Entrevista | “A pandemia antecipou o futuro”

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O ex-secretário de Educação de Goiânia e de Aparecida de Goiânia e presidente da União Nacional dos Dirigentes Muni­cipais de Educação em Goiás (Undime-GO), professor Marcelo Costa, assumiu a Secretaria de Educação de Senador Canedo depois de deixar a administração da capital após o rompimento do prefeito Rogério Cruz com o MDB.

Professor na Educação Básica e no Ensino Superior, Marcelo Costa deixou a sala de aula para se especializar em gestão e sua experiência levou a ser convidado a integrar o Comitê Operativo de Emergência (COE) do Ministério da Educação (MEC).

Nesta entrevista, ele fala do desafio da volta às aulas presenciais em meio à pandemia de Covid-19 e dos efeitos do isolamento social na Educação.

Tribuna do Planalto – O município já tem dados sobre os efeitos da pandemia na Educação, tanto em relação aos efeitos no processo de aprendizagem como à condição de alunos e professores para se adaptarem a esse período?

Marcelo Costa – De um modo geral, todas as cidades tiveram impacto negativo por conta da pandemia e a região metropolitana um pouco mais porque, como é região de migração, tem muito aluno que vem de regiões mais pobres e que tem dificuldade de acesso à internet. As cidades tentaram mapear quem tinha acesso e quem não tinha acesso à internet. Para os alunos que não tinham acesso, foram realizadas tarefas impressas, que eram entregues e os professores faziam algum tipo de manutenção desse processo; cidades maiores desenvolveram plataformas próprias síncronas ou assíncronas que eram capazes de pôr o aluno em contato com o conteúdo; secretárias menores utilizaram aplicativos de comunicação, Google Classroom ou alguma outra ferramenta gratuita que foi disponibilizada, mas, de modo geral, todo mundo conseguiu. Senador Canedo fez o acesso via Google Classroom, WhatsApp, tarefas impressas e tem colocado o aluno em contato com o conhecimento, muito aquém do que gostaríamos que fosse. Existe essa discrepância do período antes da pandemia, esse momento transpandemia e o que vai acontecer pós-pandemia. Mas uma coisa é certa: a pandemia trouxe uma antecipação de futuro, coisas que estávamos pensando para daí dez anos já estão acontecendo; professores que tinham dificuldade com tecnologia passaram a conviver melhor com o processo tecnológico e o poder público passou a conviver melhor com o processo tecnológico. Senador Canedo, na gestão anterior, não tinha Diário Oficial, e, agora, lançou um programa chamado Avança Canedo, com controle de metas de cada secretaria. Eu diria que, tecnologicamente, o saldo é positivo.

O que a prefeitura fez para dar suporte aos professores e alunos nesse período? 

Neste ano, lançamos um auxílio conectividade para que os professores pudessem pagar a internet em casa e, nesse momento, estamos em processo de compra de chromebooks para alunos, para que eles possam não só acompanhar o conteúdo, mas ampliar o contato dos professores com os alunos. Inicialmente, para os alunos que vão fazer o Ideb, 5º, 8º e 9º anos, no ano que vem, ampliaremos o programa para os outros alunos, mas a ideia é que cada aluno de Senador Canedo tenha um aparelho que ele possa se conectar e ter a ampliação de tempo escolar através de plataforma e de tecnologia. É muito difícil fazer recuperação de conteúdo apenas com horário de sala. Quando as aulas voltarem, é mais do que necessário que exista um contraturno, mas um contraturno bem estruturado. Não é apenas colocar o menino na sala de aula, mas um contraturno que seja tecnológico, que consiga desafiar o aluno, com cursos de robótica criativa, desafios de olimpíadas, a tudo aquilo que motiva uma geração que é nova, uma geração que não é da escola antiga, aquela que nós estudamos, mas uma geração que quer uma escola muito mais moderna, muito mais ágil, muito mais parecida com a rotina que ele vive na casa dele, de celular e PlayStation. Ele tem acesso a uma gama de processos tecnológicos muito diferentes do que os que vivemos na nossa geração.

Seria a implantação da escola integral na rede municipal?

O conceito de ensino de escola integral no Brasil é meio fluido. Falamos muito de escola em tempo integral e escola de tempo integral. A ideia da ampliação da carga horária já é uma coisa que percebemos há muitos anos e não pode ser considerada uma escola de tempo integral clássica, mas ela supre a necessidade de o aluno ter mais contato com o conteúdo. Principalmente agora. Se isso já era uma necessidade antes de 2020, passa agora a ser uma realidade posta imediata. Precisamos acompanhar os alunos nas suas deficiências a tudo aquilo que não foi bem trabalhado no ano passado e nesse ano, se quisermos não ter um atraso de até dez anos na educação desse país. Todas as redes, todos os secretários vão ter que ficar imbuídos dessa introdução ou ampliação de processos tecnológicos na educação.

Há algum levantamento sobre o desempenho dos alunos nesse período de aulas não presenciais?

Fizemos uma pesquisa nos 5.568 municípios, 78% responderam, e o que vimos é que a discrepância é regionalizada. No Norte, tivemos mais dificuldades e no Sul, menos dificuldades; o Centro-Oeste está aqui no meio do caminho; cidades maiores tiveram menos dificuldades tecnológicas, mas mais alunos sem acesso à internet; cidades menores tiveram mais dificuldades tecnológicas – não tinham uma plataforma que eles pudessem desenvolver, tiveram que comprar, usar WhatsApp ou outro tipo de aplicativo -, mas tiveram mais condições de os alunos terem acesso à internet. Em média, tivemos perdas consideráveis. Em Goiás, nós fizemos um programa estadual, que chamamos de Matrizes de Habilidades Estruturan­tes, pegamos a Base Nacional Comum Curricular e tiramos aquelas habilidades que eram mais importantes – o que o aluno precisa saber para passar para o próximo ano – e deixamos de fora aquelas que eram menos importantes. Trabalhamos com os alunos só aquelas que deveriam ser trabalhadas naquele momento. Agora, no processo de volta, vamos recuperar todas aquelas que não foram trabalhadas a contento, atacando essas deficiências. Em agosto, vamos aplicar, em Senador Canedo, provas diagnósticas usando a Teoria de Respostas ao Item e o resultado será socializado com diretores, coordenadores, professores e a secretaria, a partir desse diagnóstico, vai montar as intervenções pedagógicas adequadas.

Quando Senador Cane­do retorna com as aulas presenciais e como será esse retorno?

Nós vamos retornar em setembro. Tínhamos uma série de intervenções estruturais nas escolas para fazer para que a escola pudesse ficar adequada para a segurança dos alunos.

Em Goiás, vamos seguir o modelo que o Comitê de Operações Emergenciais determinou e, até aqui, o protocolo trata de um revezamento de 30% dos alunos que pode chegar a 50%, nas próximas reuniões isso vai ser discutido. Mas cada município tem um comitê local, que é formado pelos secretários de Educação, de Saúde, Finanças, Conselho de Educação, sindicatos, conselho de pais, o que houver no município, e esses atores definem localmente o que vai acontecer. Em Senador Canedo, estamos levantando a questão da vacinação aos professores, que é um fator muito importante para a volta, a ambientação dos alunos e monitorando a quantidade de doentes e óbitos que tem no município. A ocupação de leitos, a quantidade de pessoas internadas, de pessoas entubadas e de óbitos é condição sine qua non para que possamos determinar se essa volta vai acontecer. Quando voltar com a escola, é óbvio que vai haver mais circulação pela cidade, mais exposição e pode ter um aumento na quantidade de casos. Se não estivermos preparados para isso, a volta pode ser judicial. O retorno não é mágico.  Parar é muito fácil, dolorido, mais fácil. Voltar é muito mais complicado, é muito mais doloroso, porque temos que acolher os professores que estão com medo, os pais que não sabem se mandam os seus filhos para escola ou não, os alunos que ficaram fora da escola por um ano e têm dificuldade nessa volta. É uma volta gradativa, que tem que ser por acolhida, os protocolos de trabalho com a parte emocional têm que ser muito bem vistos, muito bem colocados para que possamos ter uma escola que não seja apenas uma fábrica de banco, quadros e giz. Mas que seja realmente o que ela é, um local de desenvolvimento de ferramentas para a cidadania. Precisamos ensinar na escola que o cuidado com o outro é muito importante, que o cuidado com a vida é muito importante, que a sociedade tem que evoluir para o cuidado e não apenas para a economia. Essa volta não pode ser apenas econômica. É muito importante que exista o olhar sobre a economia, mas a volta tem que ser para cidadania e a cidadania tem de possibilitar uma boa economia porque a economia por si só nunca vai possibilitar uma boa cidadania.

O Conselho Nacional da Educação aprovou uma resolução que libera a fusão de 2021 e 2022. Como o senhor avalia a medida?

É uma possibilidade, mas não precisava de resolução para isso porque já existe legislação que permite.  Para Goiás não seria uma boa solução porque, no ano passado, houve um consenso, todos os municípios fecharam o ano e nós abrimos 2021. No Brasil, tivemos vários tipos de soluções. No Nordeste ainda estão em 2020 até hoje, não fecharam o ano. As resoluções dão opções para as redes que precisam, com seus conselhos estaduais e municipais, definirem como será feito o regramento local. É importante que se lembre que a educação tem que ser libertadora. Existe uma ansiedade muito forte de que se ensine, como se ensinar fosse dar injeção. Não é bem assim. Imagine, em um momento difícil como esse, de instabilidade psicológica, todo mundo sofrendo, todas as pessoas pensando no insucesso que estamos tendo nas nossas profissões, os médicos, os enfermeiros, os professores, os alunos não são diferentes de todos nós, são pessoas em desenvolvimento que precisam ser apoiadas nesse momento. Fazer um aluno repetir de ano nesse momento é dizer a ele que o fracasso externo é também o fracasso interno dele. A escola não serve para isso. Ela tem que promover o aluno e promover as condições adequadas para sua recuperação. A pandemia não vai se solucionar nos próximos cinco anos. É responsabilidade de quem trabalha com educação saber que, nos próximos cinco anos, vamos trabalhar lembrando que esse aluno teve dificuldades, que temos que trabalhar com tecnologia, com reforço, com contraturno, porque não há uma solução mágica.

Outro desafio é a formação do professor porque a pedagogia muda com a inclusão da tecnologia. Como irão fazer essa nova formação?

Na verdade, vários autores, no finalzinho da década de 1970, disseram: a escola está mudando e, se os professores não mudarem, teremos como consequência evasão, repetência e a dificuldade de se migrar para uma escola mais moderna. A necessidade de se fazer formação de professores, do desenvolvimento de tecnologia educacional e de metodologias mais ativas, do desfoque do conteúdo e o foco na formação integral do aluno é uma premissa da década de 1970. Nós estamos perseguindo esse processo há muito tempo. Me lembro que em 2018, 2019 falávamos da formação de professores como condição sine qua non para que tivéssemos uma escola melhor.  E uma coisa muito interessante, em 2019, foi a proibição dos alunos de usarem celular na sala de aula, porque naquele momento se dizia que pedagogicamente era inviável. Olhe como a pandemia nos ajudou a entender que uma escola boa não é uma escola que proíba, mas uma escola que inclui. Hoje, a tecnologia é muito mais bem-vinda e temos mais condições de ter essa escola nova, que vai ter metodologia diferente, que vai ter os pais muito mais presentes, porque os pais se aproximaram como nunca da educação, o sonho que todos os educadores tinham de que a família participasse mais do processo. Nós temos a condição de que essa tecnologia permaneça no cotidiano da escola e nós temos que pensar então em metodologias diferentes.

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