Pandemia quase que dobra número de alunos que desistem de estudar

Dados mostram que quantidade de estudantes que não renovaram a matrícula em 2020 subiu de 2% para 3,8% no país, o que representa 1,3 milhão de crianças e adolescentes fora da sala de aula

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Por Fabiola Rodrigues

O combate à evasão escolar é uma preocupação constante das escolas brasileiras. Manter o estudante matriculado e fazer com que ele não interrompa os estudos é um desafio e, para enfrentá-lo, escolas municipais e estaduais apostam na busca ativa dos alunos, por meio de mensagem, ligações e diálogo, para que eles não desistam de dar andamento à educação.

A evasão é diferente do abandono escolar. O abandono ocorre quando o aluno deixa de frequentar as aulas durante o ano letivo. Já a evasão escolar diz respeito à situação do aluno que no ano seguinte não efetuou a matrícula para dar continuidade aos estudos.

A quantidade de alunos com idades entre 6 e 17 anos que não se matricularam em 2020 foi de 1,38 milhão, o que representa 3,8% dos estudantes. A taxa é superior à média de 2019, quando ficou em 2%, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua. Os dados estão compilados em estudo feito pelo Fundo de Emergência Internacional das Nações Unidas para a Infância (Unicef).

Marcelo Costa, presidente da Undime em Goiás: “Se esse esforço não for
realizado, teremos um
prejuízo incalculável para a educação”

O presidente da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime) em Goiás, Marcelo Costa, observa que os motivos para a evasão neste período estão diretamente relacionados à pandemia de Covid-19 e à interrupção das atividades presenciais nas Unidades Escolares. Segundo ele, houve um grande desestímulo por parte dos alunos por conta do ensino remoto, que trouxe dificuldades para muitos alunos, fosse de acesso ou mesmo por parte da falta do acompanhamento das aulas em casa pelo estudante.

Para trazer esse aluno evadido de volta, o presidente diz que a Undime, em consonância com orientações da Unicef,  tem trabalhado com programas de busca ativa, incentivando todas as escolas do estado a irem à procura dos alunos. Marcelo explica como vem funcionando este trabalho, inclusive, fora de Goiás.

“Desenvolvemos,  em vários lugares do país, atividades e ferramentas que buscam trazer esse aluno que desistiu, que interrompeu sua participação, que perdeu o contato com a escola para que ele possa retornar às atividades e, posteriormente, ir presencialmente nas escolas. Cada corpo pedagógico deve pensar a melhor maneira de incentivar o aluno”, diz.

O presidente alerta que esse esforço de busca ativa deve ser realizado com frequência pelas escolas para que a perda de alunos não seja devastadora. “Este terá que ser um esforço muito grande do país porque muitas crianças deixarão de ir às escolas ainda. E se esse esforço não for realizado, com diligência, nós teremos um prejuízo incalculável para a educação”, frisa.

Além de presidente da Undime, Marcelo Costa é Secretário Municipal de Educação de Senador Cane­do. Ele conta que no município o projeto de busca ativa é feito pela Coordenação Pedagógi­ca. Os alunos da rede municipal que não estiverem participando das atividades digitais recebem a visita dos gestores educacionais. Marcelo ressalta que este trabalho será intensificado com a patrulha da busca ativa, que são personagens fantasiados que de forma lúdica que vão até os bairros, principalmente os periféricos, buscando as crianças.

“É um programa exclusivo de Senador Canedo que tem sido desenvolvido de forma a atrair de volta as crianças para a escola, lembrando a elas que a escola é um ambiente lúdico e desafiador, e que tem muito a oferecer. E é assim que as escolas devem se posicionar, inovando para não perder o que elas têm de mais importante, que é o estudante”, enfatiza.

Rede estadual reduz índice de evasão escolar de 68 mil para 35 mil alunos

No sentido inverso dos índices nacionais de evasão escolar, o número de estudantes evadidos da Rede Estadual de Educação em Goiás apresentou queda pelo segundo ano seguido, conforme indica levantamento realizado pela Secretaria de Estado da Educação de Goiás (Seduc). De acordo com os dados, a redução na taxa foi de 47,5%, o que representa que o índice caiu de 68.063, registrado entre 2019 e 2020, para 35.696, verificado entre 2020 e 2021.

Conforme explica a superintendente de Organização e Atendimento Educacional da Seduc, Patrícia Coutinho, essa redução é resultado das ações de monitoramento que o estado fez, do acompanhamento diário da frequência do estudante. Ela relata que os tutores educacionais, que ficam dentro das regionais escolares e acompanham até cinco escolas, frequentemente entram em contato com os gestores escolares para identificar quantos estudantes registraram  queda na frequência, se havia mais de três dias que não participavam das aulas. Caso não estivessem devolvendo as atividades impressas a superintendência pedagógica era acionada. “Neste momento a escola já entrava em contato com a família, quando não conseguia o contato por telefone, ia até a casa do pai. Foram diversas ações de resgate do estudante”, relata a superintendente.

Patrícia Coutinho, superintendente de Organização e Atendimento Educacional da Seduc: “Foram diversas ações de resgate do estudante”

Para Patrícia, para atender bem o aluno no ambiente escolar é entender quais são as dificuldades dele, diagnosticar o que está fazendo o estudante abandonar ou deixar de frequentar a aula. Desta forma, é possível saber como atender ele de forma pontual. “A primeira ação é identificar essa lacuna de aprendizado. Na primeira semana do primeiro semestre deste ano foi feita uma avaliação diagnóstica nas escolas da Seduc e outra em abril. Essas avaliações mostram a lacuna do estudante, aluno por aluno”, ressalta.

Outra forma de manter a aproximação do estudante com a escola se dá durante a entrega dos kits de alimentação, distribuídos para os estudantes matriculados na Rede Estadual, que é também um momento para a realização da busca ativa aos alunos ausentes. Durante a entrega presencial dos kits, as equipes pedagógicas questionam os pais sobre a participação dos estudantes nas aulas e ofertam as atividades impressas, caso seja identificada a ausência de acesso à Internet.

“No momento em que a escola identifica que o aluno está com baixa frequência ou deixou de frequentar, o gestor da escola entra em contato com o Conselho Tutelar. Isso depois de ele ter feito todas as ações: contato por telefone; ir até a casa do estudante, procurar a família. É usando a criatividade que vamos chamando para perto nossos alunos”, pontua a superintendente.

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