“Eu fiz a opção de não trabalhar para um homem”

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O Brasil conta hoje com 1.270.209 advogados. Deste universo, 596.175 são mulheres. A maioria, 602.259, ainda acrescenta os dados pertencentes aos homens. Apesar da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) não ter um levantamento específico sobre a quantidade de advogados que atuam na área eleitoralista, sabe-se que o universo não é tão grande. E os números são ainda menores quando queremos saber sobre: advogadas em direito eleitoral em Goiás. Mas, temos um belíssimo exemplo de inspiração que contempla os dados femininos: Nara Bueno. Ela é uma das pouquíssimas advogadas eleitoralistas no Centro-Oeste.

Com 35 anos, a advogada, proprietária do escritório Nara Bueno e Lopes, atua há 10 em Goiás. No início da carreira, o objetivo de ser uma profissional reconhecida já permeava em primeiro lugar e, por isso, uma grande decisão teve de ser tomada “O meio jurídico, como um todo, é um meio masculino. São raras as advogadas que fazem sustentações orais, que atuam em tribunais superiores e, principalmente, que são independentes, que não são atreladas à grandes escritórios de homens. E, por isso, eu tomei a decisão que permeia toda minha vida: a de não trabalhar para um homem”, pontua.

A decisão, para Nara, ainda é sempre colocada em questão: fiz certo ou não? Mas, a resposta vem no mesmo segundo: “Não é arrogância e prepotência, mas se não vermos mais mulheres com grandes escritórios, com grande atuação, nós nunca vamos romper essa barreira”, diz. E, pronto. É por isso que o feminismo sempre esteve nas suas veias, mesmo quando mais jovem, sem entender muito bem porque as mulheres ao seu redor cuidavam da casa enquanto os homens, considerados os “chefes de família”, saiam para trabalhar.

Ter de sair, todos os dias, para ter a carreira que sempre quis exige paciência e resiliência. São várias as situações em que Nara pode pontuar que vão desde o desconforto à repulsa. Em uma das situações, ela levou um de seus assessores – homem – à uma reunião com um prefeito de uma cidade em Goiás. Ela conta que prefeito falava sempre olhando para o assessor. Até que este, precisou alertá-lo sobre quem estava realmente no controle da situação. “Eu me lembro que meu assessor disse ao prefeito: você pode falar com a Nara, que é a advogada. Eu trabalho pra ela”, lembra a especialista, reforçando o clima de tensão e descompostura por parte do homem, já que para ela tudo estava como deveria ser: a mulher, por mais conhecimento e desenvoltura que tenha, acaba por ser subestimada à figura masculina.

Direito eleitoral

Após concluir a graduação em Direito, Nara começou a estudar o Direito Eleitoral. A área não é uma disciplina obrigatória nas universidades, o que dificulta seu acesso à informação. “Eu me apaixonei porque o direito eleitoral engloba coisas que me são caras: democracia, discussão das minorias políticas e a discussão acerca da participação da mulher nos meios de poder”, pontua.

Por ter escolhido a área específica, grandes escritórios a convidaram para completar o quadro dos associados. Mas ela se manteve firme ao propósito de conquistar cargos e o reconhecimento já ocupado por homens. “Eu tive convites no começo da minha carreira para me atrelar, ser submetida a um escritório maior, famoso. Mas, na época, eu rejeitei os convites, porque eu nunca havia ouvido falar de uma mulher eleitoralista reconhecida. É tradicional termos homens eleitoralistas e mesmo assim são poucos os advogados que escolhem essa área. E os homens que realmente têm sucesso nessa área são pouquíssimos. E por isso eu tenho o meu próprio escritório e quero ser muito reconhecida”, almeja a advogada especialista.

Empoderamento

Para seguir seu objetivo de vida, que é apoiar outras mulheres a conquistar cargos de poder, Nara também faz parte do projeto “Goianas na Urna”, que capacita mulheres com potencial de liderança das mais diversas regiões de Goiânia. “Nosso objetivo é formar referências femininas políticas para o cargo de vereadora já nas eleições deste ano, e uma das prioridades deste projeto é ter mulheres que defendam, principalmente, à equidade de gênero”, reforça a advogada.

O projeto abrange curso de formação política que leve em conta aspectos teóricos e práticos. Há também a imersão de um dia na Câmara Municipal para as selecionadas vivenciarem o cotidiano de uma vereadora.

 

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