Escola e família não estão preparadas para lidar com superdotados

Especialistas afirmam que pais e professores precisam se capacitar para entender as crianças portadoras de altas habilidades

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Fabiola Rodrigues

Crianças e adolescentes superdotados são chamados assim por terem um ritmo de raciocínio acima da média e, geralmente, essas altas habilidades são diagnosticadas na escola devido ao comportamento do aluno ser diferente do dos colegas. Porém, ainda falta preparo por parte das unidades de ensino e também da família para compreender e saber lidar com os portadores de altas habilidades.

Núbia Oliveira, diretora do Naahs: “Muitas pessoas pensam que alunos superdotados são gênios autossuficientes”

A diretora do Núcleo de Atividades de Altas Habili­dades/Superdotação (Naahs), Núbia Oliveira, diz que vem tentando quebrar a barreira do pensamento de professores, pais e sociedade de que os superdotados são autossuficientes. “Muitas pessoas pensam que alunos superdotados são gênios, que não precisam de ninguém devido à alta capacidade intelectual, que inclusive caminha mais rapidamente do que o desenvolvimento emocional”, conta.

Núbia explica que é comum que esse adolescente entre em conflito porque tem um nível de habilidade tão grande em determinada área, que não sabe o que fazer. Nesses casos, a família e a escola podem não dar o suporte que a situação exige e, sem o acompanhamento adequado, ele pode se tornar uma pessoa desmotivada.

A diretora conta que vem mostrando para a escola e para a família que esse estudante precisa de suporte tanto quanto o aluno que tem deficiência, porque está além dos outros e, por isso, pode vir a sofrer bullyng no colégio. “Os colegas acham que ele quer ser nerd, os professores acham que ele é chato porque especula tudo. Estamos revendo conceitos e chamando a escola e a família para analisar tal realidade sob uma nova ótica”, frisa.

O Naahs faz parte da Secretaria de Estado de Educação (Seduc) e também presta assessoria para escolas municipais e particulares no processo de identificar e trabalhar com as crianças que têm altas habilidades. A avaliação para descobrir se o estudante é superdotado é feita pelos professores na própria escola em que ele está matriculado. A análise aborda vários aspectos, como o raciocínio lógico, a maturidade emocional e o conhecimento dos conteúdos pelo aluno. Daí em diante, se diagnosticado como portador de altas habilidades ele passa a receber atenção diferenciada para não desperdiçar tais capacidades.

“O professor precisa entender e acelerar a forma de ensinar esse estudante, dar trabalho extra e não deixá-lo com tempo ocioso. E ao mesmo tempo não dar castigo ou punição”, diz a diretora.

A criança superdotada pode ser extremamente bem sucedida se tiver o devido acompanhamento, mas há também chances de o resultado ser negativo, porque a maturidade emocional não caminha junto com essa habilidade que ela tem. “Pode se tornar uma pessoa frustrada e com baixa autoestima porque o mundo não o entende, já que pensa diferente das outras pessoas. Pode inclusive atentar contra a própria vida, porque para ela tudo é chato”, alerta Núbia.

Se você é professor ou pai de crianças e adolescentes que apresentam características de superdotação, a diretora orienta para que entre em contato com o Naahs para as devidas orientações. (Número de contato (62) 3201-9557)

Convivência com superdotados

Cynara de Melo, de 43 anos, é mãe de três filhos, Marcos Vinicius, 24 anos, Geovana, 17, e Lucas, de 9.  Ela acredita que os três portam altas habilidades, porém apenas o mais novo foi de fato diagnosticado. Com 7 anos já era bem hiperativo em sala de aula e isso chamava a atenção dos professores.

Cynara de Melo: “Temos que ficar reinventando em todos os sentidos
para acompanhar o ritmo”

“Fui chamada pelo diretor da escola e ele disse para levar meu filho para fazer testes e descobrir se ele era superdotado devido ao seu comportamento. Ele foi diagnosticado com altas habilidades e, a partir de então, os professores tiveram de tratá-lo de forma diferente por ele estar além do tempo dos coleguinhas”, relata. Lucas já pulou uma série e está fazendo o quarto ano. Cynara diz que, mesmo estando uma série à frente, ele é uma referência na sala de aula. “Ele é uma espécie de líder”, conta.

A mãe relata que é uma aventura diária lidar com essa situação, já que ele e os outros filhos não gostam de rotina e buscam incessantemente por algo novo. A palavra negociação, se­gun­do ela, é a mais praticada dentro de casa porque não adianta impor, falar não, mandar. Tudo é à base de concordância.

“A gente acaba tendo orgulho porque são crianças e jovens muito inteligentes, que estão além do tempo, mas tem que ter muito diálogo e sabedoria para lidar com essa situação porque não é fácil. Eles são muito autônomos e querem sempre novidades. Temos que ficar reinventando em todos os sentidos para acompanhar o ritmo”, diz.

Lucas está estudando em formato híbrido e Cynara diz que ele tem muita dificuldade de prestar atenção na aula, principalmente as que são on-line. Porém, que as notas dele estão sempre entre 9 e 10, já que sem muito esforço ele consegue ter um alto nível de compreensão.

“Os próprios pais, em muitos casos, não conhecem o filho”

A psicopedagoga Carla Eugênia Lela observa que as crianças superdotadas são inquietas, aprendem com facilidade e pensam o mundo de forma diferente. Muitas delas já falam outros idiomas com 3 anos de idade. Segundo ela, em vários casos as origens destas habilidades chegam a ser inexplicáveis, de tão extraordinárias.

A busca pelo novo é incessante e é neste momento que Carla esclarece que o alicerce familiar deve ser bem explorado para que quando a criança se tornar adulta ela possa saber lidar com as adversidades. Se a família não tiver esse olhar diferenciado, essas habilidades podem gerar situações adversas.

“Os próprios pais, em muitos casos, não conhecem o filho. Existem muitas crianças que estão nas escolas e que portam altas habilidades e os professores não perceberam. E existem pais que não aceitam e pensam que a criança tem problemas mentais, levam-na ao psiquiatra e ela passa a usar medicamentos. É onde começa toda confusão”, pontua.

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