Artigo | Um governo contra a ciência

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Por Flávio Munhoz Sofiati

O governo do presidente Jair Bolsonaro, desde seu início, tem praticado uma política de negação da ciência em todas as suas dimensões formativas. Trata-se de uma gestão que navega no campo da irracionalidade e do obscurantismo e que, portanto, patrocina a difusão de versões da realidade destituídas de coerência. Por exemplo, diante de um cenário de sindemia, crise sanitária e política provocada pelo novo coronavírus, o governo defende o uso de medicamentos sem eficácia em detrimento de uma política pública efetiva de vacinação da população, como recomendam as principais agências mundiais de saúde.

Por meio dessa concepção negacionista, o governo vem diminuindo o investimento em ciência e tecnologia e, consequentemente, tem reduzido drasticamente o repasse de recursos para as universidades públicas, principais instituições de produção e difusão de conhecimento científico no país.  O presidente não está preocupado se a universidade, se os institutos federais, podem funcionar com a parca verba destinada a eles. A missão do presidente é de inviabilizar qualquer prática que destoe de sua forma fundamentalista de pensar a realidade. Bolsonaro tem se apresentado cada vez mais como uma figura racista, machista, militarista e, sobretudo, simplista em seus diagnósticos sobre o Brasil. Seu governo, mesmo os ministros que cuidam da economia e da ciência e tecnologia, Paulo Guedes e Marcio Pontes, respectivamente, possui baixa respeitabilidade acadêmica e científica.

A diminuição das verbas para as instituições produtoras de ciência e tecnologia, principalmente as universidades públicas, tem sido uma contínua desde o segundo mandato da presidente Dilma, passando pelo mandato de Temer. Todavia, tem se agravado nesses dois anos e meio de governo Bolsonaro. Além disso, o não investimento em educação tem sido acompanhado de ataques do presidente, e sua claque, às universidades, inclusive com disseminação de informações mentirosas e grosseiras acerca da realidade cotidiana dos campus universitários. O exemplo mais eloquente foi a afirmação do então ministro da educação, Abraham Weintraub, de que havia plantação de maconha nas universidades públicas. Aliás, foi a primeira vez na história do país que houve um ministro da educação que militava contra a própria educação e que combatia cotidianamente as universidades públicas do Brasil.

Do início dos anos 2000 para hoje, graças principalmente às políticas públicas de fomento da educação superior, notadamente o ReUni, as instituições federais praticamente dobraram de tamanho. Houve a inclusão de setores da sociedade que eram alheios ao ensino superior. A Universidade Federal de Goiás, por exemplo, com sua política de cotas raciais e sociais, contempla hoje um corpo discente muito mais diversificado em comparação ao passado recente, com presença de jovens das classes populares, negros e indígenas. No entanto, a verba de 2021 é praticamente a mesma de 2004. Assim, os recursos recebidos nos últimos anos não permitem o avanço de políticas de permanência dos estudantes empobrecidos como, por exemplo, bolsas e auxílios à moradia e alimentação.

Por isso, é urgente que o governo devolva os recursos congelados das universidades. O ensino público necessita urgentemente dar sequência à sua política de qualidade e excelência. O país precisa das universidades fortalecidas para voltar a crescer com políticas que promovam a equalização das desigualdades sociais.

Flávio Munhoz Sofiati é professor de Sociologia da UFG

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