O Ensino Médio chega ao século XXI

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Por Victor Augusto Ramos Missiato

O ensino básico brasileiro possui uma estrutura do século XIX, um corpo docente ligado a um sistema de ensino e aprendizagem do século XX e alunos do século XXI. Várias vezes podemos observar por meio de imagens, relatos e dados, aulas similares dadas nos séculos XIX, XX e XXI, a partir de um mesmo referencial pedagógico e metodológico: carteiras enfileiradas, reproduzindo um sistema de produção fordista, em que o estudante/trabalhador adquire o conhecimento em forma de técnica, aplicando-o mediante determinada função específica; o professor enquanto detentor deste ou daquele conhecimento técnico; além de uma estrutura voltada para determinados fins: vestibular ou posse do diploma para pleitear diversos tipos de (sub)empregos.

Embora tenhamos um grande e importante arcabouço teórico ligado ao conhecimento em educação no Brasil, na prática político-pedagógica, reproduzimos um mesmo tipo de aprendizagem de décadas e séculos atrás. Evidentemente, a educação no Brasil não permaneceu estacionada. Trocamos a lousa pelos slides, as carteiras enfileiradas por círculos de carteiras, o tradicionalismo pelo progressismo, os reis pelos operários. Porém, nosso sistema de ensino e aprendizagem ainda permanece preso às necessidades de um mundo que não mais existe. Nossas avaliações continuam a priorizar a memorização em detrimento da criatividade. Os bons professores continuam sendo aqueles que conseguem transmitir o conhecimento enquanto criadores do chamado “fator surpresa”, como se a globalização pudesse ser compreendida através de uma decoreba cantada no violão. Nossos dirigentes continuam à mercê da pressão de sindicatos e/ou patriarcalismos mandonistas, que encaram a instituição escolar enquanto propriedade própria.

No olho deste furacão estão nossos alunos, interligados e conectados a um processo de desenvolvimento socioeconômico completamente distinto daquele ensinado em sala de aula. Não é de se espantar, portanto, que embora tenhamos conseguido universalizar o ensino, continuamos sempre nas últimas posições dos rankings avaliativos, sem contar os altos índices de evasões físicas e mentais, pois arrisco dizer que 80% dos alunos brasileiros estão apenas de corpo presente nas salas de aulas.

No século XXI, o serhumano passou a integrar em seu intelecto o uso do smartphone, um processador móvel que o auxilia em diversos cálculos, raciocínios, diagnósticos, processos jurídicos etc. O saber deixou de ser um monopólio. Ademais, na sociedade do conhecimento e no mundo cada vez mais robotizado, o conhecimento, enquanto capacidade de realizar conexões, suplantará a técnica da especialização mecanizada. Desenvolvimento psicossocial, gestão, criatividade, entre outros fatores, pautarão a lógica do mundo do trabalho.

Diante disso, o chamado Novo Ensino Médio, desenvolvido pela nova Base Nacional Comum Curricular (BNCC), mesmo que retardatário, aporta ao ensino brasileiro na década de 2020. Sua implementação deverá ocorrer integralmente nos próximos 5 anos, mas sua proposta é clara: valorização da investigação, reflexão, elaboração, inclusão, democratização. Caberá ao aluno um papel central no desenvolvimento do conhecimento através da elaboração de hipóteses, da curiosidade, da imaginação e da criatividade. A avaliação será processual e o resultado não deverá ser uma nota, mas um conceito baseado em um produto. Sendo assim, a BNCC almeja integrar cidadania e produtividade em um mundo cada vez mais globalizado e tecnológico.

O processo será longo e tortuoso, pois as resistências corporativas, institucionais e sociais já começaram a dificultar o processo. No entanto, algumas instituições já estão se antecipando e, em 2021, iniciarão o Novo Ensino Médio. Serão essas instituições que abrirão o caminho para a entrada do Ensino Médio brasileiro no século XXI.

Victor Augusto Ramos Missiato é doutor em História, professor de História na Faculdade Presbiteriana Mackenzie Brasília, membro do Grupo de Estudos e Pesquisas Psicossociais sobre o desenvolvimento humano (Mackenzie/Brasília) e Intelectuais e Política nas Américas (Unesp/Franca).

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