Temperatura aumenta até 0,5ºC por ano em alguns bairros de Goiânia

Expansão urbana, acompanhada de retirada da vegetação e impermeabilização do solo são alguns dos fatores responsáveis pelo clima mais quente na capital, apontam especialistas

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Foto: Ricardo Rafael

Por Maísa Lima

Bairros como Campinas, Setor Coimbra, Setor dos Funcionários, partes do Jardim Goiás, Setor Oeste (com exceção da região do Lago das Rosas), Setor Central e praticamente toda a Região Noroeste de Goiânia têm sofrido acréscimo de até 0,5ºC por ano na temperatura. Transformaram-se no que os especialistas chamam de ilhas de calor urbano (ICU) devido ao elevado grau de urbanização.

A constatação é da geógrafa Juliana Ramalho Barros, doutora nessa área pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho e professora do Instituto de Estudos Sócio-Ambientais da Universidade Federal de Goiás (Iesa/UFG), onde fundou o Laboratório de Climatologia Geográfica.

“Temos visto que a temperatura tem oscilado nos últimos 25 anos, mas a tendência de aumento tem sido mais pronunciada nos últimos 15 anos. Isso coincide com a aceleração da expansão urbana, que vem acompanhada de retirada da vegetação, impermeabilização do solo e substituição da cobertura natural por materiais que absorvem muita energia solar e transformam isso em calor”, detalha a pesquisadora.

Juliana ressalta que o acréscimo da temperatura varia muito entre os bairros da cidade. “Em alguns lugares nem aumentou, mas em outros viu-se uma ampliação de 0,5ºC de um ano para outro e em seguida a manutenção desse valor”.

Plano Diretor

Se a expansão urbana é a vilã das altas temperaturas, as atenções voltam-se para o Plano Diretor da capital. Por lei, ele é atualizado de tempos em tempos, com a participação de vários setores, inclusive do Iesa, que faz toda a parte de diagnóstico, mapeamentos e recomendações que o sustentam. “O problema é que existe muita pressão do setor imobiliário. E a própria população também não faz sua parte e às vezes sequer cumpre o que a legislação estabelece”, critica Juliana Barros, acrescentando que o poder público não tem fôlego para fiscalizar.

“Quer exemplos? As pessoas adoram arrancar árvores. Seja em suas casas ou nas ruas. Aqui na minha rua tinha uma árvore maravilhosa, dava sombra, refrescava, não fazia a luz solar refletir tanto nas casas. E era uma árvore saudável. Mas o síndico de um condomínio na outra rua alegou que a árvore invadia o condomínio, que era pouso para moradores em situação de rua, ameaçou processar a prefeitura, e aí vieram e arrancaram a árvore. Resultado: a rua está mais quente”, comenta a pesquisadora.

A construção do corredor exclusivo de ônibus do Bus Rapid Transit (BRT), que ligará as regiões Norte e Sul de Goiânia, resultou no corte de cerca de 2 mil árvores, o que revoltou muitos moradores da cidade. Mas Juliana faz uma ressalva: “No caso do BRT, os estudos mostraram que até valia a pena tirar as árvores se isso implicasse na redução de veículos e também em um transporte menos poluente. Isso é outra coisa em que se precisa investir: transportes coletivos e alternativos. As pessoas aqui são muito ligadas em carro, mas a gente precisa mudar essa cultura”, salienta.

Juliana afirma que a área ambiental está relegada às traças no Brasil. “É preciso ter mais efetivo atuando na fiscalização, nos planos de manejo, no monitoramento. Isso é o poder público que deve fazer. Só um servidor público capacitado pode barrar um empreendimento que vai ser prejudicial”.

Aumento de lotes comerciais e derrubada de árvores

Conforme a tese de doutorado do arquiteto e professor do Instituto Federal de Goiás (IFG) Fábio de Souza, o aumento do número de lotes comerciais em Goiânia está levando à derrubada de árvores. É o que ele comprova no estudo Arborização urbana e cidades saudáveis: índice de supressão arbórea no sistema viário e sua influência na valorização comercial, defendido na Universidade Federal de Uberlândia (UFU).

No Setor Marista, por exemplo, entre 1992 e 2016 foram retiradas 697 árvores, 29 a menos por ano. Essa medida é tomada pelos proprietários dos imóveis na expectativa de valorizá-los (principalmente se forem destinados a fins comerciais), mas eles estão dando um tiro no pé.

“Em 1961, o Centro possuía 246 lotes comerciais. Há quatro anos eram 845. O que ocorreu no Centro está acontecendo agora no Marista. Antes, os imóveis do centro eram os mais valorizados da cidade e vêm perdendo competitividade desde então. Trata-se de um erro de percepção. O dono retira as árvores para dar mais visibilidade ao seu comércio, mas isso acaba afastando o consumidor”, salienta.

Um exemplo é a Avenida 24 de Outubro, em Cam­pi­nas. Quem compra no comércio dali tem de se preparar para aguentar o sol. Praticamente não há mais árvores nas calçadas e com isso a temperatura chega a aumentar até 10°C, conforme Fábio de Souza. “O mapa arbóreo de Goiânia data de 2008 e esta questão merece ser observada com mais cuidado pelas autoridades. Está caindo a qualidade de vida da cidade como um todo. É triste, considerando que a capital já figurou entre as mais verdes do País.

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