Erradicar o analfabetismo ainda é um desafio, dizem especialistas

Além do Brasil ter mais de 11 milhões de analfabetos, faltam professores capacitados para o processo de alfabetização

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Levantamento do IBGE mostra que existem desigualdades também raciais quanto ao analfabetismo; entre negros ele é maior

Fabiola Rodrigues

A taxa de analfabetismo no Brasil caiu de 6,8%, em 2018, para 6,6%, em 2019, queda que representa cerca de 200 mil pessoas. O Brasil tem ainda 11 milhões de analfabetos de 15 anos ou mais que, pelos critérios do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), não são capazes de ler e escrever nem ao menos um bilhete simples. O Plano Nacional de Educação (PNE) estabelece que a essa taxa chegará a zero em 2024, mas segundo a professora de Português Rosângela Ferreira, que é especialista em alfabetização de alunos, essa meta não deve ser alcançada.

Na opinião da professora, esse número reflete uma falha do próprio Ministério da Educação (MEC), que pensa a escola de cima para baixo.  Para ela, a análise deveria ser feita ao contrário, da escola para o para o MEC. “É necessário que cada projeto seja pensado de forma individualizada. A escola é que conhece o aluno, sabe do que ele precisa e qual metodologia deve ser aplicada”, afirma.

Rosângela Ferreira enfatiza que o analfabetismo não será erradicado com projetos isolados e que se fazem necessárias políticas públicas mais eficientes. Com mais de 20 anos trabalhando com alfabetização de jovens e adultos, ela analisa que um dos maiores gargalos no processo de alfabetização dos alunos é a falta de professores capacitados para compor tal função em sala de aula. “Um erro que é cometido nas unidades de ensino é quando um professor recém-formado chega sem experiência e a primeira turma que é dada para ele é a turma de alfabetização”, conta.

A professora observa que alfabetizar significa mais do que decodificar uma letra e que existem muitos métodos que auxiliam neste processo. Cada pessoa tem sua maneira de aprender. “É importante o professor ser especialista em alfabetização”, enfatiza.

O índice de pessoas analfabetas se concentra mais entre os adultos com mais de 40 anos, segundo a percepção da professora. Isso se justifica, segundo ela, pelo fato de que, há 50 anos, o acesso à educação era mais difícil. Rosângela Ferreira conta que ouviu muito ao longo destes anos que, quando uma pessoa tinha acesso à educação, havia familiares que não permitiam que os filhos frequentassem a escola porque se retirava da família um braço útil no trabalho.

Números

A necessidade de trabalhar e não ter acesso aos estudos foi uma realidade vivida pela dona de casa Lurdes Amâncio, de 60 anos. Nascida em Anápolis e criada na cidade de Inhumas, ela não tinha a documentação necessária para ser inserida na escola, e os pais também não fizeram questão de matriculá-la. Na adolescência, o pai perdeu as pernas em um acidente e ela e os irmãos tiveram de trabalhar na casa das pessoas em troca de comida e roupa, ela relata.

“Morava na cidade, mas a situação da minha família era muito precária, meu pai não tinha condição de oferecer quase nada para nós. Tinha de trabalhar para ganhar itens básicos, porque a situação do meu pai era muito fraquinha, ainda mais que ele ficou deficiente. Eu tinha 14 anos”, diz.

Hoje, com 60 anos, mesmo sem saber ler e escrever, Lurdes não pretende frequentar uma sala de aula. Lurdes Amâncio relata que já foi humilhada por várias pessoas, foi chamada de burra por diversas vezes por não saber ler e escrever, e para conviver socialmente conta com a ajuda dos filhos.

Lurdes Amâncio faz parte da estatística dos mais de 11 milhões de analfabetos do país. Além de analfabeta ela é negra. O levantamento do IBGE mostra que existem desigualdades também raciais e regionais na alfabetização no Brasil. Em relação aos brancos, a taxa de analfabetismo é 3,6% entre aqueles com 15 anos ou mais. No que se refere à população preta e parda, essa taxa é 8,9%. A diferença aumenta entre aqueles com 60 anos ou mais. Enquanto 9,5% dos brancos não sabem ler ou escrever, entre os pretos e pardos, esse percentual é cerca de três vezes maior: 27,1%.

Especialista em Planeja­mento Educacional Maria Lúcia Pacheco explica que o problema do analfabetismo é histórico, já que a escolarização não era acessível a todos, embora a educação fosse um direito constitucional.

A especialista apela para que haja maior capacitação de educadores. “Para chegar a sanar esse índice de analfabetismo em nosso país precisamos de professores que tenham formação na área, que invistam na criança para que ela não venha a evadir da escola. Parte dos alunos deixam o ambiente escolar ou nem vão para a escola por ter que trabalhar. Eles voltam pela necessidade. É um público com pouca autoestima”, esclarece.

“Ouvi muito não, que eu não iria conseguir; mas insisti”

Maria Divina Cardozo, hoje com 43 anos, trabalha para uma família e é cuidadora de idosos. Seu processo de alfabetização teve início quando ela tinha 26 anos e, até então, ela não havia tido contato com a escola. Na época certa não teve acesso aos estudos; uma  infância cheia de conflitos, e, logo na adolescência, aos 13 anos, casou-se, indo morar na roça, longe da cidade. Tentou estudar, mas não deu certo. Logo vieram os filhos, teve três, e tudo ficou mais difícil.  Mas o sonho de estudar ardia no coração e ela sabia que, na primeira oportunidade, o realizaria.

Maria Divina Cardozo:
“O sonho de estudar ardia no coração”

“Mais tarde tive oportunidade de ir para cidade, em Aparecida de Goiânia, já que eu morava no interior do Pará até então. Sempre falava para meu esposo que eu queria estudar e, no início, recebi todo apoio dele. Meus filhos estavam maiores. Aí procurei escola e vi que era a hora de começar, mesmo casada, com os filhos, sentia que faltava algo em minha vida. Eram os estudos”, lembra.

Ela começou pela Edu­cação de Jovens e Adultos (EJA) do zero, sem saber nada. Concluiu do primeiro ao nono ano nessa modalidade e fez o Ensino Médio ano a ano até terminar. Ela conta que sofreu muitas críticas do marido, que, a princípio, dava apoio e, depois, passou a ficar com ciúmes dela estar estudando. Ela terminou a relação, mas não abriu mão dos estudos e concluiu até a formação completa do Ensino Médio.

“Ouvi muito não, que eu não iria conseguir, mas insisti. E enquanto eu via uma porta aberta, eu continuava. Depois que terminei os estudos as pessoas passaram a me olhar diferente”, relata.

Maria Divina é muito grata pelo apoio que teve dos filhos e dos professores. Com o trabalho, ela sustentou os filhos e ainda sustenta com o emprego que conseguiu devido aos estudos que concluiu. E ela diz que ainda não parou.  Pretende sentar novamente em um banco de escola para estudar, mas agora é o da universidade, pois pretende cursar Direito e ser advogada.

 

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