Entrevista | “Sou um liberal, mas um liberal social”

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Foto: Tribuna do Planalto

Defensor do indivíduo e do mercado, o presidente do PSD em Goiás afirma que adaptou sua tendência política à condição do Brasil, um país desigual e com muita pobreza e miséria, quadro social que só será transformado por meio da educação. Político ligado à direita desde o início da trajetória no PFL, Vilmar Rocha avalia que o presidente Jair Bolsonaro cumpre o papel de dar visibilidade ao campo da direita, mas que as forças ligadas a ele não devem ser vitoriosas em Goiás em razão da radicalidade. O ex-deputado federal avalia o governo Ronaldo Caiado como razoável e afirma que, no momento, a aliança do PSD para a eleição de 2022 é com o DEM.

Tribuna do Planalto – Quais são os projetos do PSD para a eleição de 2022 em Goiás?

Vilmar rocha – A prioridade agora é formar uma lista forte de candidatos a deputado estadual e deputado federal. A eleição de 2022 vai ser no dia 2 de outubro e tem uma norma funcional que diz que a legislação que muda as regras tem que ser feita um ano antes, até 2 de outubro agora, daqui 90 dias. Há vários projetos tramitando na Câmara e no Senado para modificar a legislação eleitoral. Eu não acredito que vá haver mudanças substantivas; por exemplo, voto distrital, esqueça; voto auditável, esqueça. Pode haver alguma mudança adjetiva e superficial.

E o projeto de coligação proporcional?

Esquece. Para voltar a permitir a coligação proporcional depende de uma emenda constitucional e uma emenda condicional, precisa de três quintos dos votos da Câmara e do Senado. O tema não interessa aos grandes partidos, inclusive o PSD. Em 2006, nós aprovamos a cláusula de barreira para reduzir o número de partidos e o STF considerou inconstitucional essa lei. Fizemos, então, uma lei escalonada, moderada, para reduzir o número de partidos e, em 2018, 14 partidos não atingiram a cláusula de barreira; em 2022, cerca de 10 não devem atingir e vai aumentando. Dentro de alguns anos vamos ter seis partidos no Brasil. A lei não extingue o partido, mas ele vira uma associação política.

Mantida a legislação, com quais cenários o PSD trabalha para 2022?

Eleger de três a quatro deputados estaduais e de seis a oito deputados federais.

Nesse planejamento, onde entra o Lissauer Vieira?

O Lissauer foi eleito deputado estadual pela primeira vez pelo PSD com o meu apoio e saiu do partido por causa de um problema local, lá em Rio Verde. Estamos trabalhando fortemente para ele voltar para o PSD. O projeto dele é ser candidato a federal e ele contará com todo o apoio do PSD, mas ele também pode ser candidato a vice-governador. Ele tem um compromisso com o Ronaldo Caiado e só vai para um partido que esteja na base do governador.

E quais os planos do partido para uma candidatura ao Senado?

Nosso pré-candidato ao Senado chama-se Henrique Meirelles. Em 2002, nós fizemos uma articulação para sairmos, ele e eu, candidato a senador e Marconi Perillo a governador. Depois a coisa desandou e nem eu nem ele saímos candidato a senador e nos elegemos deputado federal, eu pelo PFL e ele pelo PSDB. Em 2011, Meirelles participou junto comigo da fundação do PSD nacional e ficou até 2018, quando saiu e se filiou ao MDB para ser candidato a presidente da República. Agora, voltou para o PSD e me disse que não queria ser candidato a governador, mas ao Senado. O único nome do PSD que poderia ser candidato a senador era eu, mas só que em eleição majoritária os astros têm que estar muito favoráveis e depende da circunstância do momento. Os astros para mim agora estão meio desalinhados: estou sem mandato, não estou em governos, estou na planície, e não tenho estrutura financeira para bancar uma pré-campanha, não tenho e não sou ligado a ninguém que tem. Não posso ser candidato. A meta do PSD é ter uma representação na chapa majoritária.

Meirelles não quis ser candidato a governador para não concorrer com o Ronaldo Caiado?

Não. Ele acha que pode contribuir mais em Brasília, como senador. Quando em 2019 nós trouxemos o Vanderlan Cardoso para o PSD seria para ser candidato a governador, e Francisco Júnior seria candidato a prefeito de Goiânia, mas ele quis ser candidato a prefeito de Goiânia.

Em qual chapa Meirelles seria candidato ao Senado?

O que eu vejo no cenário político de Goiás: primeiro, a candidatura de Ronaldo Caiado, que hoje é o favorito até porque está só; segundo, uma candidatura de oposição, que terá no mínimo 30% dos votos porque há uma tradição em Goiás de ter o segundo turno. Se formos dividir o eleitorado goiano, a grosso modelo, seria assim: 30% é governo; qualquer governo; 30% é oposição, qualquer oposição, principalmente em Goiânia e nas grandes cidades; 30% são independentes. Se for viabilizada uma candidatura de oposição forte, esses 30% independentes podem migrar para a oposição e, se não houver, eles tendem a apoiar a candidatura do governo. Então, teremos um candidato do governo, Ronaldo Caiado; um candidato de oposição e, teoricamente, essa candidatura teria que ser do MDB, mas deu problemas aqui. Daniel Vilela seria o candidato natural, mas com a morte de Maguito Vilela ele enfraqueceu e o partido se dividiu. A terceira candidatura vai depender do presidente Jair Bolsonaro, que vai ser candidato a reeleição e poderá ter uma candidatura em Goiás para manter o esquema da direita no Estado. O Jair Bolsonaro está fazendo uma coisa boa dentro de uma visão política macro que é dar voz para a direita, dar um espaço para a direita se concentrar. No Brasil, a direita nunca se assumiu, ela sempre foi difusa, era quase um palavrão falar que alguém era de direita e Jair Bolsonaro está dando visibilidade à direita. Mesmo se perder a eleição, ele vai eleger muitos deputados federais, senadores, ele vai liderar o espaço da direita no Brasil, e isso é positivo dentro de uma visão macro do sistema político e do amadurecimento democrático do nosso país. Diante disso, ele pode ter um candidato a governador aqui para manter essa direita unida. O quarto caso é o PT, um partido orgânico. Eu respeito o PT como partido político pela organicidade. Historica­mente, o PT tem candidato a governador, mesmo sabendo que não podia ganhar, mas é uma missão, para manter a bandeira. Recente­mente, recebi a visita do deputado Rubens Otoni e ele disse que o PT de Goiás é capaz de abrir mão de um projeto regional em função do projeto nacional porque sempre priorizamos o projeto nacional. Como em Goiás eu imagino que apenas o PT estará com Lula, então o PT terá que ter um candidato aqui para garantir o palanque para a candidatura de Lula.

E onde se encontra o PSD nesse espectro político que o senhor desenhou?

O PSD é claramente um partido de centro capaz de fazer alianças com a direita, centro-direita e centro-esquerda. Vai ser um dos grandes partidos do Brasil. Em um país como o nosso, não tem governabilidade se não fizer alianças e formar maiorias. Bolsonaro não soube fazer alianças e liderar essas alianças, por isso está nessa crise. Ele demorou porque não conhece e não tem essa visão do país.

 

O PSD está mais próximo de qual das chapas que compõem o cenário que o senhor desenhou?

Como hoje só tem a candidatura do Ronaldo Caiado, há uma tendência de fazer aliança com o governador. Mas ainda não está definido.

Mas há essa disponibilidade por parte de Ronaldo Caiado de ceder a vaga ao Senado para o PSD?

Estamos no início das articulações ainda.

Um eventual candidato de Jair Bolsonaro em Goiás teria sucesso com as mesmas pautas propostas pelo presidente em 2018?

Vai ter força porque Goiás é um estado conservador, mas vai ser uma candidatura minoritária. Não tem a menor chance dessas forças ganharem uma eleição em Goiás porque para formar maioria tem que somar outras forças e eles são muito radicais. Não tem chance de uma vitória de um candidato a governador de Bolsonaro aqui em Goiás, caso venham ter. Os radicais são minoria. Há sete características de um bom candidato a presidente do Brasil hoje: moderado, gostar de gente, capacidade para recuperar o prestígio do Brasil no exterior, ficha limpa, apresenta uma nova forma de administração, capacidade de diálogo e de formar maioria. Mas esse candidato não pode ser um candidato de provete, tem que tocar o coração do povo. As vezes, é um candidato qualificado, mas que não toca o coração.

A direita defendida pelo presidente Jair Bolsonaro se limita à defesa da família, Deus e a pátria. O senhor sempre foi um político de direita ligado à teoria liberal. O presidente tem condições de liderar essa direita que o senhor representa?

Eu sou um político liberal. Primeiro eu acredito no indivíduo, na pessoa, nos direitos da pessoa. A pessoa tem que ter autonomia para fazer da vida dela o que acha que deve fazer, desde que não prejudique o outro. Eu acredito nas forças econômicas do mercado. A economia privada move o país, ela faz os país crescer, mas em um país como o nosso, tão desigual, com muita pobreza e miséria, é diferente. Em um país grande, continental, é preciso ter sensibilidade para o social. Agora, por exemplo, temos que ter uma política de transferência de renda muito bem estruturada no âmbito federal, estadual e municipal. O que ainda fez a economia brasileira respirar foi o auxílio emergencial. Eu sou um liberal com consciência social. Em um país estruturado podemos até ser um liberal puro, mas no Brasil eu sou um liberal social, e o país precisa ser social democrata. E só tem um jeito de darmos um tiro de morte na desigualdade social do Brasil: é investir em educação para todos, e em especial, na Educação Fundamental de qualidade.

Qual a avaliação que o senhor faz da gestão da pandemia em Goiás?

De razoável para boa. Poderia ser melhor porque faltou o auxílio emergencial. Está demorando, até porque a situação fiscal do Estado hoje é boa e tem espaço para fazer um auxílio emergencial. Ano passado alguém me perguntou que nota eu dava para o governo e eu dei 5, agora dou nota 6. Melhorou um pouco, mas falta essa sensibilidade com o social e houve a interrupção da industrialização do Estado com a suspensão dos incentivos fiscais.

O Brasil corre algum risco de ruptura institucional?

Não. Porque o Brasil é um país em que a democracia está mais madura, as instituições estão mais fortes e independentes, uma imprensa independente, a economia é diversificada e internacionalizada e uma elite acadêmica forte. Num país assim é mais difícil haver uma ruptura democrática. Eu não acredito nem no impeachment do Bolsonaro. Pode acontecer, mas está fora da lógica.

Qual a avaliação do senhor do projeto que implanta o homeschooling no Brasil?

Primeiro, acho que está cedo para implantar isso no Brasil. Nós temos que amadurecer mais e esperar um pouco mais de tempo. Segundo, vai depender muito da lei que vai regulamentar o homeschooling. No momento, não é adequado porque fizemos um enorme esforço no Brasil para obrigar os pais a levarem as crianças para as escolas, e conseguimos. Hoje, é lei, é obrigatório e o pai pode inclusive ter uma sanção se não levar a criança para a escola na idade escolar. Se instituirmos o homeschooling de uma forma aberta, vamos dar um passo para trás nesse esforço que o país fez, durante muito tempo, para colocar todas as crianças nas escolas. Eventualmente, os pais podem não colocar a criança na escola, colocar ela para trabalhar e dizer que está fazendo homeschooling.  Além disso, uma das coisas mais importantes na educação é a sociabilidade da criança, a possibilidade de ela conviver com gente diferente, com emoções diferentes, com colegas diferentes. Essa socialização é importantíssima, sobretudo na educação infantil. Nesse momento civilizatório e cultural que estamos vivendo no Brasil, aumentou muito a violência doméstica contra mulheres e contra crianças, e uma das formas que temos para identificar se a criança está sofrendo violência doméstica é na escola. É lá que ela revela e que os professores percebem que ela está tendo violência doméstica. Em relação à questão dos valores, se você tem uma família que tem determinado tipo de valores, aquela criança vai ser criada dentro daquele tipo de valores, sem possibilidade de confrontar esses valores com outros princípios de grupos diferentes. Isso pode limitar o crescimento emocional e o crescimento humano da pessoa. É um processo que está em discussão, que deve ser aprofundada; deve-se ter muito cuidado com a lei que vai regulamentar porque tem também vantagens e temos que deixar um determinado espaço para que as famílias possam fazer opções. O grande desafio nos próximos anos é a qualidade da educação pública, sobretudo no ensino fundamental. Então, vamos amadurecer a discussão, mas não vamos proibir. É preciso fazer algo bem regulamentado para permitir que pessoas possam ter essa opção, não seria completamente proibido, como é na Alemanha, e precisa ser bem fiscalizada para evitar esses riscos que falamos.

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