Exclusão on-line: como o ensino remoto afetou estudantes autistas

Apoio especializado se tornou objeto de luxo para quem não tem acesso nem condições de pagar profissionais

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Por Anna Clelma

As aulas on-line tiveram que ser implantadas de forma rápida e com a promessa de que duraria pouco tempo. O novo modelo fez com que muitos alunos se sentissem prejudicados. O rendimento caiu. No entanto, aqueles que sempre precisaram de um cuidado especial em sala de aula foram ainda mais prejudicados. É o caso de estudantes autistas.

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS) o Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma série de condições caracterizado pela dificuldade na linguagem, comunicação e sociabilidade, realização de comportamentos repetitivos, entre outros aspectos. Pode se manifestar em diferentes graus, desde os mais leves até os mais graves.

Um grande marco na luta pela inclusão escolar foi a aprovação da Lei Berenice Piana (Lei Federal n° 12.764). Segundo a norma, o autista tem o direito à educação, algo básico, mas que por muito tempo foi negado, já que muitas escolas simplesmente não aceitavam a criança com o transtorno. Além disso, o estudante nessa condição tem direito a um acompanhamento especializado.

Para Fabiana Gonçalves Dias Rocha, mãe do André Luíz, que é autista, isso seria o necessário e o ideal, mas na prática não funciona assim: “O que a lei diz é que é um professor especializado, ou seja, que entenda de inclusão, e que faça a adaptação de acordo com a necessidade de cada aluno. Tem crianças com autismo que se sobressaem, acompanham bem a turma, e está tudo bem. Mas tem crianças que não acompanham e precisam de todo apoio”.

O filho de Fabiana tem 8 anos de idade e está no 3º ano escolar. Ela conta que mesmo antes das aulas remotas enfrentava dificuldades relacionadas ao estudo de André. Quando não havia monitora para acompanhar a criança na escola, era necessário pagar um acompanhante terapêutico. Mesmo quando havia monitoria, era feita por pessoas ainda em processo de estágio, sem preparo para lidar com uma criança atípica. Hoje, André Luís está em escola pública onde, segundo Fabiana, foi muito acolhido.

Alessandra Jacob, presidente da Associação de Familiares e Amigos do Autismo de Goiás (Afaag) e psiquiatra especialista no assunto, revela que a luta constante é por professores de apoio nas escolas e maior preparo para estes profissionais. Há uma busca por capacitação que nem sempre é atendida pelos governos municipais e estaduais.  “Lutamos para que o professor esteja preparado para receber o paciente, assim como a escola, coordenação, diretoria, pessoal da alimentação, pessoal da limpeza, por que tem que incluir ele [autista] em todos os ambi­e­ntes da escola, não é só a parte pedagógica”.

Nas escolas em que há professor de apoio, são feitas tarefas e enviadas para os estudantes com TEA, segundo a psiquiatra. Já nas instituições que faltam esses profissionais, os pais que têm condições financeiras pagam por psicopedagogos. Os que não têm a mesma possibilidade, acabam muitas vezes não fazendo as atividades. “Nem as pessoas que não têm deficiência estão conseguindo, imagina quem tem deficiência. Está muito difícil para todos nós”.

Fabiana não teve outra alternativa a não ser contratar uma pessoa para auxiliar o filho. Ele não costuma usar celular e teria muita dificuldade em assistir uma aula pelo computador. Para a mãe, seria complicado para a professora cuidar dos 20 alunos na aula on-line e fazer as atividades separadas ao mesmo tempo, por isso a importância de um apoio. Atualmente André faz acompanhamento terapêutico individualizado. Ainda assim, a luta por melhores condições de ensino é coletiva.

Foi pensando em reunir para fortalecer que surgiu a Associação das Famílias e Amigos dos Autistas de Goiás. Na sede, situada em Aparecida de Goiânia, aconteciam diversas atividades presenciais como lazer adaptado e acompanhamento e capacitação de profissionais na rede regular de ensino. A musicoterapia pôde ser mantida, com sessões individuais e quantidade reduzida de atendimento. Alessandra conta que por causa do isolamento, diminuiu o voluntariado. Apesar disso, a Associação continua promovendo eventos on-line para debater as questões relacionadas à causa. Os espaços virtuais abertos à comunidade dão a oportunidade de conhecer melhor o tema e discutir soluções para uma maior acessibilidade e inclusão.

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