propagado desejo de mudança, barrou a eleição de nomes tradicionais como da ex-presidente Dilma Rousseff (PT-MG) e do presidente do Senado, Romero Jucá (MDB-RR), entre outros, pelo país. A ideia reverberou por aqui, com Ronaldo Caiado (DEM).

“Vejo certo cansaço, certa fadiga, do eleitorado quanto à questão dos governos. Há o desejo de mudança. E se é mudança ou não, isso é outro problema. Mas é um desejo de alterações no quadro político”, argumenta o professor e cientista político Itami Campos. Ele prefere não falar em “erros” do PSDB ou da base. Defende que o contexto de 2018 era desfavorável. “Vejo nessa perspectiva”, reforça.

Ronaldo Caiado se apropriou do discurso de oposição pregando a mudança com linguagem direta e moderna

Itami cita a eleição para o Senado Federal como demonstração dessa vontade do eleitor de mudar as faces do poder. “No Senado é bem presente a vontade do novo, de virem pessoas novas, mudanças”, avalia. E, como adendo, faz crítica à escolha de Jorge Kajuru (PRP), eleito senador por Goiás. “Não vejo mudança nenhuma com Kajuru, vejo piora. De qualquer forma, há um desejo de mudar o quadro”, observa.

Sobre a derrota de Marconi Perillo (PSDB) na eleição para o Senado, o professor aponta, de novo, um fator externo: a operação Cash Delivery, da Polícia Federal. Houve uma influência da denúncia a uma semana da votação, reforça. “Marconi é um político consagrado, tradicional e, de certo modo, tinha a eleição mais ou menos garantida, estava em primeiro lugar até duas semanas antes das eleições. Na hora que saiu a denúncia interferiu diretamente. Esse é um negócio que ninguém pode negar.”

Falhas internas

Se o desgaste natural de quase duas décadas de poder já era problema para a reeleição da base aliada, os tropeços internos ajudaram as enterrar quaisquer perspectivas de continuar à frente do Estado. “O PSDB cometeu erros que nem de longe pareciam o Tempo Novo de antes”, assevera Márcio Lima, da BM2 Comunicação, que trabalha na área de comunicação e marketing político há 27 anos.

Márcio Lima afirma que erros na comunicação e marketing foram determinantes para a derrota em uma campanha, considerada por ele, desastrosa eleitoralmente para o PSDB e aliados. “Enquanto a campanha do PSDB tentava atacar Ronaldo Caiado com assuntos requentados, Caiado pregava a mudança, com linguagem moderna, direta, eficaz, acertando uma estratégia previamente definida: apropriar do discurso de oposição”, comenta. Lembra que nem mesmo o maior tempo de tevê e rádio foi capaz de evitar um terceiro lugar na disputa pelo governo do Estado.

Na disputa pelo Senado ficou bem claro a vontade popular pelo novo. Se vai haver mudança ou não, isso é outro problema

A lista de erros internos citados por Márcio continua. O PSDB falhou ao lançar a chapa pura ao governo, teve dificuldades em fechar apoio, sofreu com a ausência de um coordenador político com experiência e ainda teve o fato de subestimar o senador Wilder Moraes (DEM) e o Partido Progressista (PP).

No meio do caminho, mais tropeços. A base aliada não conseguiu desvincular a imagem de continuidade do governo Marconi Perillo. “Não entendeu que o que a população queria era mudança.” Outra estratégia falha: tentou simplificar demais a figura do governador o chamando de Zé durante a campanha. “Foi uma clara tentativa de mostrar aproximação e que o governo não era um legado feudal em comparação a outras duas principais candidaturas”, avalia. De quebra, finaliza o marqueteiro, o PSDB nacionalmente deu apoio ao governo Michel Temer.

É tempo de espera

Qual o caminho para o PSDB, em particular, e, por consequência, para a base aliada se refazerem? A resposta não é para já. Tanto Itami Campos quanto Márcio Lima preveem que agora é tempo de espera, de observar como será o novo governo, com Ronaldo Caiado na direção do Estado.

“Agora tem um período de caracterização, de ver como será e qual o desempenho dos novos governos”, defende Itami Campos. Na sequência virá o tempo de se refazer, remontar as estratégicas. “Vamos ver como vão se portar e se conduzir os novos governos e qual é a conduta que pode ser postulada.”

Itami acredita que o MDB vai estar fora do governo e possivelmente o PSDB também, porque fi zeram menos deputados. Há ainda o fato de uma nova base de governo se formar. “Isso faz parte da política regional, a adesão das militâncias, do partido. A expectativa é que se espere um pouco para ver como as coisas andam”, diz. Esse é o caminho para trabalhar com menos erros possíveis nas eleições municipais de 2020.

Tentáculos

A força do PSDB pelo interior é lembrada por Márcio Lima, o que, certamente, é um importante ponto de apoio para a reconstrução tucana. Assim como é determinante a linha que será desenhada por Marconi. “O PSDB é um partido com vários prefeitos, vereadores e lideranças no interior, vai passar por uma depuração e deve fazer uma reflexão profunda”, reforça. “E vai depender da reação do seu principal líder, o ex-governador Marconi Perillo. Começar uma restruturação de suas lideranças deve ser um caminho adotado para o partido.”

Como Itami, Márcio Lima aposta que vale a pena entrar em um compasso de espera e observar o cenário. “Deve ser levada em consideração como vai ser a atuação do novo governador com essas lideranças do partido. O DEM é um legenda que diminuiu bastante em Goiás e agora deve se tornar uma opção aos que não desejarem ficar no PSDB para buscar recomposição com o governo que deve iniciar em 2019”, aposta.

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