“O ensino remoto não funcionou no Brasil”

Estudantes, principalmente os que fazem parte dos de baixa renda, não têm acesso ao ensino devido formato remoto de aprendizagem imposto pela pandemia

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Foto: Arquivo

Por Fabíola Rodrigues

pandemia de Covid -19 acelerou o uso de tecnologia nas escolas, afinal, sem aulas presenciais a única alternativa para dar continuidade ao processo de aprendizagem dos alunos foi a adoção de aulas remotas, que exigiam que professores e estudantes tivessem acesso à internet e computadores ou aparelho celular. Todavia, uma pesquisa divulgada pela Organi­zação Não Governamental Todos Pela Educação mostra que, no Brasil, 67% dos domicílios possuem acesso à internet, sendo que esse percentual é muito diferente entre classes sociais: 99% para aqueles da classe A, 94% na B, 76% na C e 40%, na D e E. Ou seja, no mínimo 33% de brasileiros estão alijados desse modelo de aula.

Além dessa dificuldade de acesso, para a maioria dos professores o uso de tecnologia impôs um novo desafio que foi adaptar os métodos pedagógicos próprios para a sala de aula com lousa, giz, livros e cadernos para uma realidade que dispensa as tradicionais ferramentas de ensino e tem a tela do computador ou celular como principal meio de comunicação. A escola teve que se reinventar e para isso utilizar a tecnologia como meio de ensinar se tornou fundamental

Mas esse modelo de ensino remoto ainda não funcionou no Brasil, afirma o coordenador de Políticas Edu­caci­o­nais do Todos Pela Edu­cação, Ivan Gontijo. Segundo ele, comparando uma escola de 2019 com uma de 1990 se percebe que elas são muito parecidas em termos do uso da tecnologia para fins pedagógicos. “Raras são aquelas que têm wifi”, observa.

Ivan Gontijo, coordenador do Todos pela Educação: “Estudantes das periferias estão de férias até hoje”

“Nós praticamente não trabalhávamos tecnologia na escola brasileira, a não ser em experiências muito pontuais. Com a pandemia, fomos obrigados a incluir a tecnologia nas práticas pedagógicas. Percebemos que o Brasil teve muita dificuldade para fazer isso porque não tínhamos infraestrutura tecnológica para lidar com esses desafios”, diz Gontijo. Na avaliação do coordenador, se o país não aumentar a conectividade dos alunos e dos professores e dar formação continuada sobre tecnologia para os educadores não resolverá esses dois grandes gargalos.

Rosângela Ferreira, especialista em métodos de ensino: “O aluno tem menos acesso do que imaginávamos”

Um dos desafios é o acesso, destaca o coordenador da ONG. “Chegou para pouca gente. Os poucos registros já mostram que o impacto foi e é gigantesco. De um modo geral, não soubemos usar o ensino remoto ainda”, observa. Segundo ele, os dados apontam para a   necessidade de se flexibilizar a disponibilização da internet às comunidades mais vulneráveis.

Mas o acesso não é o único desafio que as escolas devem enfrentar para se adaptar à nova realidade que o uso de tecnologia impõe. Isso porque, de acordo com Ivan Gontijo, o rendimento do aluno no ensino remoto está aquém do esperado e, em muitos casos, as escolas continuam passando atividades impressas para o aluno em razão do próprio despreparo no uso da tecnologia.

“Grande parte das redes de ensino brasileiras ainda adota aquela estratégia mais antiga, que é a entrega de material. Como não temos infraestrutura e os professores não estão preparados, não por culpa deles, mas porque não foram formados para isso, acabamos indo para o modelo menos rico que é a entrega de atividades. Claro que tem escolas que estão se sobressaindo com novidades de sistema, mas são a minoria”, afirma.

Para o coordenador, distribuir material para criança e falar para ela devolver daqui um mês não é uma boa estratégia de ensino. “Os estudantes, principalmente das periferias, estão de férias até hoje. É muito triste isso, mas é verdade. É muito importante discutir de fato como voltar às aulas até todos estarem vacinados, porque o ensino remoto ainda está muito frágil”, ressalta.

A situação de baixa renda de muitas famílias brasileiras, segundo Ivan Gontijo, é um dos empecilhos para que o país possa avançar na estruturação tecnológica escolar. “Não usávamos a tecnologia antes porque ainda temos muita pobreza e a maioria das escolas se preocupou em distribuir merenda. É importante fazer isso, mas em outros países mais desenvolvidos a questão da alimentação não é o foco principal, abrindo assim mais possibilidades para investir em outras questões, como o desenvolvimento tecnológico”, pontua.

A tecnologia ainda é inacessível

A especialista em metodologia de ensino Rosângela Ferreira afirma que o ensino remoto não é acessível para o estudante nem para o professor. “Descobrimos que o aluno tem menos acesso do que imaginávamos. A maioria dos estudantes de escola pública não tem internet em casa para receber vídeos, atividades e a situação do professor é semelhante“, diz.  Para a especialista, a escola precisa abrir espaço para acesso à tecnologia, principalmente a pública, se adequar e usar os aparatos tecnológicos como ferramenta. Ela observa que para a escola crescer terá que melhorar a conectividade e se adequar para receber o aluno.

De acordo com um levantamento do Unicef, o Fundo de Emergência Internacional das Nações Unidas para a Infância, em novembro de 2020, quase 1,5 milhão de crianças e adolescentes de 6 a 17 anos não frequentavam a escola remota ou presencialmente no Brasil. Outros 3,7 milhões de estudantes matriculados não tiveram acesso a atividades escolares e não conseguiram estudar em casa. No total, 5,1 milhões não tinham acesso à educação. Entre essas crianças e adolescentes sem educação, 41% tinham de 6 a 10 anos de idade; 27,8% tinham de 11 a 14 anos; e 31,2%, tinham de 15 a 17 anos.

Esse levantamento, se­gun­do a especialista, é mais um forte indício de que a escola pós-pandemia terá que, de fato, ser diferente e precisará ser inovadora. “Tem que ser uma nova escola, ela precisa ser aberta e atender aos anseios da comunidade. Sem contar que os pais estão vendo de perto como o formato do ensino está crítico”, expressa.

Rosângela avalia que o cenário do ensino atual não é nem de longe o ideal, haja vista que as reestruturações são muito lentas. Mas, na opinião da especialista, ainda é melhor ir tentando fazer algo para proporcionar aprendizado ao estudante do que não fazer nada. “A primeira frase que vai à mente de um professor, referente a este novo formato de ensino é que é desafiador, mas foi posto. O professor foi jogado neste meio e tem duas maneiras de ver isso: a primeira é de resistir e a segunda é de aderir. O mais viável é aceitar o desafio e se abrir para o novo. Somos seres adaptáveis”, explica.

“O professor não voltará para a sala de aula da mesma forma”

Bruna Neves, professora: “Há necessidade de políticas educacionais sobre valorização de acesso à internet”

A professora Bruna Neves, que dá aulas de Português em escolas públicas em Goiás, conta que o país despertou sobre a necessidade de rede de internet em meio a pandemia. “Isso tudo nos mostrou a necessidade de políticas públicas educacionais sobre valorização do acesso à internet aos alunos de baixa renda e, principalmente, sobre a inclusão de educação tecnológica nos cursos de licenciatura, nas salas de aula, assim como nas salas de informática”, esclarece.

Bruna Neves conta que, como toda adaptação, houve momentos de insegurança e frustração com as mudanças no ambiente escolar. Entretanto, ela avalia que o impacto vivenciado na pandemia foi o empurrão que os professores precisavam para abraçar o ensino a distância, que sempre sofre grande resistência em razão do uso da tecnologia.

A professora relata que ainda é possível encontrar docentes resistentes ao uso de canais de educação, da câmera, da fotografia e da montagem de vídeos. “Passa­mos por um período difícil para aprender a lidar, aprender a fazer, mas alcançamos o nosso trabalho pedagógico. E o melhor de tudo, nos rein­ven­­tamos. Acredito que ne­nhum professor voltará para sala de aula sem utilizar algum recurso que conheceu durante a pandemia”, diz.

Bruna Neves acredita que o ensino não será o mesmo após esse período. “A pandemia veio pra acelerar essa adaptação entre ensino e tecnologia”, frisa.

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