O que Gustavo Mendanha representa para o MDB e para o controle de Daniel Vilela sobre o partido

Candidatura do prefeito de Aparecida de Goiânia ao governo do estado poderá ser saída para que a legenda não se submeta mais uma vez à vontade de Iris Rezende, que desta vez é apoiar reeleição de Ronaldo Caiado

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Foto: Divulgação

Por Thiago Queiroz

aguito Vilela tinha em 2016 o poder de escolher quem seria seu sucessor na prefeitura de Aparecida de Goiânia, tamanhas eram sua popularidade e a avaliação de suas duas administrações no município. O escolhido foi o jovem presidente da Câmara Mu­nicipal, Gustavo Men­danha (MDB), que venceu com folga a disputa e, em 2020, foi reeleito com 95,81% dos votos, superando a margem até então histórica de Maguito no município, que teve em 2008 81,11% dos votos, além de ter sido destaque nacional entre os municípios com mais de 200 mil eleitores.

Gustavo ultrapassou os limites de seu município e passou a figurar no âmbito estadual como político promissor, e seu nome começou a ser ventilado como uma das opções da oposição para enfrentar Ronaldo Caiado (DEM) na eleição de governador no próximo ano. E ele, não tão discretamente, parece estar se movendo para isso.

Vejamos. No mês de maio, fora do seu, o prefeito de Aparecida passou por alguns municípios, todos eles estratégicos politicamente para uma eleição estadual. Ele visitou Rio Verde, a potência do Sudoeste; Trindade, a Capital da Fé; Iporá, a cidade-polo do Oeste, com direito a esticadinha até Jaupaci; Luziânia, a principal cidade do Entorno do DF; e Anápolis, a Manchester do Cerrado. Ele buscou ainda as bênçãos do Arcebispo de Goiânia, Dom Washington, e também, logicamente, do histórico Iris Rezende, no escritório político do emedebista.

Conta a favor de Gustavo Mendanha, dentre outros atributos, o fato de ser um nome novo a ser apresentado na política estadual, e que já leva consigo a exitosa experiência de ter administrado e, num momento em que a sociedade clama por renovação na política, ter sido o escolhido para comandar novamente a segunda maior cidade de Goiás.

Além disso, Gustavo pode ser a peça chave para manter o MDB sob o comando do vilelismo, num momento em que Iris Rezende novamente chama para si a definição de para onde o partido deve caminhar, ao tentar levar o apoio emedebista para Caiado. Iris recuou da disputa pela prefeitura de Goiânia na eleição passada, mas parece não querer abrir mão de sua influência sobre o MDB, onde sempre esteve em sua vida política, mesmo que isso custe a redução da capilaridade partidária para, novamente, sobrepor sua vontade ao fortalecimento do partido.

O que Iris quer e trabalha abertamente para conseguir é levar o MDB para o grupo que apoiará a reeleição de Caiado, numa clara sinalização de que quem ocupou cargos de vereador, prefeito, deputado, governador, senador e ministro, quer, acima de tudo e de todos — inclusive dos que o apoiaram — se impor para preservar a estatura de maior liderança política em Goiás.

Por outro lado, corre Daniel Vilela, presidente do partido em Goiás, herdeiro político do pai Maguito Vilela e, ainda por enquanto, o candidato natural do partido ao governo do estado. Caso seu projeto não se viabilize, o aliado e amigo Gustavo Mendanha poderá lhe servir como nome para manter o MDB no protagonismo das disputas estaduais e não, como deseja Iris, coadjuvante, além de reafirmar que, verdadeiramente, comanda do partido em Goiás.

O MDB disputou todas as dez últimas eleições ao governo de Goiás. Venceu quatro delas, sendo duas por Iris Rezende, em 1982 e 1990, uma por Henrique Santillo (1986) e a outra por Maguito (1994). Em três Iris foi derrotado, todas por Marconi Perillo (1998, 2010 e 2014). Maguito Vilela também sofreu derrota, em 2006, para Alcides Rodrigues. Em 2018 o estreante Daniel Vilela também não conseguiu vencer, mas manteve o segundo lugar, semelhante ao mínimo que todos os emedebistas conseguiram chegar nessas disputas ao governo.

Daniel está na presidência do MDB desde 2016, quando derrotou o candidato de Iris, Nailton Oliveira. Ele foi reeleito como único candidato depois de enfrentar ações na Justiça movidas por integrantes do partido que apoiaram Caiado na eleição de 2018, dentre eles Paulo do Vale e Renato de Castro, que foram expulsos por Daniel, e Ernesto Roller, que se desfiliou antes do julgamento no conselho de ética do partido.

Sua sobrevivência como real mandatário do partido dependerá muito de como ele conseguirá conduzi-lo até a próxima eleição e de qual papel terá o MDB, se na condição de caudatário da expressão política de Iris ou de figura presente no debate, mesmo que seja para ser derrotado por Ronaldo Caiado. E nesse processo Gustavo Mendanha, se se revelar realmente mais competitivo, poderá ser decisivo pró-Daniel.

Irisdependência é marca histórica, que poderia ter sido quebrada pela ascensão de Maguito em sua última vitória

Desde que ingressou ao MDB, em sua fundação em 1965, Iris Rezende sempre foi o maior líder do partido em Goiás e os outros que se destacaram ou foi por indicação direta do próprio ou nos intervalos em que ele buscava ou ocupava outros cargos. Nele, Iris ocupou os cargos de governador, senador, ministro e prefeito, postos que outros partidários não conseguiram alcançar sem a anuência dele.

As escolhas sempre foram exclusivamente de Iris, a exemplo de 1998, quando Maguito Vilela, então governador com alta aprovação popular abriu mão de ir à reeleição, que estreava no país, para que Iris, favoritíssimo nas pesquisas, voltasse ao governo do estado. O fato só não se concretizou por causa do desempenho inesperado da novidade Marconi.

Caso a atual movimentação de Iris sobre o destino do partido na próxima eleição se viabilize e ajude na reeleição de Caiado, o triunfo do histórico emedebista, acoplado à força do que sempre representou para o grupo, conferirá a ele a aura de líder absoluto, enquanto viver.

Fiel ao criador

Maguito Vilela é um dos exemplos de políticos do partido que surgiram e sempre estiveram à sombra de Iris. Sempre fiel a quem o abençoou para ser seu vice quando disputou o governo em 1990, o ex-vereador por Jataí e então deputado federal soube pacientemente esperar por todas as oportunidades — e trabalhou duramente para conquistar todas elas — e foi o que mais próximo chegou das conquistas de Iris.

Maguito foi também governador, sucedendo o próprio Iris, abriu mão de concorrer à reeleição e foi eleito ao Senado, em 1998. Depois, em 2002, voltou à disputa estadual para dar suporte à volta de Iris ao Senado, já que o então governador Marconi Perillo se mostrava imbatível naquela eleição. Iris aparecia líder nas pesquisas de vogo ao Senado, mas acabou sendo superado por Demóstenes Torres e Lúcia Vânia.

Maguito surgiu à sombra de Iris e teve trajetória promissora interrompida por morte prematura / Foto: Divulgação

Depois de perder a eleição ao governo em 2006 e estar fora do Senado, Maguito voltou às disputas em 2008, se aproveitando da popularidade de Iris, que era prefeito de Goiânia e candidato à reeleição, para conquistar o primeiro mandato de prefeito em Aparecida de Goiânia, onde foi reeleito e fez o sucessor Gustavo Mendanha.

Quatro anos depois de deixar a prefeitura de Aparecida, Maguito se elegeu prefeito de Goiânia. A vitória para o maior colégio eleitoral do estado, somada à força de seu histórico de político possuidor de, acima de tudo, espírito público, seriam suficientes para que ele fosse o natural sucessor de Iris como líder no partido. Mas a morte prematura causada pelas complicações da Covid-19 interrompeu sua trajetória promissora. Na prefeitura de Goiânia ele consolidaria sua imagem de liderança e seria o candidato natural do MDB ao governo.

 

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