Entrevista | Dra. Cristina: “Parece que a cidade adoeceu!”

0
356

Pré-candidata à Prefeitura de Goiânia pelo Partido Liberal (PL), a médica Cristina Lopes, é vereadora na capital há 7 anos. Ao Tribuna do Planalto, a Dra. Cristina falou sobre sua saída do PSDB, de como vem construindo um projeto para Goiânia e de como Goiânia seria sendo administrada por uma mulher.

Tribuna do Planalto – Doutora Cristina, a senhora é pré-candidata à Prefeitura de Goiânia?

Cristina Lopes – A candidatura pelo Partido Liberal a prefeita de Goiânia já é uma realidade, já é uma decisão tomada e nós estamos organizando o nosso trabalho e os grupos que nos apoiam para que a gente construa um projeto para o bem das pessoas que moram em Goiânia e da cidade de Goiânia.

Por qual motivo a senhora deixou o PSDB? É um caminho sem volta? Há a possibilidade da senhora assumir como deputada estadual caso algum deputado seja eleito prefeito este ano. Já pensou nisto?

Em relação ao PSDB, eu tentei de todas as formas apresentar um projeto de candidatura, tanto no PSDB metropolitano quanto no estadual, isso não teve uma repercussão grande, não teve nenhuma animação aí dos meus colegas que comandam os dois núcleos do partido em Goiânia e em Goiás. Então a gente não sentiu esta reciprocidade. Eu fui a candidata que fiz 20.350 votos em Goiânia na eleição de 2018, então me parece que consistência eleitoral, reconhecimento de trabalho pela população nas urnas não é uma das pautas do PSDB, não é um dos critérios para a escolha de candidatura. Então isso nos obrigou a buscar outros partidos e fechamos com o PL e serei candidata pelo PL. Hoje sou pré-candidata para as eleições 2020. Em relação à vaga na Assembleia, a legislação eleitoral é muito clara. O que vale é o momento da eleição. Então qual foi a coligação pela qual eu me candidatei? Se hoje eu me mantenho no partido ou não, isso não importa para a lei. O que vale para a lei é o processo eleitoral que aconteceu em 2018. É muito infantil da parte do PSDB me mandar esse tipo de recado pela imprensa. Eles nunca me chamaram para conversar, não me chamaram para tentar rever a minha decisão e aí começam com esse joguinho de mandar recado pela imprensa. Uma coisa de pessoas imaturas. Tenho convicção que jamais seria uma atitude tomada por uma dirigente partidária. Isso não parte do PSDB Mulher. Eu tenho certeza. A lei é clara e está do nosso lado.

A senhora já começou os trabalhos de formulação de um projeto para Goiânia?

Sim! Nós temos o processo de construção do projeto continuado, né? Como relatora do projeto de revisão do Plano Diretor de Goiânia, eu tive uma oportunidade técnica de construir este projeto ou boa parte dele, e agora vamos entrar na segunda etapa de discussão deste projeto, que são os segmentos saúde, educação, trânsito, vulnerabilidade, a questão da assistência social no município de Goiânia, então isso me capacita e também me traz muita informação. Nós temos ali toda uma coleta de dados que nos dá substância para construir e ajudar na construção de um projeto de candidatura. Eu acho que isso que vai valer nestas eleições. São as suas propostas, o que você realmente tem de concreto e não aquelas propostas vazias. Vou trabalhar pela Educação. Vou trabalhar pela Saúde. Vou trabalhar para melhorar a vida das pessoas. São frases que são bonitas, mas não dizem muito. Não dizem o que vai ser feito, qual a estratégia, quais as metas, em quanto tempo. É isso que a população quer hoje. Ah, tá! Você vai por a luz no poste da porta da minha casa? Que dia? Qual a previsão? Quanto ela vai durar? Acho que isso que as pessoas querem saber. Na prática, o que vai acontecer, pra quando que eu posso esperar. Então é isso que a gente pretende. Participar coletivamente da construção de um projeto, porque ninguém faz nada sozinho. Nós precisamos de muita gente, de boas companhias para a construção de um projeto bom para a apreciação da população no processo eleitoral.

“Reconhecimento de trabalho pela população nas urnas não é uma das pautas do PSDB, não é um dos critérios para a escolha de candidatura”

Já são 7 anos na Câmara Municipal, quais as principais questões a serem resolvidas na capital atualmente?

O que a gente sente no exercício do mandato e andando pela cidade é que o ser humano, a pessoa humana não foi muito considerada nas últimas gestões. O olhar ficou para a infraestrutura, para obra, e esqueceu de valorizar o ser humano que é quem importa. A cidade só existe porque existe a pessoa. A casa só existe porque existe a pessoa. Nós temos um olhar e um foco muito grande no desenvolvimento humano. Qual o nível de satisfação de viver nessa cidade? Como as pessoas estão se sentindo nessa cidade? Ela me pertence? Eu tenho amor por ela? Eu tenho orgulho da minha cidade? É um índice que caiu muito em Goiânia e isso me chamou a atenção há uns seis anos, quando uma repórter da Editora Globo veio à Goiânia para a entrega de uma premiação e me disse que Goiânia havia mudado. Que antes se chegava em Goiânia e as pessoas abriam o vidro do carro, mostravam a cidade, os pontos turísticos. Hoje te pegam no aeroporto, fecham o vidro, de preferência com insulfilme bem escuro, e te levam para dentro de algum lugar, de um café, de um shopping. Parece que as pessoas não querem que você veja a cidade. Isso me chamou muito a atenção e eu comecei a olhar, a observar isso e a ouvir as pessoas neste sentido. O que é Goiânia hoje para você? Qual que é a sua história com essa cidade? O que ela já foi para você? A gente sente que as pessoas estão envergonhadas. A cidade está suja, a cidade está com muito buraco. Os nossos pontos turísticos, alguns foram revitalizados, mas a grande maioria, não. Goiânia não tem por exemplo, estacionamento para veículos de turismo. Nem vans nem ônibus têm onde parar. Esta é uma cidade que não quer se mostrar para o outro e quando a gente não quer se mostrar, é porque temos vergonha, né? A gente tem de construir esta cidade para que a gente possa bater no peito e dizer eu amo a minha cidade, tenho orgulho dela e quero mostrar a minha cidade.

A senhora fala muito da questão da Saúde em Goiânia. É o maior gargalo da atual gestão?

Essa atual gestão, como eu venho repetindo na Câmara Municipal, estabeleceu o corredor da morte em Goiânia. As doenças estão se agravando. Muitas vezes o problema é identificado no início, mas a demora é tanta em resolver o problema, quer seja com medicação, com exames complementares ou com cirurgias eletivas, que o estado da pessoa vai se agravando. Isso adoece aquela pessoa, quem está ao redor dela e os profissionais que a atendem. Porque quem faz um curso na área da Saúde, eu sou profissional desta área, a gente tem um juramento e você está vendo aquela situação se derreter nas suas mãos e você está incapacitado, você está imobilizado. Eu me lembro de uma das minhas visitas ao Cais de Campinas, na época da Comissão Especial de Inquérito da Saúde, a CEI da Saúde, que a gestora disse “a culpa não é só minha”. A gestora já estava trazendo pra ela a culpa porque ela estava à frente de uma unidade de saúde. Ela não tem possibilidade de resolver o problema. Por mais que haja a paixão, o compromisso com o que as pessoas fazem, elas não têm mecanismos para resolver o problema. Isso é muito sério porque há um adoecimento coletivo. Adoece quem está prestando o atendimento e adoece quem precisa do atendimento. A gente vê isso em vários setores em Goiânia. Na Saúde, na Educação, no Trânsito… Parece que a cidade adoeceu. As pessoas parecem estar em um processo coletivo de adoecimento. Isso é muito sério e reverter isso é muito difícil. Um exemplo claro, que me deixou, você vê, com tudo que a gente vive, visita as unidades, ontem eu fiquei muito chocada visitando o Wassily Chuc, que o nosso único hospital psiquiátrico que atende o Estado de Goiás. Ele é municipal, mas atende todo o estado. Então tem de ter parcerias estabelecidas. Quanto o Estado vai contribuir? Qual vai ser a contrapartida? Mas o que não pode é você entrar em uma unidade que está com uma situação precária falando de infraestrutura, mas que você coloca na mão da diretora a responsabilidade por lavar as roupas da unidade. Mas ela não tem nem a máquina de lavar não funciona porque a contrapartida da dona do imóvel não foi cumprida e é um acordo judicial, e a Prefeitura não cobra e a coisa não anda, mas o fato é que literalmente, ela tem de pegar as trouxinhas de roupa ali da unidade, e ainda é responsável por mais três unidades que não são dela, mas o distrito definiu que era ela que ia resolver o problema e tem que sair batendo na porta dos Cais pedindo a máquina para lavar as roupas. Isso é tão absurdo, é tão primário, é tão agressivo. Como que eu posso oferecer uma saúde de qualidade se eu obrigo os funcionários a viver um processo de dor dessa. Porque isso dói. Eu não posso estender o lençol na cama porque o lençol não está lavado e aí o final de semana não pode lavar também e as coisas de acumulam. Então, são coisas muito básicas que mostram que não há gestão, que não há planejamento.

Na visão da senhora, este é um problema financeiro?

De forma alguma. Eu acho que o menor problema é o financeiro, porque o dinheiro do SUS é suficiente para fazer funcionar essas unidades. Goiânia hoje ela não tem o número de PSF, que é o Programa Saúde da Família, de acordo com o que preconiza o SUS. Nós não temos o número de CAPS, que é o Centro de Atendimento Psicossocial. Nós não temos o atendimento psiquiátrico adequado em número de unidades, então nós temos um número reduzido de unidades. Sem contar as unidades que estão fechadas para obras. A UPA do Jardim América vai completar três anos e está lá fechada. Obra paralisada, perdendo dinheiro. Então não tem justificativa. Nós temos poucas unidades para um orçamento alto que é repassado. O que falta é otimizar esse recurso com planejamento, com organização, com metodologia. Na CEI da Saúde uma coisa que nos chamou muito a atenção e a gente sempre perguntava pra superintendentes da Saúde é como você recebeu essa ordem? No corredor. Vocês têm reuniões regulares? Não. Vocês têm reunião de planejamento? Não. Então, não há planejamento. Se eu não tenho planejamento dentro da minha casa é um desastre, imagina em uma cidade como Goiânia. Então, eu acho que o recurso financeiro é o que vai para a manchete do jornal, mas não é o recurso financeiro o problema. O problema aí é a mão humana que está conduzindo o recurso financeiro.

A senhora falou da importância de parcerias para a construção de um plano de governo que seja bom para a população, que seja bom para Goiânia, já tem alguma parceria sendo construída?

A cidade ela está sedenta por ajudar. As pessoas elas naturalmente se voluntariam, mas a pessoa não sabe o que fazer. Eu por muitos anos trabalhei com a sociedade civil organizada, com Núcleo de Proteção aos Queimados, com a Associação Goiana do Diabético Juvenil, com a Liga Acadêmica de Queimaduras, e a gente entendeu nesse processo de trabalho com a sociedade civil que a gente tem limite, e o limite é exatamente o poder público. Enquanto o poder público não vem e diz: Este é o caminho, nós vamos para esta direção, nós vamos estabelecer estas políticas públicas, o problema ele vai ser só amenizado. Hoje tem aí um jargão que as pessoas utilizam muito que é “eu estou enxugando gelo”, mas antes enxugar gelo do que morrer afogado. Então, o que estas ONGS, OCIPS, autarquias, essa organização da sociedade civil consegue? Ela consegue resolver problemas pontuais, mas não consegue resolver problema de uma maneira efetiva porque não compete à ela fazer isso, mas ela pode ser parceira do poder público. Ela pode se juntar. Ela tem de ser convidada a sentar à mesa. Então isso é uma coisa necessária. Convidar a sociedade civil, convidar os empresários, convidar os representantes da população para construir um projeto coletivo. Hoje não tem nenhuma cidade mais que funcione sem parcerias. Eu preciso de parcerias. Eu preciso de quem queira cuidar daquela praça, de quem queira ajudar a ir nos projetos de reciclagem, mas isso tem de ser conduzido pelo poder público e também ele não pode ficar solto. Porque senão cada um vai inventar uma coisa. Daqui a pouco cada praça é de um jeito, começa a por cancela nas ruas porque as pessoas estão inseguras, a cidade desorganiza por completo. Então a gente precisa estabelecer estas parcerias de maneira clara e de maneira dialogada. Tem de dar direcionamento.

 “Se falta vaga no Cmei a mulher que tem de resolver, se falta vaga é a mulher que tem de resolver. O homem sofre. Ele sente, mas não é ele que busca solução. Então pra ele, aquilo não é prioridade, não é que não seja importante, mas não é prioridade. Então nós estamos neste processo de adoecimento porque são homens conduzindo a gestão e tem olhar, sentimento e decisão diferentes da mulher”

Uma mulher na política… Uma mulher na Prefeitura de Goiânia…É uma visão diferenciada?

Com certeza. Mulher e homens são diferentes. São seres diferentes. Nós nascemos de forma diferente. Nós somos criadas, educadas de maneira diferente. Aí não estou fazendo nenhuma crítica, nenhuma ponderação, mas fisicamente isso nos conduz a processos diferentes: culturais, educacionais, sociais e nos afeta de maneira diferente também. Se eu estiver em uma palestra, em um filme, nós fomos para o cinema, e você perguntar qual foi a conclusão do homem, o que ele achou do filme, ele vai ter uma visão e a mulher vai ter outra. Porque nos toca de maneira diferente. Isso é natural. Isso é uma coisa a ser celebrada, então eu acho que ter uma mulher na prefeitura pode trazer um olhar que Goiânia nunca teve, na gestão, porque quem define é o Executivo. Tem esse dito político que é Quem tem a caneta é o Executivo. Então ter uma mulher na prefeitura pode trazer um olhar diferente na Saúde e na Educação eficaz. porque Saúde e Educação são temas de palanque, de proposta de governo, mas efetivamente são pouquíssimos executivos que escolhem a Saúde e a Educação como prioridade. E porque que não é prioridade? Porque afeta a mulher. Se falta vaga no Cmei a mulher que tem de resolver, se falta vaga é a mulher que tem de resolver. O homem sofre. Ele sente, mas não é ele que busca solução. Então pra ele aquilo não é prioridade, não é que não seja importante, mas não é prioridade. Então nós estamos neste processo de adoecimento porque são homens conduzindo a gestão e tem olhar, sentimento e decisão diferentes da mulher. Então eu vejo que Goiânia nos seus 86 anos ter uma mulher à frente da gestão da prefeitura de Goiânia seria um grande ganho da cidade.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here