Entrevista | Engenheiro pede adiamento das eleições do CREA-GO

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Ele é um dos candidatos à presidência da entidade, que teve o pleito antecipado para julho, no pico da pandemia da Covid-19. Além de pedir o adiamento para dezembro, por questão de segurança e saúde pública, o candidato critica o processo eleitoral do CREA-GO, que é ainda rudimentar com cédulas de papel e urnas de lona, o que pode provocar aglomerações nos locais de votação.

Nesta entrevista, Idalino Hortêncio diz que este não é o momento para campanhas e eleições, quando milhares de pessoas estão morrendo e outras sofrendo em todo o País, e que no Estado de Goiás há profissionais engenheiros passando dificuldades econômicas. “O momento era da gente discutir como o Crea-GO pode ajudar estas pessoas, concedendo algum auxílio emergencial ou discutindo com o poder público a manutenção de algumas atividades, auxílio de saúde, etc”, afirma. Disposto a promover rupturas no modelo de gestão da entidade, Idalino participa do processo eleitoral, propondo a modernização e a humanização do CREA-GO.

Tribuna do Planalto – Por que o senhor, na condição de candidato, pede o adiamento das eleições do CREA-GO?

Idalino Hortêncio – Não faz nenhum sentido promover em meio à pandemia uma eleição com votação presencial, em cédula de papel, enquanto governos endurecem medidas de isolamento e o Tribunal Superior Eleitoral discute o adiamento até das eleições municipais. É uma questão não só de segurança, mas também de responsabilidade pública e compromisso social. Como podemos, no meio de uma pandemia, solicitar ao TSE que viabilize o processo eleitoral, disponibilizando servidores para atuar em centenas de municípios, gerando aglomerações nos locais de votação? E, para piorar, o voto é com cédula de papel. Tocar o pleito nestas circunstâncias é nocivo para a própria imagem da entidade.

E como o senhor propõe resolver esta questão?

Inicialmente, a eleição seria em novembro, mas a Comissão Eleitoral Federal antecipou para 3 de junho, e recentemente, diante da total falta de cabimento de realizar uma eleição classista neste momento, mudaram para 15 de julho. Mas há um consenso entre as autoridades de saúde de que até julho o vírus ainda estará circulando fortemente no País. Proponho retornar a disputa para a data original, que era em novembro. Assim ganhamos mais tempo para avaliar como está a situação da pandemia no Brasil, teremos uma compreensão melhor sobre a Covid-19 e poderemos agir com mais segurança e responsabilidade. Acredito também que teremos, do ponto de vista da saúde pública, um quadro melhor até lá. Na verdade, o ideal seria a digitalização do processo eleitoral, possibilitando a votação remota. É algo plenamente possível,com uma plataforma de votação segura e auditável, mas o fato é que o Sistema Confea/Crea não investiu nos últimos anos na modernização das ferramentas on-line e dos serviços digitais. É contraproducente o engenheiro às vezes ter que se deslocar por vários quilômetros, num dia de trabalho, para ir à cidade onde terá uma urna para ele depositar o voto, por meio de uma cédula de papel.

E, na sua opinião, por que não ocorreu esta modernização?

Falta de visão e, principalmente, falta de vontade. É evidente que, ao criar dificuldades, os atuais dirigentes do sistema conseguem facilitar a própria perpetuação no poder. Para votar em local diferente de onde está originalmente inscrito, o voto em trânsito, o engenheiro devidamente habilitado tem que antes solicitar a alteração de local, informando em qual município ele vai fazê-lo. E as urnas são distribuídas em poucas cidades. Isto, junto à falta de proximidade da entidade com a base da categoria, gera um grande desestímulo para quem não participa do dia a dia do sistema. A gente percebe um grande desânimo dos colegas de deixarem de lado seu trabalho para ir votar, pois a relação da maior parte deles com o Crea-GO muitas vezes é distante.O resultado é que a média de participação da categoria tem ficado em torno de 10% nas últimas eleições.

Este índice rebaixa muito a representatividade da eleição?

Exatamente. A maioria dos engenheiros simplesmente ignora o processo eleitoral e quem está no poder hoje não mexe um dedo para incluir esta massa de profissionais nas discussões. Desta forma, acaba votando majoritariamente aqueles profissionais que têm vínculos diretos com esses dirigentes. É aquela estratégia arcaica de obstruir o conhecimento e o acesso aos mecanismos de participação para perpetuar o status quo.

Mas não é possível a oposição buscar uma maior mobilização da categoria contra esta situação que o senhor colocou?

Este tem sido nosso trabalho aqui em Goiás, assim como tem ocorrido em outros estados. E por isto há um esforço por parte do atual comando do sistema Confea/Crea em antecipar as eleições, mesmo com coronavírus, quarentena e tudo mais. Quanto mais curto o prazo para as eleições, menor o espaço para o debate propositivo e menos tempo os candidatos têm para se apresentarem. Isto favorece a situação em qualquer circunstância eleitoral, pois eles contam com a estrutura da entidade para mobilizar seu grupo, enquanto adotam estratégias para desestimular a participação dos demais. Representa também um sinal de insegurança da parte da situação quanto ao desfecho das eleições. Muito tempo no poder traz desgastes, cobranças por promessas não cumpridas e eles sabem que esta é uma vulnerabilidade da sua chapa.

Mas como está o debate interno na categoria sobre as eleições?

Esta que é a questão: não está. Não existe clima para isto. A preocupação de todos agora não é eleição, mas, sim, a manutenção da própria subsistência. Não é o momento de discutir campanha eleitoral quando temos aí milhares de engenheiros numa situação de vulnerabilidade econômica, com vagas de empregos sendo cortadas por causa da retração da economia, empresas à beira da falência. O momento era da gente discutir como o Crea- -GO pode ajudar estas pessoas, concedendo algum auxílio emergencial ou discutindo com o poder público a manutenção de algumas atividades, auxílio de saúde, etc. Mas não é o que temos visto da atual gestão, que reagiu igual a um avestruz e enfiou a cabeça na terra diante da pandemia do novo coronavírus.

Apesar de incomodado com a forma como será realizado o pleito, o senhor mantém-se firme como candidato disposto a romper com o atual modelo de gestão da entidade?

Sim. Como muitos profissionais ligados ao Crea- -GO, fico indignado em ver uma instituição do porte do nosso Conselho ficar por quase duas décadas parado no tempo, e voltado apenas para a sua automanutenção, esquecendo-se que a sua principal função é apoiar o profissional engenheiro que, neste momento, inclusive em função da pandemia do coronavírus, enfrenta grandes desafios. É preciso uma gestão ética, transparente, moderna e comprometida com a situação presente e futura desses profissionais, que ofereça a cada um deles estrutura e ferramentas para que exerçam suas atividades de forma inovadora e conscientes de sua importância na construção de um mundo novo, um mundo que, impactado como nunca, precisa reinventar caminhos para as relações sociais e de trabalho. Que exige criatividade e inovação na busca de soluções tecnológicas sustentáveis para a continuidade da vida no planeta.

E quais são as propostas do senhor para modernizar o Crea-GO?

Meu plano de gestão tem eixos estratégicos que visam fazer do Crea um conselho mais próximo da sociedade, mais humano, mais parceiro e inovador, instrumentalizado para atender aos anseios e às necessidades dos profissionais que são o sustentáculo da entidade. Faremos uma gestão harmoniosa, pautada pela imparcialidade e unidade entre todas as categorias profissionais que reúne, além de fortalecer a estrutura física e redirecionando a sede e as inspetorias para serem centros de estudos e pesquisas, difusão e exposição de soluções tecnológicas em todas as áreas. Vamos rever taxas e as ARTs para que o Crea realmente devolva aos profissionais os benefícios de suas contribuições transformadas em bens a serem incorporados ao seu dia a dia profissional.

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