Entrevista | “O modelo híbrido, com aulas remotas, veio para ficar”

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Defensora da escola pública, a secretária de Educação de Goiás, Fátima Gavioli, é servidora de carreira de Rondônia, onde também foi secretária da pasta. Tem pela frente o desafio de reduzir as perdas que a pandemia de Covid-19 já impôs à Educação e, nessa entrevista, relata como os educadores e também a secretaria foram se adaptando a essa nova realidade para a qual não foram formados e nem estavam preparados. E ela afirma que muitas das mudanças vieram para ficar.

Tribuna do Planalto – O modelo de ensino adotado durante a pandemia aumentou a diferença entre os alunos que tinham acesso à tecnologia e aqueles que não tinham.  Quais são os desafios que a Educação vai enfrentar com a retomada das aulas para reduzir esse desnível?

Fátima Gavioli – Desnível social ou de aprendizagem? Porque essa questão social ficou muito evidenciada na pandemia porque houve uma aproximação muito grande da escola com a família e da família com a escola. Há muitos anos vínhamos criando estratégias de levar a família para a escola e não tínhamos sucesso. O único evento que conseguiu fazer com que a família entrasse na escola foi O Dia da Família na Escola. Mas, de repente, a escola foi parar dentro da casa do aluno; ele começou a receber material em casa, a falar com o professor pelo celular e o professor começou a olhar, literalmente, para dentro da casa do aluno. Começamos a perceber, por exemplo, a condição de vida da criança, muitas vezes, acontecendo a aula, escapava que não tinha almoço na casa naquele dia. É um novo jeito de lidar com as relações educacionais que passou a existir com a pandemia. A própria pandemia também gerou um desemprego muito grande porque, em algumas cidades e estados, houve um momento em que não existia mais leito de UTI e não tinha outra saída senão fechar por 8 dias, 15 dias. Quando isso aconteceu, vários comércios fecharam as portas e isso fez com que os pais ficassem desempregados. Esse desemprego a criança contava durante a aula. A criança dizia: meu pai foi mandado embora ontem; na empresa do meu pai suspenderam por 30 dias agora o pagamento. Evidenciou essa questão social que teve um reflexo no processo de aprendizagem porque nenhuma criança vai aprender com fome. Isso exigiu, por parte do governo, uma ação imediata de entrega de cestas básicas e a criação da bolsa para a criança vulnerável. Todas as crianças, 119 mil alunos vulneráveis registrados no CadÚnico, recebiam R$ 150 por mês. Só que o Ministério Público, com toda razão, disse que não se pode pagar esse recurso para alguns e para outros, não. A alimentação escolar é um direito de todas as crianças matriculadas na rede pública, inclusive os adultos matriculados na rede pública. Passamos a dividir esse recurso para 530 mil. Isso gerou a bolsa de R$ 30 por mês, que é o cartão alimentação e tem uma coisa nesse cartão que eu gosto muito que é o fato de o pai jamais poder comprar qualquer coisa que não seja um alimento. Um pai comprou uma lâmina de barbear o cartão bloqueou.  Se tiver três crianças, recebe R$ 90 e se tiver uma criança, vai receber R$ 30. Essa assistência dada a essas crianças; o apoio pedagógico, mandando a apostila na casa ou marcando o dia para buscar a apostila na escola e o dia de entregar as atividades; o cuidado com essas crianças fez com que tivéssemos um resultado alarmante, como alguns estados já apresentam, mas, com certeza, já estamos com uma média de 25% de perda na aprendizagem.

Houve também uma distância de aprendizagem entre os alunos?

A questão do desempenho sempre existiu. A avaliação diagnóstica sempre demonstrou que, numa turma de 30 alunos, quatro alunos realmente não conseguem aprender da forma como se desejava – isso dentro da estatística do Censo Escolar – e 26 alunos que acompanham o processo dentro do esperado. Em algumas turmas vai ter um ou dois alunos com altas habilidades e com competências acima da média. Isso é muito raro, mas eles existem.  Quando falo que não gerou um resultado alarmante é porque, na pandemia, Goiás conseguiu combater a evasão; saímos de evasão de 18%, em 2020, para 8%, em 2021. A aproximação da escola com a família evitou que os alunos desistissem. Eles ficaram, eles insistiram e eles foram até o final do ano. O abandono aumentou. Quando terminou 2020, aquela criança que teve dificuldades, que não conseguiu ser aprovada, que não conseguiu aprender porque não tinha internet em casa, que não se sentiu assistida o suficiente ficou esperando e, acreditando que ia ser do mesmo jeito em 2021, decidiu não fazer matrícula. Quando começamos a identificar o abandono, no início de fevereiro, havia 30 mil alunos fora da escola e entramos imediatamente em ação com a busca ativa. No último dado que recebi, esse número tinha baixado para 23 mil. Isso não é só em Goiás, é uma taxa nacional. Nós aqui estamos lidando de forma responsável. Nossa evasão caiu e o nosso abandono subiu justamente porque o aluno disse que não ia estudar daquele jeito novamente.

Quais foram as estratégias adotadas, além das aulas remotas e a entrega de apostilas?

O Portal Net Escola, onde o aluno que tem internet acessa o material e o que não tem, recebe impresso; as aulas pela TBC, que foram de grande ajuda, e tivemos também a própria escola criando o plantão de dúvidas em espaços para dois, três alunos.  Eu posso dizer a você sem medo de errar: a arte dos professores foi muito bem feita, eles foram guerreiros. Temos caso de professor que pegou o próprio carro – você sabe o preço que está o combustível – colocou uma lousa pequena no carro e foi na casa do aluno que não estava conseguindo aprender regra de três. Foi quase uma operação de guerra para evitar que esse aluno deixasse de aprender e fazendo uma coisa que nenhum de nós aprendeu na faculdade: como lidar com os alunos e com a escola em pandemia.

A adesão dos alunos ao plantão é voluntária?

Sim, porque alguns pais não aceitam que o filho volte enquanto não estiver vacinado. Dia 2 de agosto vamos fazer a retomada presencial com 30% de ocupação da escola e eu tenho consciência que alguns pais não vão deixar os filhos voltarem.

Qual o percentual de alunos que não tem acesso à internet?

Hoje, 17% dos alunos não têm acesso à internet e 83% têm acesso.

Vocês conseguem avaliar a efetividade das aulas remotas, haja vista a dificuldade que os pais relatam de manter os filhos concentrados durante as aulas?

No Colégio Militar, abre o sinal 7h30 da manhã, fecha 12h30 e abre, novamente, 13h30 e fecha 17h30. O Colégio Militar conseguiu fazer isso. Nos demais, uma hora de 1h tem se transformado em uma aula de 20 e 25 minutos. Foi uma forma de não dispersar as crianças. Quando a pandemia chegou, nos pegou desprevenidos de dois elementos que interferem muito: primeiro, não fomos formados em tecnologia e a maioria de nós, professores, mal liga o computador e o Datashow em sala de aula. De repente, tivemos que dominar tudo e, para isso entrou o Centro de Formação de Professores, ensinando desde como se liga uma câmera até como transmitir a aula, incluir um slide, coisa que não tínhamos noção. O segundo item é que não existia equipamentos para esse tanto de alunos e nem para os professores. Eles têm o aparelho de celular, que não é um aparelho de última geração. São raros os professores que têm um celular bom. Teve mais esse agravante, tivemos que abrir processos de licitação, no início da pandemia, para comprar Chromebooks, laboratórios móveis, notebooks.  Uma licitação começa no início do ano e dá certo no final e agora, no mês de agosto, temos muita entrega de equipamento para fazer. Vamos conseguir entregar aparelhos para o aluno da 3ª série do Ensino Médio, para o 9º ano e para todos os professores. Esse aparelho vai no sistema de comodato.

E quanto ao programa de conectividade? 

Em julho, a Secretaria de Administração me fez uma notificação sobre o vale-alimentação. Hoje, todos os servidores da educação têm R$ 500 por mês de vale-alimentação e estavam desde de março de 2020 em casa. Não tem como pagar vale-transporte e vale-alimentação. Fiz uma proposta e o governador aceitou imediatamente: já que estamos rodando a lei da conectividade porque não mantemos o vale-alimentação para o professor pagar um bom plano de internet? O governador aceitou. Não posso dizer que somos o único, mas garanto que não tem muitos estados que pagaram o vale-alimentação. Os nossos professores não perderam um real. Nós mantivemos o vale-transporte e o vale-alimentação, aguardando a tramitação da lei de conectividade. Fora isso, tínhamos feito uma economia de energia elétrica muito grande nas escolas e pegamos esse recurso, R$ 119 milhões, e dividimos em bônus, e esse bônus deveria ser voltado para a aquisição de um aparelho melhor. Em março, tivemos nossa conectividade aprovada e já entrou em folha no mês de maio. Todos os professores estão recebendo R$ 100 por mês e enquanto tiver aula híbrida.

Esse modelo híbrido de aula veio para ficar?

Sim, veio para ficar. Não vai ter como abrir mão do híbrido. Ele tem umas coisas muito boas. Eu tenho hoje 1.049 diretores de escola e abro uma reunião com 1.049 diretores e, se eu quiser, posso reunir os meus diretores uma vez por ano presencial. Era uma luta levar o pai para a escola; marcava uma reunião à noite, o pai estava cansado e não conseguia ir, marcava no período da manhã e aí que ele não podia ir mesmo e aquela conversa que a escola gosta de ter com os pais estava ficando cada vez mais complicada. Acho que o modelo híbrido veio para ficar e nós, da educação, vamos trabalhar de forma híbrida. Estamos terminando de montar um estúdio na TBC fixo para a Secretaria de Educação.

Houve alguma orientação por parte do MEC sobre como lidar com o ensino na pandemia e também no pós-pandemia?

O Ministério da Educação teve um posicionamento financeiro. Enviou para todas as escolas do Brasil um PDDE Emergencial que caiu direto na conta da escola para os diretores adquirirem EPIs e EPCs.  O suporte pedagógico não foi muito reforçado pelo MEC porque a postura do MEC é de aulas presenciais, inclusive está no Congresso uma proposta do Ministério da Educação para que todos voltem, não só o percentual que o COI autoriza.  Talvez por isso eles tenham destoado um pouco do que aconteceu nos Estados e municípios, mas, financeiramente, o MEC deu suporte, sim, e, agora, o Congresso derrubou o veto presidencial na lei de conectividade e teremos R$ 3,5 bilhões que serão distribuídos para os estados fazerem convênios com os municípios e garantir a aquisição de tablets para os alunos e conectividade.

Essa descentralização vai aumentar ainda mais a diferença de desempenho escolar que há entre os estados?

Muito mais. Há um ano a Fundação Lemann, o Todos Pela Educação e o Instituto Ayrton Senna estão todos avaliando a rede o tempo todo. A última avaliação que saiu, por exemplo, dava um panorama de Goiás por escola, por turma e por disciplina. É assustador porque estamos acostumados a ver Goiás avançando e recebemos uma avaliação em que os meninos caíram na proficiência. É muito triste, mas como é que não vamos levar em consideração a pandemia? Tínhamos um percentual de 85% dos meninos tirando nota boa em matemática e caiu para 71%. O Espírito Santo que era primeiro lugar no Brasil na proficiência e caiu para oitavo.

Essas entidades têm colaborado no sentido de buscar soluções para a educação nesse momento?

Sim, hoje toda minha tutoria está no Centro de Convenções com o Instituto Unibanco discutindo um plano de retomada segura, como fazer a correção da proficiência, da aprendizagem. Está todo mundo trabalhando com este propósito de fazer com que as perdas, elas vão acontecer, mas que não sejam tão impactantes como estamos vendo em alguns estados. Todo o suporte financeiro que a secretaria precisa o governo do Estado tem dado para fazermos esses ajustes. Eu estou muito preocupada porque vem o Enem pela frente, tem a avaliação do Saeb em outubro e temos 90 dias para fazer reforço, acompanhamento, nivelamento, monitoramento, para tentar recuperar e não registrar uma queda tão brusca. Eu sempre falei e vou repetir: não tenho paixão nenhuma por essa questão de primeiro lugar; tenho paixão por isso aqui, Goiás é o primeiro lugar no Ensino Médio com 4.8. Se você parar para pensar, as crianças não aprendem 50% e somos os melhores do Brasil. Eu não me importo se vamos ficar em primeiro lugar e só queria muito passar de 5.0. Se com 5.1   Goiás for o quinto, crescemos na proficiência e é nisso que temos que mirar.

Nesse resultado há um peso muito forte das escolas militares. Qual a avaliação da senhora em relação a esse modelo de ensino?

Acho que existe um exagero na hora de olhar a Escola Militar porque eles acham que lá dentro não existe uma aprendizagem democrática. Acho que isso que tem ferido mais os especialistas em Educação. Eu não vejo assim. O pai tem que escolher a escola de seu filho. Se ele quer que seu filho estude no Colégio Militar ele precisa estar atento ao regimento do colégio, que vai pedir uniforme, um corte de cabelo que está previsto no regimento, impedir o uso de celular durante a aula. Eu sou muito a favor dos colégios militares, eles têm um trabalho fantástico e melhoraram muito. Antes, o aluno fazia uma prova para entrar e só entravam os melhores, hoje são sorteados. O Colégio Militar não pode mais funcionar em um município que só tenha um colégio de ensino médio. Eu preciso de pelo menos duas opções. Não é mais um colégio para os melhores, é um colégio para todos, que tem alunos com deficiência, e aos poucos estamos nos ajustando e aprendendo juntos. Mas não tem como negar, as dez melhores escolas de Goiás, no Ideb, na rede pública estadual, são militares.

Nas avaliações on-line, é considerada a possibilidade de o aluno fazer consultas?

Eu quero falar uma coisa interessante, a criança e o adolescente não nascem corruptos. Acho que a vida vai levando a pessoa para outro caminho. Eu fiquei impressionada quando chegaram as provas dos alunos que podiam colar em casa. Eles não colaram; eles erravam.

Na gestão anterior houve uma discussão sobre a transferência da gestão das escolas para Organização Sociais. Qual a opinião da senhora sobre o modelo?

Eu quero defender uma escola porque eu sou pobre, eu sou filha de agricultores e olhe onde eu cheguei estudando na escola pública, meus dois filhos vieram da escola pública.  Não posso acreditar que terceirizando uma gestão ela vai melhorar. Eu tenho que acreditar que nós, que passamos num concurso público, que fizemos uma faculdade, temos condição de gerir a Educação. Eu defendo a escola pública, com os recursos que ela tem, bem administrada, sem corrupção, com um bom aprendizado fazendo homens e mulheres que vão governar esse país de verdade.

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