‘Zezão’ respira história e tecnologia

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Foto: Divulgação

Daniela Martins

Enquanto o professor conta, com brilho no olhar e entusiasmo na voz, a história de um rádio gravador da década de 1980, o estudante entra no Museu Escolar de Tecnologia e dá-lhe um beijo no rosto. Ao mestre, todo carinho. Andar pelos corredores do Colégio Estadual Deputado José de Assis ciceroneado por Francisco Leal é sentir a admiração e o respeito que todos ali têm pelo professor de Matemática readaptado, que hoje cuida da Biblioteca. Dos 62 anos de idade, 40 foram dedicados ao magistério. Quinze deles no Zezão, como é carinhosamente conhecida a escola.

Tanto apreço tem motivo. Das ideias que se consolidaram no colégio, muitas nasceram inspiradas por Leal e foram materializadas pelo esforço conjunto de estudantes, professores, coordenadores e servidores administrativos. Sempre com o apoio da comunidade. Uma das conquistas é o primeiro Museu Escolar de Tecnologia da rede estadual goiana. Outra, é o Curso Técnico de Informática Integrado ao Ensino Médio, uma parceria da Secretaria de Educação, Cultura e Esporte de Goiás (Seduce) com o Ministério da Educação (MEC), dentro do programa federal Brasil Profissionalizado.

No curso, uma alternativa ao Ensino Médio Regular, que também é ofertado na unidade escolar, os estudantes têm acesso a disciplinas que preparam para o mercado de trabalho e antecipam conhecimentos com os quais só teriam contato no Ensino Superior. Ética profissional e ensino profissionalizante são algumas delas, e foram temas da palestra do professor José Carlos Cordeiro durante a Semana da Tecnologia promovida no Colégio Estadual Deputado José de Assis.

Hoje professor do Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec), José Carlos participou da implantação do curso no José de Assis. “Foi um sonho, sou da época dos cursos técnicos e, se os jovens fazem isso no segundo grau, vão ter uma maior facilidade na faculdade”, vislumbra o educador, que considera os técnicos uma ‘porta de emprego’.

Eliane Cristina da Silva é tutora do Colégio Deputado José de Assis e de mais duas escolas da rede. Enxerga nos cursos profissionalizantes um estímulo aos jovens e defende a ampliação deste programa integrado ao Ensino Médio. “Hoje o aluno tem que ter um aprendizado voltado para o mundo do trabalho. Aqui falamos de tecnologia, mas há outros cursos técnicos que são aplicáveis no mundo profissional”, avalia.

Bem equipado, o colégio oferece aos estudantes tanto do Ensino Regular quanto do profissionalizante, dois laboratórios de informática. Um para as aulas práticas de manutenção dos computadores, onde montar e desmontar é a lição predominante em sala de aula; e outro com equipamentos em pleno funcionamento para uso nas aulas teóricas.

Semana da Tecnologia

Peças Lego – brinquedos de partes coloridas que se encaixam – combinados com cabos de impressora, baterias e pilhas se transformaram, literalmente de um dia para o outro, em um projeto para a Semana da Tecnologia feito por três alunos do EP1. No primeiro dia da feira estudantil, sentados em um canto do corredor, Eduardo, Kelvin e Nicollas se debruçavam sobre os dois robôs feitos de Lego que circulavam pelo chão guiados por controle remoto.

Entusiasmados, os estudantes contam que a ideia nasceu na véspera da Semana da Tecnologia. Tiveram só um dia para pesquisar, encontrar as peças necessárias, montar e experimentar. E os testes continuavam durante a apresentação do projeto aos visitantes da exposição.

Eduardo Sabate, 20 anos, começa a explicação. “Fizemos baseados nos carrinhos da Nasa, com as poucas peças disponíveis.” Nicollas Nazário, 17, comenta a conquista. “Ainda estou associando, mas é bacana. A gente montou e desmontou… até acertar a mão. Mas não está perfeito.”

Logo em frente aos três garotos, itens de informática estavam sobre mesas escolares. A turma do EP3 apresentava seus conhecimentos sobre hardwares, essas peças que integram os computadores internamente, além de monitor, teclado, estabilizador. Professor do EP3, Ivone Sousa de Paulo conta que o objetivo é apresentar a quem não faz o curso técnico o funcionamento dos itens. “Os estudantes explicam o que cada componente faz e é interessante para despertar a curiosidade nos visitantes de conhecerem realmente como funciona um computador”, diz.

Além das exposições e palestras com professores da rede estadual, da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC), do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac) e da Faculdade Pitágoras, a Semana da Tecnologia oportunizou aos alunos e visitantes a participação em oficinas sobre manutenção preventiva de computadores, redes e cabeamentos, excel, entre outras temáticas.

Teve ainda oportunidade para quem gosta de Português se aprofundar no uso da língua em meio à tecnologia. Universitários do curso de Letras da PUC ofereceram aos estudantes a oficina de Gêneros Digitais. Uma aula sobre a variação linguística nas redes sociais e a diversidade dos gêneros textuais.

“Explicamos porque o português que se fala no dia a dia, na escola, é diferente do usado no Whatsapp, Facebook, Instagram”, adiantou o universitário Rômulo Acássio. Na oficina, os estudantes compreendem ainda que a língua não é só a escrita, imagens e memes da internet têm significados. “É sobre tudo isso que a gente trabalha”.

“Nosso museu”

Para o professor Leal, o maior legado do Museu Escolar de Tecnologia do Colégio Estadual Deputado José de Assis não está em nenhum dos objetos que compõem seu acervo em construção mas sim na consciência de seus estudantes. Estimulados a cuidarem do museu e a buscar formas de ampliá-lo, os alunos aprendem sobre o valor da história, reconhecem o contexto em que as peças eram utilizadas e a importância de se preservar a memória coletiva.

Professor Leal conta que, recentemente, levou os estudantes para visitarem o Museu Zoroastro Artiaga (Muza), unidade da Seduce que fica na Praça Cívica. “Quando os alunos chegaram e viram algumas máquinas no Zoroastro, disseram ‘olha, tem no nosso museu lá do colégio’. Quer dizer, você vai despertando a consciência da memória, o imaginário dos alunos”, expõe.

Depois do incêndio no Museu Nacional, no Rio de Janeiro, o Museu Escolar ganhou maior prestígio, diz o professor. As pessoas despertaram para a importância dessa cultura e passaram a ter mais curiosidade, a visitar o espaço com mais frequência. Tanto pais e familiares dos alunos quanto gente de fora, da comunidade local.

O Museu Escolar é de encher os olhos. A começar pela Remington de 1920, uma máquina de datilografia que, como relata a explicação da peça, “escreveu muitas histórias”. Há peças do acervo que fizeram parte do dia a dia escolar, como o mimeógrafo, que fazia as cópias de provas para os alunos. Lembra do cheirinho de álcool e das letras em tom azulado? E ainda o telefone de discar preto, pesado e elegante dos anos de 1960.

Tem gravadores de fita K7 do final da década de 1970, de variados tamanhos e pesos. Um disco em vinil de 1970 com canções de “As Pupilas do Senhor Reitor”, interpretadas pelos atores da telenovela. Tem lampião a querosene e objetos mais ‘modernos’, como disquetes, um microscópio, aparelhos de scanner, retroprojetor e fax, além de muitos modelos de celulares.

“O museu ficou bem legal, fizemos sorteios para arrecadar dinheiro e trazer muitos desses equipamentos. Quem tiver oportunidade, vem visitar”, convida o estudante Leandro Borges, de 17 anos. “É bem legal as pessoas virem”, completa Pablo Gabriel, 16 anos. A coordenadora pedagógica Aparecida Pelhes reforça o convite, ressaltando que é uma oportunidade de conhecimento “muito valorosa”.

O Museu Escolar de Tecnologia está aberto à visitação. O Colégio Estadual Deputado José de Assis fica na rua C-121 esquina com C-117, no Jardim América.

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