Palestra: Paulo de Tarso | “O brasileiro comum não gosta de política”

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Foto: Divulgação

Famoso nacionalmente no meio da propaganda política, o publicitário Paulo de Tarso esteve em Goiânia, para participar como palestrante do I Simpósio de Comunicação Política de Goiás – O que podemos aprender como os resultados das Eleições de 2018? O evento, promovido pelo Núcleo de Estudos em Comunicação Política de Goiás (NECP), reuniu outros três estudiosos do marketing político no dia 30 de novembro, na Câmara Municipal de Goiânia. O professor Itami Campos, PHD em Ciência Política e professor titular da Universidade Federal de Goiás, Marcos Marinho, mestre em Comunicação e doutor em Ciências da Comunicação (UFG) e Paulo Faria, publicitário, jornalista, psicanalista e mestre em Comunicação (UFG).

Premiado em festivais como Cannes, Nova York, Londres, Clio Awards, Fiap, CCSP, Prêmio Nacional Profissionais do Ano, Paulo de Tarso coordena campanhas nacionais desde 1982, com Franco Montoro ao Governo do Estado de São Paulo. De lá para cá, sempre esteve à frente de grandes disputas em todas as eleições majoritárias, atuando como coordenador, criador e consultor estratégico em várias campanhas vitoriosas em todo o país e no exterior. A seguir, parte da palestra de Paulo de Tarso que analisa a eleição de 2018 no Brasil e assim como os demais palestrantes alerta: disputa de 2020 já começou e mais do que nunca, o trabalho não pode começar de última hora.

Eu estava escutando as palestras do Paulo Faria e dos professores Marcos Marinho e Itami Campos e entendendo perfeitamente que a questão central é: o que aconteceu? De repente o Brasil dormiu petista e acordou bolsonarista? Que papo é esse? Como é que pode, de repente, a gente ter essa situação que era muitíssimo pouco provável para todos os estudiosos. Qualquer um que tivesse analisado a situação há dois anos da eleição não diria que isso aconteceria. Seria impossível achar que isso iria acontecer em um processo democrático. O princípio básico disso é que os brasileiros não gostam de política. Os seres humanos comuns não saem de casa para ver o outdoor que o Paulo de Tarso fez ou para escutar o jingle e dançar com o candidato. Os seres humanos comuns, embora sejam na definição “seres políticos”, negam o mundo político. Vivem em um ambiente político, fazer política tem que ser uma escolha da pasta de dente, da universidade, enfim, é básico, mas o ser humano brasileiro não gosta de política de maneira geral. Mas por que não gosta? Porque não tem tempo. A vida é muito dura. A pessoa tem muita batalha para ficar discutindo. Nos botecos na véspera de eleição, que o assunto esquenta. Então todo mundo discute, discute, mas depois vai tocar a vida. O mecânico vai arrumar carro, o jogador vai jogar bola, e os eleitos vão para seus cargos. Mas é só nesse período.

“Desde a pré-história o homem teve contato com a política por meio de símbolos e se envolve de forma superficial”

Mobilização política via símbolos
Partindo desse princípio, da história da comunicação política do mundo, chegamos à conclusão de que a política se mobiliza na pós-democracia via símbolos. Cada vez mais nós estamos sentindo isso e vendo a política mobilizar o eleitorado via símbolos. Embora ele esteja estudando discurso e a simbologia não elimina o discurso. Desde a pré-história, o homem teve contato com a política via símbolos. Se fizermos uma visita a um Museu em Londres sobre a Grécia estarão lá todos os políticos em estátuas de mármore, grandes para as pessoas verem. Veremos Napoleão (Napoleão Bonaparte) em um quadro deste tamanho. Não é que tem lá um quadro brilhante. É o Napoleão. Pompéia quando foi descoberta 80% das paredes eram pichadas, tudo candidato a edil, candidato a vereador. Quer dizer, a situação não é simples, porque existe uma eterna disputa de interesse e é isso que a gente não colocou aqui com tanta clareza. Então, eu vou tentar, fazer um pequeno resumo partindo desse conceito, ou seja, que o homem comum não gosta de política, no sentido de que até gosta, mas se envolve por cima, superficialmente.

Constituição de 1988
Saímos do regime militar para um processo de Constituição, para estabelecermos regras eleitorais, com a Constituição de 1988. Essas regras partiam do princípio de que quanto mais política na vida das pessoas, melhor. As pessoas não tinham o interesse natural pela política, mas que era importante a formação política, porque no final as grandes decisões são tomadas pela formação política do povo. E foi assim que a Constituição legislou. Foi dessa forma. Então, no início, chegávamos a ter problemas partidários uma hora antes, nós chegamos a ter campanhas, a primeira campanha a governador, eles centraram a Lei Falcão, porque todas as leis que eles experimentaram a liberdade de comunicação política, eles perderam. Sempre. Nenhum conseguiu. Em 1982 tivemos a eleição para governador.

Foto: Divulgação

Igualdade de competição
Já foi uma eleição com programas grandes, e a partir daí, em 1985 e em 1988 com a Constituição, se fortaleceu um sistema de apoio eleitoral que tinha como base a liberdade de expressão e tinha como base a igualdade de competição. Isso se tentou com termos profissionais, mas é basicamente isso, a liberdade de expressão e igualdade de competição. Bom, o que acontece nesse período para cá – e estou falando de um período que a maioria de vocês não viveu. Acontece que com a eleição de Fernando Henrique com o Collor, na verdade a eleição foi Lula e Collor, foi ali que tivemos o Lula Lá, que levou minha vida e minha carreira com muito orgulho. Vem o Collor, vem um representante tradicional da elite brasileira, que nós estávamos acostumados, não mudou nada, quem foi eleito foi o candidato apoiado, enfim. Vocês conhecem toda a história.

O inimigo
E nessa eleição (1989), que foi pragmática pelo tempo que ela passou, mas também pelo valor simbólico. Nós fizemos na Rede Globo de Comunicação. Eu pensava assim: bom, se tem de atacar o inimigo,se a gente quiser ganhar, vamos atacar o inimigo que manda no Brasil, que é o Roberto Marinho. Por que ficar tentando bater boca com esses caras? Então, vamos bater boca com o Roberto Marinho. Bom, aquela eleição, no meu ponto de vista, ganhou o anticomunismo, que diga-se de passagem até agora está vivo. A Guerra Fria não acabou, os elementos e instrumentos de assustar o povo continuam, mas o Lula saiu presidenciável como um candidato ético, sério, com capacidade de mudar o Brasil, enfim, ele saiu muito bem da eleição.

Profissionalização
De lá para cá, em minha cabeça o que acontece é que a troca política, o exercício da política foi se profissionalizando. Os políticos se tornaram elementos de levar e trazer reivindicações do povo – para falar pouco, né? – e o sentido das ideias foi se perdendo. Os eleitos passaram a relevar a importância das ideias, da transformação do mundo. A política existe em função de transformar o mundo e cada um vai transformar o mundo para seu lado. Não estou dizendo que tem de transformar o mundo nem para lá nem para cá, mas fizemos uma geração que vem desde Fernando Henrique que os caras começaram a trabalhar na ética do resultado, isso define bem. Fazer ponte,fazer estrada, fazer não sei o que, e parar a pregação da socialdemocracia.

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PSDB X PT
Quando eu fui assessor do Fernando Henrique (ex-presidente Fernando Henrique Cardoso), ele ainda me chamou para dar um pouquinho de brilho. E o que nós fizemos foi lançar as bolsas, para quem não sabe, lançamos a Bolsa Educação, Bolsa Família. Até hoje o PT grita que é deles, o PSDB grita que é deles. Mas foi isso que fizemos. Em dois anos lançamos todas os programas sociais que tinham esse sentido simbólico de um governo que apoiava o povo. Bom, então vem o Lula (2002). Lula chega carregado nos ombros da torcida organizada. Eu fui trabalhar com ele imediatamente, pois achei que era meu dever como brasileiro estar ali do lado para a gente promover a grande mudança. Já de saída, cartas aos brasileiros, que do meu ponto de vista é uma carta de rendição, porque o Lula tinha poder político, por exemplo, para poder negociar uma participação dos bancos no desenvolvimento brasileiro. Não precisava brigar nem nada, mas alguma coisa, 2%, 3%, 5%. Mas antes de sair, carta. E olha, gente, o que tem de autor dessa carta aos brasileiros eu já li uns cinco, seis, porque em um leão morto todo mundo põe o pé.

“A política existe em função de transformar o mundo e cada um vai transformar para o seu lado”

Cooptação de Lula
Quando o Lula chegou ao poder, o ânimo dele de transformação já tinha acabado. O PT conseguiu atuar no ambiente político brasileiro de forma transformadora em alguns locais. Em Santo André (SP), no Estado do Ceará, mas de maneira geral, o PT já chegou ao poder cooptado no financiamento das campanhas, porque a legislação não ajuda a igualdade de competição no que se refere ao dinheiro. Ela dá espaço de televisão, dá espaço de rádio, mas ela faz uma coisa que a pessoa não compete se não tiver dinheiro, e Lula deu essa informação para mim. “Se a questão é dinheiro, a gente vai ganhar”. Foi essa frase que ele disse. Foi o momento em que cedeu ao pragmatismo, que depois resultou em toda essa história que nós vimos. Então passamos pela Dilma (ex-presidente Dilma Roussef (2011-2016). Em 2013, as manifestações muito claras, que são muito importantes. Pessoas que se sentiram vítimas da Dilma, que é uma presidente inédita, uma escolha inédita, de uma pessoa sem conhecimento político,sem capacidade de exercer o cargo.

“O PT já chegou ao poder cooptado pelo financiamento das campanhas. Lula já tinha perdido o ânimo da transformação”

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Fenômeno Bolsonaro
E então chegamos a esse pleito agora, que eu quero chegar para falar sobre o fenômeno Bolsonaro. Do meu ponto de vista, Bolsonaro é o menor do segmento. Ele começou na faixa dos 20 pontos, sempre vibrando no segundo lugar. Todos nós achávamos que ele era uma espécie de Celso Russomanno. Todo mundo achava que ele não se sustentaria. Ele foi firme, se sustentando e tal, chegou a 25%, 26%, 27%. Todos nós com cenário e pesquisa, disse o Paulo Faria com grande sabedoria, fazendo pouco, achando que não, que ele não chegava, que ele iria se desidratar. Todos os pesquisadores que você conversava “Ah, não, isso é coisa de tempo, ele vai desidratar”.

A facada 
E o Bolsonaro fica ali e quando ele começou a ter um pequeno desgaste, porque o que explica a eleição dele é o direitismo. Do ponto de vista estrito, a força motora que elegeu o Bolsonaro foi o antipetismo. Tudo bem que tem as questões técnicas que eu ouvi há 30 anos, mas não estamos falando do campo das ideias, então foi o antipetismo. E aí, o que acontece? Esse candidato que estava patinando, muita gente sonhando alto, achando que podia e o cara leva uma facada. Vocês querem algo mais simbólico do que a alegação de tudo que está aí tentar matar o cidadão? Estou dizendo que a gente se comunica e trabalha com os símbolos. Quando eu falo para você Lula Lá, eu estou dizendo Lula no poder para transformar o Brasil. O candidato leva uma facada na barriga. Entendeu? Então, com essa facada na barriga ele começa a aumentar os votos. Ele já tinha passado dos 60% de rejeição. Ele não ganharia e eleição no segundo turno, já tinha um monte de outras questões, mas levou a facada e puff!

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A vanguarda 
Foi uma questão simbólica. Surge o desprezo da dita esquerda com relação ao povo conservador, as famílias, os pontos de vista mais conservadores, enfim, quase que sobre a ditadura do politicamente correto. Porque o politicamente correto se tornou destaque na Globe. E essa é uma pergunta que me faço: porque a Globo tem tantas novelas gay? O que ela ganha com isso? Penso que ela quer estar na vanguarda, mostrar que é uma novela contemporânea, que está tratando dos temas de comportamento e estar na vanguarda. O problema é que as minorias são estudadas, tem muitos livros sobre isso, o papel das minorias não é rala e roda. É uma doença infantil, você insistir nas vanguardas, tanto a direita quanto a esquerda, em teses esdrúxulas de que uma drag queen deve andar, sentar no colo do noivo no restaurante, por exemplo. Você está optando por uma vanguarda de comportamento que destrói o centro. O Allende (Salvador Allende),quando caiu no Chile não caiu por causa direita, caiu por causa da esquerda que matou o militar dele na véspera do golpe. Imagina o que é para os militares ter um capitão morto pela esquerda, como simbologia? Então, as vanguardas têm um papel na vida social bastante grande. Elas são uma espécie de luz onde a gente deve chegar um dia, mas elas não podem ir para o poder. Se elas tiverem o poder, elas acabam estreitando absolutamente o debate.

“A vanguarda é uma espécie de luz que deveríamos alcançar um dia, mas não pode chegar ao poder so pena de estreitar o debate”

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