Entrevista | “Não há interferência, imposição. Mas Vanderlan dá várias dicas”

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Aos 44 anos, o fisioterapeuta Fernando Pellozo administra o quinto municípios em arrecadação do estado. A inexperiência política, que ele próprio admite, explica as seis denúncias que os vereadores protocolaram contra sua gestão e a abertura de uma comissão de investigação na Câmara logo nos primeiros meses. Crise já debelada com a nomeação de dois vereadores como titulares de pastas na prefeitura. Muito próximo do senador Vanderlan Cardoso, que foi quem o convenceu a entrar na política, Pellozo nega que o senador interfira na gestão. “Ele dá várias dicas”.

Tribuna do Planalto – Senador Canedo inverteu o fluxo, deixou de ser uma cidade dormitório e está gerando empregos e atraindo novos moradores?

Fernando Pellozo – Senador Canedo, infelizmente, estagnou nesse processo de deixar de ser uma cidade dormitório e virou um exportador de mão de obra para os grandes condomínios de Goiânia, de mão de obra básica: pessoal de serviços gerais, porteiros. Faltou, durante vários anos, a qualificação desses profissionais. O fluxo de fato existe, muitos trabalhadores saem de Canedo para trabalhar em Goiânia e de Goiânia para trabalhar em Canedo. Senador Canedo tem que investir em qualificação de mão de obra para segurar essa mão de obra qualificada nas indústrias da cidade, além de voltar a investir na industrialização, nos polos de desenvolvimento para o comércio e para indústria, que há vários anos a cidade parou de investir e começou a voltar a ser uma cidade dormitório. Temos essa tarefa de reverter essa realidade e deixar Senador Canedo ser novamente o polo de desenvolvimento que já foi.

A principal atividade econômica da cidade é a distribuição de petróleo. Há outra vocação econômica que possa atrair investimentos?

O ex-prefeito e hoje senador Vanderlan Cardoso já se preocupou em não ficar dependente do petróleo e para isso abriu os polos industriais, atraindo outras empresas. De um tempo para cá, também esse investimento parou. Hoje, a cidade depende do ICMS do petróleo. Estamos fazendo uma revisão das áreas doadas para fazer doação para empresas que vão gerar emprego e renda para Senador Canedo. Estamos, junto com o Ministério Público, fazendo a revisão dessas áreas para novamente começar a oferecer áreas para grandes indústrias e ir preparando a cidade para que ela precise da arrecadação do petróleo, mas não dependa exclusivamente dela.

Senador Canedo é o quinto município em arrecadação no Estado e até hoje enfrenta problemas de estrutura básica. Qual a explicação?

É gestão. A folha de pagamento, desde 2016, cresceu 58%, enquanto a arrecadação cresceu 45%. Fez-se gestão da folha, não trouxe indústria e não fez investimentos nessas áreas.

Senador Canedo tem atraído muitos condomínios fechados e isso pode transformar a cidade na periferia de Goiânia. A prefeitura tem adotado medidas de controle em relação ao crescimento do município?

Existe um Plano Diretor, que irá passar por uma revisão, para que esse crescimento, principalmente dos condomínios, seja ordenado. Mas a gente vê com muito bons olhos os condomínios que estão sendo feitos, haja vista que eles se instalam com toda a infraestrutura. Isso valoriza a região e impõe outra responsabilidade à prefeitura, que é fornecer infraestrutura de água, esgoto, energia e de mão de obra, e, às vezes, a população de Senador Canedo não está preparada para oferecer. Vem pessoas de Goiânia para trabalhar nos condomínios, sendo que o canedense procura uma oportunidade de emprego.

Na sua opinião, a instalação de condomínios é interessante para a cidade?

Esses condomínios, quando se instalam, dão uma contrapartida porque pegam também áreas públicas para construção de escolas, postos de saúde. Estamos pegando as contrapartidas para resolver a questão da água. Fizemos o plano emergencial, o orçamento das bombas, da ampliação, das condutoras e os construtores estão pagando diretamente – via Ministério Público – mediante apresentação do projeto.  Sai mais barato, porque é à vista. Eu vejo com bons olhos se for uma relação saudável, é muito produtivo para a população e para a cidade, e torna a prefeitura mais ágil nas respostas a alguns problemas, como o da falta de água.

Não há o risco dos condomínios se transformarem em ilhas de desenvolvimento, segregando o canedense?

Esses condomínios estão se instalando em áreas totalmente desabitadas, na região do Morumbi, que é semirrural, não tem nenhuma infraestrutura. Quando o condomínio vai para lá, ele leva desenvolvimento. É como se fosse um polo de desenvolvimento.  Compete à prefeitura acompanhar com o olhar atento e agilidade para que esse crescimento ao redor não seja desordenado.

Há algum projeto para desenvolver o comércio para essa população que está se mudando para Senador Canedo?

Não acredito em uma ação direta com os comerciantes. Mas a partir do momento em que o dinheiro volta a circular na cidade, que a gente capacita a mão de obra, paga em dia fornecedores e servidores, esse dinheiro tende a ficar na cidade e atrair novos empreendedores.

O senhor reclamou de não ter participado da discussão sobre o transporte coletivo. O fim da tarifa única não beneficia Senador Canedo?

Na discussão é que teremos acesso a todos os dados, mas, aparentemente, sim. Mas é preciso ver o subsídio da tarifa. Se ficar esse valor e a prefeitura não tiver que subsidiar, eu tenho isso como uma decisão justa. Se for ficar esse preço para o usuário e a prefeitura tiver que fazer complemento, pesa para nossa cidade, principalmente se não for proporcional ao número de linhas. No subsídio que quando assumimos já estava pronto, do plano emergencial da pandemia, Senador Canedo ficou responsável pelo índice de 8.24 da indenização a ser paga às empresas.  Uma conta muito alta, dá R$ 11 milhões. Nós não temos usuário de transporte coletivo para isso tudo. Nós recorremos, mas vamos ter que pagar essa conta, com dinheiro público. Quando falamos em participação, é para fazer uma proporção justa. Mas estou achando que está sendo muito bem conduzido pelo governador e pelo prefeito de Goiânia, e estamos aguardando esse diálogo para finalizar, porque tem que ter uma saída. O que a gente não quer é que ela caia no bolso do usuário. Se precisar que o município entre com esse subsídio para o canedense não ter que tirar dinheiro do bolso, vamos ter que fazer.

O senhor está com oito meses de administração e a Câmara aceitou seis denúncias contra o senhor e abriu uma CPI. A que o senhor atribui esse movimento dos vereadores em relação à sua gestão?

Logo que entrei encontrei muitos desafios na gestão na parte administrativa. Eu enfiei a cara no trabalho e de fato não ativei uma articulação próxima com a Câmara. A reação foi natural: o prefeito não dialoga com a Câmara. Preocupado com as questões administrativas, deixei isso para segundo plano até que tomei um grande sacode da Câmara. Esse diálogo foi surgindo, convidamos alguns vereadores para algumas secretarias, porque o que os vereadores queriam era não ficar fora da gestão, que o prefeito administrasse alheio à Câmara. Eu entrei com muita boa vontade e pouca experiência política e, hoje, vejo que não há como administrar uma cidade só com o Executivo, que precisa do Legislativo. Entrei direto para a gestão sem articular, sem esse diálogo com a Câmara, que, atenta, foi ali e disse: Você precisa da Câmara para administrar, não se administra sozinho. Agora, temos caminhado juntos nesse sentido.

Duas das denúncias estão relacionadas a irregularidades: a contratação de um médico do município para ser auditor e o convênio com um hospital que estaria impedido de prestar serviço par o poder público.

Juridicamente não há problema nenhum. Na contratação do hospital, o dono do hospital tinha uma decisão judicial em que ele não podia contratar serviços públicos. Mas há três anos o hospital é gerido por uma organização particular e o convênio foi feito com essa organização, e não com o dono do hospital. Só se usou o prédio do hospital, não fizemos um contrato com dono do hospital, que estava condenado a não poder contratar. Esse é um convênio do estado e conseguimos fazer essa articulação e contratar 15 leitos. Não foi um convênio feito entre a prefeitura e o dono do hospital; foi um convênio feito via estado com uma organização que gere o hospital. E estamos em plena pandemia, foi declarado pelo governo federal situação de emergência em saúde pública, o que também dá respaldo jurídico para contratar um hospital mesmo nessas condições. A outra denúncia é sobre o médico de nosso instituto de previdência, um auditor, que foi contratado e que também seria dono de um hospital. Ele sempre foi auditor lá e o que não pode acontecer é o auditor auditar o próprio hospital. Por isso se tem dois auditores, porque, geralmente, todo médico participa de um outro empreendimento. Não há ilegalidade desde que ele nunca audite uma contra daquele hospital, coisa que ele nunca fez.

Foi pacificada a relação com o Legislativo a partir da nomeação dos vereadores Vilmar Lima e Celismar Lima para assumirem secretarias da prefeitura?

Sim, está pacificado. Tanto o Executivo quanto o Legislativo percebemos que ficar nessa queda de braço só tem um perdedor, que é o povo. E não é o meu interesse, como gestor, e não é interesse da Câmara.

Sua base já é maioria na Câmara?

Sim, alcança 12 dos 15 vereadores.

O senador Vanderlan Cardoso destinou dezenas de caminhões para Senador Canedo. Qual será a destinação desse maquinário?

Todo maquinário que o senador destinou chega a 30, não é o fim do mundo e desconheço críticas. Primeiro porque é dentro da legalidade, verba de emenda parlamentar, e Vanderlan tem uma ligação com a cidade e não é à toa que o povo de Senador Canedo ama Vandelan.

Há cidades do tamanho de Senador Canedo que não têm um único caminhão para transportar lixo.

Ele chegou a doar dois caminhões de lixo, mas quando viu que a cidade contava com uma empresa terceirizada, ele cancelou e doou para outras cidades que precisavam. Hoje, Senador Canedo acumula uma dívida de aproximadamente R$ 110 milhões. Estamos com um déficit muito grande e isso impossibilita fazer aquisição de máquinas.

É espantoso porque nunca se teve uma destinação tão volumosa via emenda parlamentar.

Eu olho com bons olhos. A emenda é para isso, existe a necessidade, existe a dificuldade e ele ainda destina para outros municípios também.  Em Senador Canedo, há muito não se investia em infraestrutura. A situação era caótica. E essas máquinas já estão produzindo, a cidade está mais limpa. De janeiro até aqui, já retiramos mais de 104 mil toneladas de entulho e 14 mil toneladas de lixo doméstico. A empresa terceirizada que fazia a coleta de lixo, a retirada de entulho, a capina e roçagem tinha um custo mensal em torno de R$ 1,5 milhão por mês. Assumimos esse serviço com essas máquinas e, hoje, se paga de R$ 900 mil a R$ 1 milhão porque assumimos a coleta de entulho, a roçagem e a capina.

Outra situação que se comenta é sobre a interferência do senador Vanderlan Cardoso na admi­nistração, inclusive participando da decisão de exonerações feitas pelo senhor.

Não há interferência. Vanderlan não entra onde ele não é chamado. Há, de minha parte, o que eu chamo de pegar experiência. Nós temos hoje na gestão três ex-prefeitos, Vandervan, que é senador, o ex-prefeito Misael Oliveira, que nos ajudou na campanha, e o ex-prefeito Tomás de Aquino. Eu não tenho problema nenhum em consultá-los, em tomar opinião. A partir do momento em que eu tomo uma decisão baseado no que eu ouvi de um ex-prefeito ou de outro, essa responsabilidade é minha, não é do Vanderlan, não é do Misael, não é do Tomás. Eu não tenho problema nenhum em pegar experiência, uma consultoria com quem tem experiência para tomar uma decisão, mas a decisão é sempre minha. Não há interferência nesse sentido de impor alguma coisa. Vanderlan dá várias dicas e nesse problema da água ele foi fantástico, porque ele conhece o município.

O município tem recebido obras do Governo do Estado?

A maior ajuda é no convênio com esse hospital, que tem um custo de R$ 1 milhão a R$ 2 milhões por mês, dependendo do número de leitos que se usa lá. Isso já é uma grande ajuda do estado, tem a duplicação da GO 010 e o projeto de duplicação da GO.

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