Entrevista | “Escola deveria ser a última a fechar e a primeira a reabrir”

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Por Fabiola Rodrigues

O secretário de Educação de Aparecida de Goiânia, Divino Gustavo, é defensor da retomada das aulas presenciais e coordenou a volta às aulas no município, primeiro do estado a tomar essa decisão. Em entrevista ao Tribuna do Planalto, o secretário contou que outras cidades estão buscando conhecer a experiência de Aparecida, que optou por retomar com 30% da capacidade das escolas e tem protocolo próprio para caso surja algum caso dentro da escola.

Aparecida de Goiânia foi a primeira cidade a retomar as aulas presenciais depois que começou a pandemia. Como se deu esse retorno?

Retomamos as aulas presenciais com 30% da capacidade. Nossa orientação inicial foi essa para que os pais, os profissionais da educação e toda a equipe escolar possam também sentir segurança com os protocolos estabelecidos.  Hoje, temos 115 escolas municipais em Aparecida de Goiânia. Os Centros Municipais de Educação Infantil (CMEIs) achamos mais prudente, neste momento, avaliando com o comitê interno e com o comitê da área da saúde, a retomada das aulas presenciais dos alunos maiores, de 4 e 5 anos. Em setembro, se os números estiverem controlados no município, ou até mesmo em decréscimo, retomaremos todos os CMEIs. Temos um protocolo que inclui o aluno levar uma máscara extra para a escola, fazer uso de álcool, de sabonete e água, lavando bem as mãos e mantendo também o distanciamento, que é o fator primordial.

Sobre a merenda escolar, está sendo servida e os alunos podem levar lanche para a escola?

O protocolo orienta a entrada da merenda escolar com higienização, com cuidados. Quando chegam os alimentos, todos eles são higienizados. O lanche na escola está sendo servido em toda a rede, inclusive, essa foi uma das coisas que mais mexeram com a gente, que foi a questão da necessidade da retomada do lanche nas unidades escolares. Muitos pais chegavam e diziam: professor, eu não estou preocupado com escola, estou preocupado porque não tem nada para meu filho comer. É uma preocupação que eu, que estou na educação há 26 anos, machuca, porque alimentação é algo básico de sobrevivência. Então, por isso que eu falei que temos que ter essa retomada até para assistir essas famílias que estão necessitadas neste momento.

Durante esse período em que as escolas não estavam recebendo os alunos, teve algum tipo de economia que poderá ser investida na própria educação?

Não tenho esses números calculados, mas tivemos sim. Se você tem, por exemplo, água, energia sem uso há redução de gasto. Internet não porque é uma questão definida. Tenho cobrado e vou cobrar da Secretaria da Fazenda para reverter o déficit de aprendizagem que tivemos nesse período. Precisamos fortalecer, capacitar cada vez mais os profissionais para que possam replicar isso aos nossos alunos. Os alunos são nativos digitais, mas as escolas são analógicas, não estão preparadas para este momento, quanto ao uso dos aparatos tecnológicos. Não estou falando de Aparecida, mas do mundo e, principalmente, do Brasil, onde já temos uma defasagem muito grande em tecnologia.

Quais foram os critérios de grupos de alunos a retornarem primeiro para a sala de aula?

No município, 16,4% dos nossos alunos não têm conexão de internet e essa foi a nossa preocupação nessa retomada, priorizar esses alunos. Nossas orientações pedagógicas nas unidades educacionais foi dar suporte aos alunos que não tiveram conexão neste período. Nós priorizamos nesta retomada os alunos com necessidades educacionais especiais, aquele estudante que tem uma dificuldade, uma deficiência de aprendizagem.

O senhor tem estimado o déficit de aprendizagem que ocorreu durante a pandemia?

Não temos ainda. Vamos ter com o início das aulas presenciais porque, como vamos fechar os ciclos de 30% em 30%, vamos perceber como está a devolutiva desses alunos e como está o processo de aprendizagem no ensino remoto. Mas em relação aos conteúdos é possível perceber que os conteúdos que não foram transmitidos são das duas áreas básicas do conhecimento: português e matemática. Matemática, principalmente. Falo até mesmo por experiência em casa, como pai. Os resultados do ensino presencial são muito maiores. A defasagem de aprendizagem só vamos saber com a avaliação diagnóstica, que vamos fazer a partir de setembro.

Como ficou o repasse de verbas vindas do governo federal para a Educação no município durante a pandemia?

Praticamente, não tivemos recurso nesse sentido para os alunos.O que  tivemos foi o projeto da Conexão na Escola, que veio para para as unidades escolares de forma tardia nesse período de aulas remotas. Acredito que teria que ser de forma mais emergencial esse atendimento aos alunos.

O ensino híbrido, de fato, está funcionando?

O modelo híbrido que as pessoas estão defendendo neste momento não é o ideal, da forma que estão colocando, porque o ensino híbrido tem que acontecer de forma remota ao vivo. E essa não é uma realidade que estamos vivendo no Brasil.

Como foi a experiência de retomada das aulas presenciais em Aparecida?

Fomos o primeiro município a retomar as aulas presenciais no estado de Goiás e foi um desafio, mas, por outro lado, um desafio que nos deu algumas diretrizes. Primeiro, tranquilizar os profissionais da Educação, o medo deles é muito grande, até de pisar no ambiente da escola.

Todos os professores já foram vacinados?

Eles já puderam ser vacinados semana passada com a segunda dose. Temos um caso ou outro de professor que não quis se vacinar, mas a grande maioria dos profissionais foi vacinada. A maior segurança, inicialmente, está na vacina. Estamos vendo os alunos muito tristinhos. A gente percebe que as crianças se sentiram felizes, mas, por outro lado, a minha preocupação é com o semblante delas, que está muito abatido. Temos que fazer um trabalho sócioemocional muito grande na nossa rede e esse é um desafio que queremos trabalhar de agora para frente.

Como os alunos estão lidando com a questão da socialização, dos protocolos e do distanciamento?

Seguindo o protocolo. Elas não estão brincando como brincavam; não estão soltas como ficavam. O ambiente de convivência é muito mais restrito do que era antes. Ela não vai para o parquinho, não vai correr, não vai jogar o seu futebol, o seu voleibol, sua atividade esportiva porque os protocolos pré-estabelecidos são muito rígidos.

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