Contaminação pós-vacina não atesta que a imunização falhou

Eficácia está relacionada ao tipo de imunizante, tempo desde a vacinação, variantes e ao sistema imunológico

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Mirella Abreu

Durante a semana passada, os noticiários do Brasil e do mundo divulgaram a informação da contaminação do ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, por Covid-19. Ele agora faz quarentena em Nova York, nos Estados Unidos. Queiroga estava na comitiva que acompanhava o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU).

A contaminação do ministro trouxe novamente à tona a discussão sobre a eficácia das vacinas, haja vista que Queiroga testou positivo para a doença mesmo vacinado.

Diante do fato, muitos especialistas têm afirmado que o ministro ter se contaminado por Covid-19 não significa que a vacina não funciona; e o fato de ele apresentar sintomas leves mostra que a vacinação está cumprindo seu papel.

Por causa da repercussão e informações falsas em torno da eficácia das vacinas, infectologistas e especialistas vieram a público defender que o imunizante contra o coronavírus é eficaz. “As imunizações contra a Covid-19 não evitam que a pessoa contraia o coronavírus, mas, sim, reduzem o risco de o indivíduo desenvolver casos graves da doença, que exigem hospitalização e causam mortes”, explica Gustavo Cabral, imunologista PhD pela Universidade de São Paulo (USP), em sua coluna no VivaBem.

Já Ricardo Palacios, ex-diretor de pesquisas clínicas do Instituto Butantan, diz que houve falha na comunicação. “Houve uma falha de comunicação, que ainda não conseguiu ser superada. Precisamos ajustar a expectativa do público sobre o que esperar das vacinas contra a Covid-19”, diz.

O que a maioria dos especialistas concordam é que não existe vacina nenhuma no mundo capaz de inibir de forma integral o contágio. A vacina prepara o sistema imunológico para, tendo contato com o vírus, o sistema imunológico seja capaz de combater com força muito maior do que uma pessoa que nunca teve contato com a doença.

Vale destacar, ainda, que a prova da eficácia dos imunizantes contra a Covid-19 acontece justamente na contaminação pelo coronavírus, já que a porcentagem da doença que evolui para casos graves ou óbitos é mínima.

Protocolo de segurança

Além da proteção das vacinas, os especialistas pedem para a sociedade continuar mantendo o protocolo de segurança, enquanto a transmissão estiver alta. O médico infectologista Marcelo Daher relata que seguir os protocolos é essencial, pois ainda estamos na fase de pandemia. Segundo ele, é preciso entrar numa fase de endemia, ou seja, quando a transmissão do vírus estiver baixa, para que seja possível, aos poucos, flexibilizar o protocolo de segurança.

“O protocolo de segurança deve ser mantido se eu entrar numa unidade hospitalar, onde existe a possibilidade de pacientes, e se torna prudente que eu use máscara. Agora se eu vou para um parque ao ar livre, fazer uma atividade física, talvez nesse lugar já possa ser dispensada”, exemplifica o médico ao falar da flexibilização do protocolo.

“Vacina é a melhor maneira da gente se livrar de uma doença”

O médico infectologista Marcelo Daher explica que a vacinação serve para que o nosso organismo produza anticorpos sem que a pessoa imunizada adoeça. Sendo assim, podemos definir as vacinas como agentes imunizadores usados na prevenção de diversas doenças. São produzidas a partir do próprio organismo causador da doença ou seus derivados, que serão responsáveis por desencadear em nosso corpo uma resposta imunológica. Ao receber a vacina, nosso corpo inicia a produção de anticorpos, e, graças à nossa memória imunológica, quando tivermos contato novamente com o agente causador da doença, nossos anticorpos serão produzidos rapidamente, evitando, desse modo, que fiquemos doentes.

Marcelo Daher: “Se ele escapa dessa produção de anticorpos anterior a eficácia cai”

Daher reitera que a eficácia das vacinas depende da resposta do antígeno. “Existem fatores que vão variar. Nós temos vacinas que funcionam com uma eficácia muito alta e temos vacinas que funcionam como eficácia menor. Precisamos avaliar também o tipo de contato que se tem com o vírus; o tipo de replicação do vírus; onde ele replica; se é preciso de anticorpos maiores em determinado local e menores em outros locais. Isso varia e muda o sentido da resposta”.

A produção de anticorpos depende dessas respostas na hora de estudar, produzir e fazer uma vacina. Às vezes, o imunizante protege parcialmente ou a eficácia cai quando o vírus consegue fazer uma mutação. “Se ele escapa dessa produção de anticorpos anterior ou então quando acontece as mudanças virais, como no caso do vírus influenza, a eficácia cai. E isso está acontecendo com a Covid-19, que no momento estamos vendo”, diz o médico.

Mutação e tempo dos anticorpos

A eficácia das vacinas depende dos vírus ou do tempo que os anticorpos duram. Segundo Marcelo Daher, se esses anticorpos não duram muito tempo, se eles desaparecem ao longo do tempo e quanto mais rápido desaparecer, menor será a eficácia da vacina. Nesse caso, será preciso fazer reforço da vacina.

Mesmo com essa diferença nas porcentagens das eficácias das vacinas, a aplicação da vacinação – seja contra Covid-19 ou para qualquer doença que já pode ser controlada através dela – é importante para quando a pessoa entrar em contato com o vírus. “É um mecanismo de apresentação para que o organismo produza anticorpos contra o agente agressor, e como consequência a pessoa não ficar doente. A vacina é a melhor maneira da gente se livrar de uma doença”, conclui.

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