Artigo | O fanático

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Foto: Internet

Por Jorge A. Monteiro de Lima

“…O fanatismo é a única forma de força de vontade acessível aos fracos”… Friedrich Nietzsche

Quando me questionam se existem na sociedade muitas pessoas adoecidas mentalmente, sempre lhes peço para refletir sobre os fanáticos da política, religião, desporto. Basta um simples olhar para perceber o quanto pessoas têm sua alma adoecida por uma paixão. Sabe aquelas pessoas que vão a público para defender ideias absurdas e falar asneiras?

Hoje na sociedade existem apenas 30% de pacientes com problemas mentais que se tratam da forma correta. Outros 70% estão por aí sem se tratar, gerando inúmeras confusões e problemas sociais. E o custo disto para o adoecido, sua família e toda sociedade é alto.

O fanatismo é uma doença mental grave, de teor psicológico que inicia na carência, na fragilidade da vida afetiva, no orgulho, na teimosia, na vaidade de querer vencer no grito, distorcendo a realidade, gerando vários delírios e fantasias de onipotência, de salvação de megalomania. É o sentimento de ser especial, ser salvo, de ser o Salvador da pátria, redentor do mundo e da humanidade. Isto tem um altíssimo preço a ser pago, tanto por quem vive em delírio quanto para os que seguem quem delira.

O primeiro problema é que no delírio, o fanático cria um mundo ideal, fora da realidade, fora de uma percepção sadia. Uma psicose de teor megalomaníaco que quer construir uma torre que se eleve aos céus e desafie a divindade, ou semelhante ao teor arquetípico do mito de Ícaro.

O fanático não respeita limites, está na realidade vivendo em fantasia, preso a seu orgulho. Perde sua capacidade de aprendizagem e a possibilidade de convívio sadio em sociedade. Torna-se uma pessoa com uma estreiteza mental grave, limitando a sua existência.

O segundo ponto frequente que decorre do fanatismo é a agressividade, violência e a
intolerância, já citadas anteriormente. É o que transforma um “homem de bem” em um bandido. Por ser rígido, duro, por distorcer a percepção da realidade, o fanático não consegue dialogar, aceitar as diferenças, outras ideias e opiniões. Sendo assim, tende a brigar, a gerar confusão, a alimentar animosidades para tentar se proteger de seu próprio medo, seu castelinho mágico ilusório.

Mobilizado por seu sentimento de escolhido por Deus, de ser especial – o que evidencia uma fragilidade de autoestima e carência enormes – o fanático não pensa duas vezes em brigar por sua ideologia ou ponto de vista toda vez que alguém o questiona. Tudo isto o torna uma pessoa preconceituosa e problemática.

O fanatismo envolve como nas demais psicoses a paranoia, o medo generalizado, muita fragilidade psíquica mas com um forte teor de rigidez e teimosia. O fanático acaba, em boa parte das vezes, na delegacia, envolvido em vários tipos de confusão. Primeiro como vítima, por cair em várias ciladas que seu orgulho não lhe permitiu perceber. Depois como algoz, por sua intolerância. A queda da torre e o despencar no abismo.

O terceiro ponto crucial do fanatismo é a sua idolatria ou tara. A rigidez, falta de maleabilidade, incapacidade de aprender ou mudar, o que evidencia um problema psicológico grave, um complexo autônomo que minou a capacidade natural de mediação do Ego. Existe uma tendência natural de uma pessoa fanática de procrastinar, de ser demorada para tudo na vida que não seja ligado à sua paixão. Rompe com sua individuação por viver de forma rígida e sem capacidade de aprendizagem.

O tratamento para um fanático envolve o tratamento psiquiátrico pelo teor de psicose de sua doença e uma psicoterapia profunda semelhante ao tratamento de um paciente bipolar.

 

Tais pacientes só procuram ajuda após destruírem sua vida, entrarem em problemas financeiros e pessoais graves. Vários são presos ou respondem a processos por preconceito, intolerância e agressividade, casos que, se tratados, poderiam evitar muita dor de cabeça…

Jorge A. Monteiro de Lima é analista, pesquisador em saúde mental, psicólogo clínico e mestre em Antropologia pela UFG. Site: www.jorgedelima.com.br

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