Caiadismo cresce com inação de opositores

Enfraquecimento e falta de liderança nos partidos da oposição em Goiás somados aos espaços ocupados pelo grupo de apoio ao governo faz em fermentar o caiadismo e do governador o iluminado para a próxima disputa

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Por Thiago Queiroz

Política não deixa vácuo e um grupo ocupa imediatamente os espaços deixados por outro. Após 20 anos de domínio do PSDB e MDB nas disputas ao governo de Goiás, o DEM do governador Ronaldo Caiado quebrou a polarização e saiu vitorioso nas eleições de 2018. Dentro do cargo de governador, o aparato político que ajudou a elegê-lo, evidentemente, focou em conquistar e ocupar espaços para se manter no poder. Além dessas ações em busca do fortalecimento do caiadismo, a  inação dos grupos de oposição tem colaborado sobremaneira para esse novo domínio político no estado. A maior e mais difícil conquista do DEM foi, lógico, o governo do estado. Mas, diante das circunstâncias pelas quais passaram e passam os grupos de oposição, o ambiente se tornou favorável ao caiadismo e para promover essas conquistas.

Maior adversário até então, o PSDB foi praticamente aniquilado na última eleição, quando seu candidato e então governador José Eliton ficou em terceiro lugar, com apenas 13% dos votos — número menor que o alcançado pela soma dos dois primeiros colocados para deputado federal. No terceiro dia após o pleito, o partido viu sua maior liderança, Marconi Perillo — que amargou o quinto lugar ao Senado e não atingiu nem um quatro dos votos do primeiro — ser preso pela Polícia Federal quando foi prestar depoimento sobre citação ao seu nome na operação Cash Delivery, que investiga pagamento de propina pela empresa Odebrecht.

Após o episódio, Marconi sumiu da cena política em Goiás e deixou  sem ânimo o partido para fazer oposição ao governo de Ronaldo Caiado. Ele retornou à atividade política apenas no início deste ano, mas já muito distante do protagonismo dos debates, devido aos processos a que responde na Justiça e à falta de força de seu disperso e pequeno grupo, ou do que sobrou dele.

Ainda sobre o PSDB, logo após a saída de José Eliton do governo, o partido começou a trabalhar o nome do então prefeito de Trindade, Jânio Darrot, como sua principal alternativa ao governo do estado nas eleições de 2022. Mas o próprio pediu desfiliação e deixou a presidência e o partido para se filiar ao Patriota. O posto de presidente foi assumido pelo ex-governador José Eliton, mas o de pré-candidato ao governo nunca encontrou algum nome interessado em ocupá-lo. Desta forma, o partido se mantém sem força para sustentar um discurso oposicionista, ainda mais após o fracasso de seu candidato à prefeitura de Goiânia, em 2020, o deputado estadual Talles Barreto, que está praticamente fechado para embarcar de vez no caiadismo.

Grupo de grande representatividade política no estado, o MDB seria o maior  e natural adversário da gestão de Caiado. Seu candidato, o presidente Daniel Vilela, superou o governista e então governador José Eliton e ficou em segundo lugar na disputa de 2018. A movimentação de Daniel foi tímida, limitada à imprensa e às redes sociais, com críticas pontuais à atual gestão, mas sem nenhum projeto de mobilização das bases. O partido se desestruturou no estado e perdeu o contato principalmente com os prefeitos. O MDB chegou a ter quase 200 diretórios, mas conta atualmente com apenas pouco mais de 30. O resultado da ociosidade do atual comando da legenda, somado à atuação de Iris Rezende para levá-la para a composição com Caiado, foi uma carta assinada por 27 dos seus 28 prefeitos por união com o DEM em 2022.

Outro fato favorável a Caiado, e que prejudicou o emedebismo, foi a perda da prefeitura de Goiânia, conquistada em 2020 por Maguito Vilela, que morreu vítima de Covid-19 sem ter exercido um dia sequer de mandato. O novo prefeito, Rogério Cruz (Republicanos), pertence a um partido que tenta composição com o DEM em 2022, tem interesses em parcerias administrativas com o governo estadual e rompeu quase imediatamente com o MDB após assumir o cargo, o que desabrigou seus principais nomes.

Partido, que compôs com o MDB e chegou a eleger um senador pela chapa, o Progressistas não se colocou como oposição e chegou a fazer parte do governo estadual, com o irmão do presidente Alexandre Baldy, Adriano Baldy, sendo nomeado secretário de Cultura. Mesmo rompidos com o governo, devido a declarações sobre a eleição da presidência da Câmara dos Deputados que resultaram na exoneração do secretário, os membros com mandato do partido não se opuseram a Caiado e são favoráveis a uma reaproximação. A nomeação do senador Ciro Nogueira (PP-PI) para ministro chefe da Casa Civil, acendeu no governo estadual sinalização para essa reaproximação, de olho nos recursos federais que ela pode gerar e um a menos na disputa de 2022. O grupo do Progressistas quer e trabalha pela indicação de Alexandre Baldy para a vaga de candidato ao Senado na chapa do DEM.

Conquistas na Assembleia e de prefeituras

A equipe de Caiado agiu rápido em ações para o fortalecimento político, principalmente na Assembleia. A coligação que elegeu o governador conseguiu fazer 18 deputados estaduais em 2018. De imediato, foram atraídos Bruno Peixoto (MDB), escolhido para ser o líder do governo, e, do mesmo partido, Paulo Cezar Martins e Humberto Aidar; Jeferson Rodrigues (PRB, hoje Republi­canos); Diego Sorgatto (PSDB, hoje DEM), Virmondes Cruvinel (Cidada­nia) e Henrique Arantes (PTB, hoje MDB). A base cresceu no primeiro ano e o governo conseguiu aprovar temas polêmicos e desgastantes, como a PEC da Previdência e os novos estatutos dos servidores e do magistério.

Outros foram seduzidos pelo governismo, como os oposicionistas Tião Caroço, que se desfiliou do PSDB e foi para o DEM, e Francisco Oliveira, que também deixará os tucanos. Atualmente, o governo conta com 26 deputados estaduais declaradamente em sua base na Alego, suficientes para aprovar uma PEC, por exemplo, e garantir a governabilidade. Outro ponto positivo foi a aproximação com o presidente da Alego, Lissauer Vieira (PSB), que comandou algumas aprovações de matérias importantes para o governo. Hoje, o presidente é aliado do governador e é um dos cotados para ser o vice na chapa do próximo ano. No âmbito federal, Célio Silveira também vai deixar o PSDB e apoiar a candidatura de Caiado à reeleição, e o senador Vanderlan Cardoso (PSD) já antecipou seu apoio e o seu partido deve compor com a chapa governista.

Nas prefeituras, o DEM se articulou e elegeu, em 2020, 62 prefeitos. Em 2016, o partido havia elegido apenas dez e entrou na disputa de 2018 com 14. O trabalho de cooptação da equipe política, com vistas a alavancar a reeleição de Caiado, garante ao partido, atualmente, 80 prefeitos filiados, um terço das prefeituras goianas. A primeira vítima de esvaziamento foi o PSDB, seguido pelo Progressistas, após o rompimento com Baldy; MDB; PSC; e, ultimamente, o PL, após a presidente regional, a deputada federal Magda Mofatto, fazer críticas diretas ao governador no episódio da caça ao matador em série Lázaro Barbosa.

Presença em instituições e distância de escândalos

As ações políticas em busca de enraizamento contam ainda com esforços do caiadismo para ocupar espaços em instituições, como foi o caso da nomeação de Aylton Flávio Vechi para o cargo de Procurador-Geral de Justiça, contrariando a lista tríplice do Ministério Público que tinha como o mais votado Benedito Torres Neto e, em segundo colocado, Carlos Alberto Fonseca.

A ocupação dos tribunais foi iniciada com a articulação dos governistas, até com ameaças de extinção do TCM, para que o conselheiro Nilo Resende se aposentasse e abrisse vaga para o deputado Humberto Aidar, já indicado pelos colegas na última sessão do primeiro semestre. A Associação Goiana dos Municípios (AGM) foi uma conquista dupla do DEM, que elegeu presidente seu novo prefeito Carlão da Fox, de Goianira. Ele também deixou o PSDB para se ingressar no DEM.

Também pesou a favor do crescimento do caiadismo o comportamento do governador no enfrentamento à pandemia de Covid-19. A opinião popular respalda suas ações em defesa da vida e as medidas sanitárias decretadas pelo governo. Politicamente falando, foi favorável também a Caiado seu afastamento da imagem de Jair Bolsonaro (sem partido) quando o número de mortes pela doença crescia e o presidente negava as recomendações dos órgãos internacionais de saúde.

Com um histórico de praticar a política limpa e ser uma das vozes mais críticas do Congresso, Caiado soube se distanciar em sua gestão no estado de figuras envolvidas em escândalos. De início, o ex-deputado Samuel Belchior (MDB), que participou de sua campanha ao governo, foi excluído das articulações políticas, devido a sua relação com a “pastinha” Luciane Hoepers, no esquema investigado na Operação Miqueias, da PF. Marcos Cabral (DEM), aliado histórico de Caiado, também foi afastado imediatamente da presidência da Codego assim que estourou o escândalo de negociação para venda de áreas do Daia a preços muito abaixo do mercado para grupo ligado ao contraventor Carlinhos Cachoeira.

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