Entrevista | “Ser um dos 50 professores é representar a voz de crianças e adolescentes”

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Fabiola Rodrigues

O professor goianiense de Matemática Greiton Toledo de Azevedo, de 31 anos, é um dos 50 finalistas do Global Teacher Prize 2021, considerado o prêmio Nobel de Educação Mundial. Ele é o único brasileiro na final.  Os projetos escolares de Matemática, envolvendo tecnologia e robótica com os alunos ganharam o planeta. As pesquisas realizadas juntamente com os alunos resultaram em ajuda no tratamento de Parkinson, em Goiás, e se estende agora pelo mundo. Greiton foi selecionado entre mais de 8 mil nomeações e candidaturas de 121 países. Atualmente, ele é professor no Instituto Federal Goiano (IFG), do campus Ipameri.

Qual o diferencial dos seus projetos escolares que te fez ser destaque no mundo?

São projetos de ideia simples, que utilizam material de baixo custo, mas que têm uma importância gigante e uma causa nobre, que é o tratamento da doença de Parkinson em hospitais públicos, como por exemplo, em um hospital de idosos de Anápolis. Um dos projetos é o Mattics, que surgiu em 2014 para atender a uma necessidade dos alunos que tinham dificuldade nas aulas de Matemática e incentivar mais ainda o aprendizado. Ele começou a acontecer no contraturno, por uma contradição do sistema escolar, uma vez que ele não foi aceito em sala de aula porque não atenderia aos moldes dos testes padronizados. Nesses testes são cobrados a linguagem de programação, não a criatividade, até porque não dá para colocar esses fatores dentro de uma prova. É justamente essa a questão. Primeiro, temos que entender o que é uma boa educação para, depois, ver se é possível colocá-la dentro de um teste classificatório. O projeto, iniciado em 2014, ganhou força nas demais localidades do estado de Goiás, como por exemplo Ipameri, onde trabalho atualmente. Inicialmente, apenas no Ensino Fundamental, depois, passou também no Ensino Médio. Posteriormente, intensificamos mais ainda os trabalhos voltados para os impactos sociais, porque a escola vai muito além de treinar pessoas; é também lugar de convivência, interação para impactar vidas através dos conhecimentos científicos que ali são produzidos. Muito mais que aprender uma fórmula de Bhaskara, é mais importante estabelecer habilidades para que o aluno possa analisar e aprender Mate­mática para que ela faça sentido para a vida. Sentido para o que ele está vendo e aplicando.

Quais as motivações para querer inovar o ensino em Matemática?

Assim que eu me formei em Matemática, quis não só mudar essa realidade, mas também mudar salas sombrias, escuras de Matemática em lugares de sonho para que os alunos, mais do que aprendessem, pudessem compreender a Matemática. Sempre busquei eliminar a repulsa, a sensação de incapacidade, o bloqueio pela Matemática em sala de aula. Meu desejo é que os alunos assumam posições de cientistas durante a aula, porque não se pode colocar criatividade dentro de uma prova, não conseguimos colocar autonomia dentro de uma avaliação escrita, coisas importantes para o processo formativo e que não podemos deixar fora da sala de aula. Ao longo da minha vida, sempre fui constante, dedicado e apaixonado pelo que fiz e faço. Sempre pensei: por que não encorajar uma geração de jovens com a ciência do nosso país? Mas uma ciência que não morra nas prateleiras, uma ciência que vai além, que impacta a realidade, que usa materiais de baixo custo. Até porque meu projeto Mattics é para que os alunos sejam sujeitos capazes, sobretudo, de interpretar situações reais da sociedade, intervir criticamente e estabelecer pontes e conhecimentos científicos que ali são mobilizados.

Sua formação foi toda em escola pública. Como analisa as possibilidades do aluno de escola pública?

A escola e a universidade pública me formaram. Sou o resultado daquilo que uma escola pública pode fazer, reflexo direto do resultado de professores que vestem a camisa da escola pública, de professores que um dia acreditaram no Greiton criança, adolescente e jovem. O Greiton adulto é consequência dessa soma. Sou muito grato ao que sou, pelo que a escola me fez e pelo que quero fazer pela escola. Sempre estudei em escola pública. Fiz a minha graduação na Universidade Federal de Goiás (UFG), me especializei em Matemática Computacional pela UFG, fiz mestrado na UFG doutorado nos Estados Unidos, em uma instituição pública. Não só acredito na escola pública, mas também venho mobilizando sonhos e concretizando muitos deles através do chão de fábrica, que é a escola pública. A escola que sempre foi rejeitada, usurpada, muitas vezes utilizada como palanque para políticas de autopromoção.  Temos que usar a escola como lugar de estado, para que ela não fique à mercê das políticas de rompimento. Que a minha voz possa se juntar a muitas outras vozes para que, de fato, possamos colocar a Educação e o ensino da Matemática como ponto de pautas mundiais, que são duas feridas que nós temos: educação pública e, por consequência, o ensino da matemática. Para que possamos formar sujeitos globais que, de fato, possam formar profissionais capazes de intervir na sua realidade e transformá-la para o bem.

Quando começou sua paixão pelos números?

Aos 13 anos a Matemática entrou de forma incisiva na minha vida. Sempre tive facilidade de aprender Matemática, porque era minha matéria favorita desde pequeno, mas quando a álgebra entrou na conversa eu acho que me fisgou de vez. Quando as letras se transformavam em números, era surreal. Com 13 anos eu falava para minha família que eu seria professor de Matemática. O tempo passou e não apagou essa minha paixão pelo ensino da Matemática.

Matemática é a matéria que mais apresenta dificuldade de aprendizado. O que justifica essa dificuldade?

Amargamos drasticamente os piores resultados no teste de habilidades, que é o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa). Perdemos para países africanos, como o Quênia e Egito. Temos que investir na formação continuada do professor, porque isso impacta na formação dos estudantes e na forma como os alunos são ensinados dentro da sala de aula. Muitos deles, por exemplo, não são incentivados a pensar matematicamente, a criar ideias; são ensinados a repetir, e isso não é ensino, decorar fórmula que pouco se justifica no século XXI. Ao invés de ficar treinando aula, por que não problematizar, experimentar, trazer o erro para sala de aula, trabalhar em cima deste erro, entender por que o aluno errou? Trabalhar com experimentação ao invés de trabalhar com definição, por que não inverter a lógica, compreender, dialogar? Não entregar as respostas prontas. Temos que investir pesado na nossa Educação, sobretudo nos cursos de formação e também na Educação Básica, porque temos que entender que Educação não é empresa e os nossos alunos não são produtos. O problema é sistêmico. Falta de recursos didáticos em sala de aula, a pobreza, os problemas do aprendizado são profundos. Se não se aprende matemática em razão de fatores emergenciais como a fome, não podemos fechar os olhos para essas questões.

O que representa para você a disputa?

A premiação é muito bonita, importante, mas não é a essência. Ela só aponta que o caminho que estou seguindo está legal, mas se isso não convergir para um propósito de impactar vidas, nada disso vai valer a pena. Ser um dos 50 professores já é uma grande conquista para o Brasil, representando a voz de mais de 80% das crianças e adolescentes. Um prêmio traz vida e esperança para nosso processo educacional. Se não agora, quando? Se não professor, quem?

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