Entrevista | “O eleitor não reconhece Rogério Cruz como prefeito da capital”

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Na Câmara Municipal de Goiânia, Santana Gomes é um dos dois vereadores que fazem oposição a Rogério Cruz. Os outros 33 compõem a base de apoio do prefeito, que tem pela frente a votação de projetos polêmicos, como a revisão do Plano Diretor e a criação da taxa para coleta do lixo. A Câmara também deve acompanhar a contratação de empresas para aplicar as vacinas contra a Covid-19 e fazer captação no mercado de capital para investimentos em infraestrutura e saneamento, que Santana considera “um absurdo”. Isso depois que a Prefeitura de Goiânia decidiu não prorrogar um empréstimo com a Caixa Econômica Federal para esse mesmo fim. O vereador acredita que o prefeito não terá facilidade para aprovar temas polêmicos na Casa, haja vista sua “fragilidade política” e o compromisso dos vereadores com seus eleitores.

A Lei Complementar do Plano Diretor está na lista de projetos a serem votados no segundo semestre. Qual a expectativa do senhor em relação a essa votação?

Eu sou um dos quatro vereadores que fizeram acompanhamento da revisão do Plano Diretor, que já foi entregue à prefeitura e o secretário de Governo, Arthur Bernardes de Miranda, ainda não o enviou para a Câmara. Esse Plano Diretor vai criar muitas polêmicas porque está havendo um envolvimento muito forte de um grupo empresarial que está participando agora de um plano que já foi elaborado. Nós vamos fazer um trabalho para ver o que construímos e o que foi colocado aos 45 do segundo tempo por esse grupo de empresários. É um pouco suspeito. Eu vou passar uma lupa do plano diretor quando o projeto chegar à Câmara.

O Ministério Público estranhou o fato de o grupo de trabalho criado para analisar o plano não ter a participação de representantes da sociedade civil organizada. Ele foi composto por técnicos do Executivo, membros do Legislativo e uma pessoa indicada pelo Sindicato dos Condomínios e Imobiliárias (Secovi) e outro pela Associação do Mercado Imobiliário de Goiânia (Ademi-GO).

Concordo. Foi uma falha porque tinha que ter essas pessoas que poderiam orientar melhor porque nesse grupo de trabalho são os interesses que vão predominar. Parece ter um grupo que está fazendo um trabalho para adensar algumas áreas que não deveriam ser adensadas – Setor Bueno, Setor Marista – e é um grupo de empresários que têm interesse em adensar.

A Prefeitura de Goiânia justificou o motivo pelo qual não enviou o projeto para a Câmara?

Não. Já estava decidido que iria enviar antes do recesso. Esse plano mexeu muito pouco no plano anterior e é um plano viável e interessante para Goiânia, porque traz algumas revisões que precisavam ser feitas, algumas macrozonas, alguns alinhamentos. Mas essa demora da prefeitura nos deixou um pouco preocupados. O secretário de Governo tem conversado muito com empresários, que estão participando de reuniões, eu não entendi o porquê, e eu estou vendo muita conversa de adensamento. Imagina fazer prédios de 40, 30 andares em uma região que não tem nem como trafegar mais, o tamanho do impacto no trânsito? Acho que esse plano vai ter algumas dificuldades de aprovação a partir desse momento.

Como terá dificuldade de aprovação se a maioria da Câmara é governista?

Tem dois vereadores que fazem oposição, o Mauro Rubem e eu.  Mas vou dar um exemplo: estão me parando na rua e a todos os vereadores para falar da taxa do lixo. A voz do povo é a voz de Deus. Eu não sei se eles aguentam a pressão do movimento popular. O vereador foi eleito pelo povo. Eu estou conversando com alguns vereadores que vão ter dificuldade para votar em alguns projetos polêmicos que vão chegar na Câmara. O problema do projeto polêmico é a falta de discussão. Se se apresenta o projeto para a comunidade, conversa com as pessoas, tem-se maior facilidade de aprovação. Eu, mesmo sendo de oposição, não tenho dificuldade de votar a favor de projetos que sejam interessantes para Goiânia. Eu não faço oposição a Goiânia, ao prefeito. Eu tenho feito oposição à gestão, que é uma gestão muito de improviso. Não tem uma programação de gestão para nossa cidade. Tem cinco meses e nada de programação. Qual é a postura dessa gestão? O que vai ser feito na área social? É tapa-buraco, vai fazer uma pracinha ali, é continuidade?  Porque é importante saber qual a função do gestor, o que que o gestor pensa. Mas essa gestão, na minha concepção, é do improviso.

No caso da revisão do Plano Diretor, não foram realizadas as audiências que o Ministério Público tem cobrado?

Quando o projeto foi retirado pelo então prefeito Iris Rezende foi justamente em razão dessa discussão. Acho que temos que fazer dez audiências e nós vamos cobrar porque faz parte da lei. Temos que fazer esse debate com o cidadão goianiense porque as pessoas têm que saber o que vai acontecer. Imagina uma rua em que, de um dia para outro, podem construir um condomínio na frente da sua casa. Os vereadores têm que pensar que a eleição deles se deu através da comunidade, não foi através de prefeito, não foi através do secretário Arthur nem desse grupo que aí está. Eu não estou vendo essa facilidade para o prefeito aprovar esses projetos que estão hoje gerando insatisfação popular.

Sobre a taxa de lixo, foi levantada a possibilidade de ela ter sido criada para facilitar uma eventual privatização da Comurg, cujo contrato com a Prefeitura de Goiânia termina em dezembro. O senhor acredita nessa possibilidade?

Eu não vejo assim. Vejo que estão se aproveitando da lei federal de resíduos sólidos. Era facultativa a cobrança da taxa de lixo para que as cidades viessem a trabalhar os seus lixões. Agora, com a readequação da lei, passou a ser obrigatória, mas isso é para as pequenas cidades que podem usar o dinheiro para dar destinação correta aos resíduos sólidos. É obrigatório e a lei fala que tem que explicar de onde vem o dinheiro, mas não fala que tem que ser da taxa de lixo. Isso é pra cidade pequena, cidade como Goiânia é desnecessária, não tem que aplicar. Eu estou vendo muito discurso de que é da lei federal, mas a lei é muito clara.

Esse projeto da taxa de lixo passa na Câmara?

Esse eu tenho certeza que não, porque eu tenho conversado muito com os vereadores. Não sei o que aconteceu, mas a comunidade se envolveu nesse processo. Se cobrar R$ 1 ou R$ 0,50 ninguém aceita. Eu percebi que já virou uma onda e esse projeto eu acho que não passa, não.

O senhor acredita que o prefeito vai realmente enviar o projeto ou pode vir a recuar?

Eu tenho dúvida porque o movimento está muito forte, a mídia, a comunidade, e o prefeito é muito frágil politicamente e a pessoa frágil não tem peito para encarar. Acho que uma associação de moradores é suficientemente para fazer pressão nele.

Essa fragilidade do prefeito se dá em razão de quê?

Porque a situação dele é atípica. Os votos não foram direcionados para ele, não foi ele quem estava na linha de frente, ele era o vice, ele não tem esse contato com o eleitor, que não o conhece muito bem, esse voto não foi um voto especificamente para ele. Isso o fragiliza muito e qualquer movimento que ele fizer o eleitor pode sentir: “ah! eu não votei em você”. Ele tem que consolidar esse sentimento de gratidão, de acerto. Eu o vejo muito frágil nesse sentimento com o eleitor porque o eleitor não o reconhece ainda 100% o prefeito da capital. E o grupo que ele trouxe não tem contato, como ele. Quando estava com o MDB, ele tinha um grupo mais forte, de gestão, que dava sustentação, um grupo que tinha um histórico na cidade de Goiânia. Esse grupo não tem história, é um grupo de caixeiro viajante, a maioria filiado ao partido dele de Brasília, que não tem conhecimento com Goiânia. Politicamente, o grupo dele não tem nenhum contato com a nossa cidade, com o nosso povo.

Em relação a essa licitação para contratação de uma empresa para aplicar as vacinas contra Covid-19, como que o senhor avalia essa iniciativa da prefeitura?

Um grande equívoco. Eu até recorri à Justiça, ao TCM, ao Ministério Público, e fiz um movimento muito forte contra essa situação. Nós estamos recebendo a média, a cada quinze dias, de 30 mil vacinas e a prefeitura tem uma estrutura de 96 pontos de vacinação para outras vacinas. Essa empresa iria criar mais 17 pontos de vacinação. Isso é um absurdo! Pagar R$ 47 para aplicar uma injeção é um escândalo, e tenho certeza que o TCM vai se posicionar, porque é inadmissível.

A velocidade da vacinação em Goiânia está mais relacionada com o recebimento de vacina do que com a capacidade de vacinação do município?

A prefeitura fez um mutirão com a proposta de vacinar 10 ou 12 mil pessoas, tinha estrutura para vacinar 10 ou 12 mil pessoas, mas vacinou 6 mil. Temos a faculdade de Medicina, de Enfermagem, de Veterinária, esse pessoal está pronto para contribuir, o Exército também. Esse é o momento de termos a participação da comunidade, dos segmentos e das instituições. Não é o momento de pegar dinheiro e sair gastando. Eu fui ao Cais hoje e lá tem quatro programas de saúde parados por falta de verba e querem pagar R$ 47 para aplicar a vacina. Se for em uma farmácia e comprar o remédio eles aplicam de graça.

O senhor não entendeu também que o prefeito não prorrogou o contrato de financiamento de infraestrutura e saneamento, o Finisa?

Eu vi nos jornais que eles contrataram uma empresa – isso é outro absurdo – para fazer captação no mercado. Veja, eles tinham R$ 300 milhões de empréstimo e essa empresa vai buscar R$ 300 milhões novamente, só que   a cada R$ 1 que ela trouxer, ela ganha R$ 0,13. Então, você tem um empréstimo com um banco público que já está consolidado, mas decide trazer uma empresa para vender a prefeitura no mercado para trazer capital, e a cada R$ 1 que ela trouxer, ela tem R$ 0,13. O prefeito talvez seja bem-intencionado, mas esse grupo é o que deu sustentação ao Marcelo Crivella, no Rio de Janeiro. E o Crivella todo mundo sabe a situação dele, ficou preso. Eu torço por Goiânia. Não tenho nada contra o secretário de Governo ser de Brasília, assim como o secretário de Finanças, mas vejo que eles não têm conhecimento e isso é muito ruim para uma cidade como a nossa, que tem histórico de grandes gestores. Eu mandei um requerimento pra Secretaria de Educação pedindo as adesões de atas porque estamos vendo a farra das adesões de atas. Daqui uns dias Goiânia não vai ter mais licitação.

O que levou o senhor ao campo da oposição?

Essa situação de ser oposição foi opção minha, fui convidado várias vezes, e faz parte do processo político. Se eu fosse prefeito é claro que eu queria ter 100% da Câmara. Eu não quero fazer uma gestão de denuncismo, quero fazer uma gestão propositiva.

O senhor acha que a Câmara deu carta branca para o prefeito?

Ela deu uma procuração em branco. O prefeito, por meio de decreto, nomeou mais de 180 pessoas para fazer articulação política de um grupo. Isso não é justo, não tem sentido. Qual é a função da Câmara? Eu nunca vi um prefeito cassar um vereador, mas já vi vereador cassar prefeito. Porque é a função fiscalizadora, e também não sou contra a articulação política do gestor com grupos políticos, partidos políticos dentro do Poder Legislativo. Eu não vejo dificuldade quando se tem programa de governo e dificuldade para colocar em prática os seus projetos de governo. Agora, para acordo, para esquema, para calar e não falar nada, não tem sentido. Para uma pessoa ter essa coragem de trazer uma empresa para fazer esse esquema, na minha concepção isso é um esquema, é porque não tem uma Câmara fiscalizando. Está muito tranquilo, muito à vontade. Eu não tenho nada contra o Rogério, ele é bem intencionado, mas o grupo que dá sustentação a ele não é o grupo dele, é do partido e não tem interesse nenhum em Goiânia.

Qual a avaliação que o senhor faz desses seis meses de gestão de Rogério Cruz?

Tem alguns erros capitais. A folha tem um crescimento natural e ele fez algumas propostas que acho que não vai dar conta de cumprir. O quinquênio, acho importante, mas tinha que saber como estava o caixa. Ele não mandou a data-base do servidor público e ele deu quinquênio para o servidor público. Falta de gestão e de programação. De onde vai tirar?

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