Implantação da reforma exigirá esforço, mas especialistas defendem mudanças

Se mal implementada, alteração poderá aumentar a desigualdade de aprendizagem entre as escolas brasileiras

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Com a reforma, os conteúdos serão divididos em áreas do conhecimento de maneira similar ao que é feito no Enem. Foto: Divulgação

Fabiola Rodrigues 

Com a entrada em vigor do novo Ensino Médio, escolas públicas e privadas deverão, obrigatoriamente, implementar as mudanças no 1º ano já em 2022, a começar pela carga horária aumentada, divisão das áreas do conhecimento, itinerários formativos e protagonismo juvenil. Mas a reforma será sentida de maneira desigual, a depender de onde o estudante vive.

Ivan Gontijo, diretor de Políticas Públicas da ONG Todos Pela Educação: “A implementação tem que ser muito bem feita para dar certo”. Foto: Divulgação

Segundo o diretor de Políticas Públicas da Organização Não Governamental (ONG) Todos Pela Educação, Ivan Gontijo, a parte mais desafiadora agora é a quantidade de mudanças que serão implantadas. “Tem uma questão que nos inquieta muito que é a desigualdade financeira, porque alguns estados têm mais capacidade técnica e vão conseguir implementar de forma mais rápida e efetiva e outros já estão ficando para trás”, afirma.

Nesse processo, Ivan deixa claro que o Ministério da Educação (MEC) precisa estar lado a lado com as escolas de todos os estados para que o projeto dê certo. Para ele, a implementação desse novo modelo é importante, mas se faz necessário o apoio do governo federal para evitar o aumento das desigualdades educacionais.

O diretor cita como exemplo Goiás, um estado que está bem avançado na implementação. “Lugares como Goiás vão conseguir introduzir as mudanças de uma forma melhor, mas outros estados, menos preparados, terão mais dificuldades. Com isso, as diferenças aumentarão e teremos mais problemas. A implementação tem que ser muito bem feita para dar certo”, esclarece.

Ivan analisa que o desenho da reforma é muito bom, só que implantar essa arquitetura no Brasil é difícil e vai exigir um esforço coordenado. Porém, ele ressalta que os obstáculos não devem impedir a introdução do novo modelo. “Essa é uma implementação longa e que será gradativa, porque tem que se tomar cuidado com municípios pequenos que podem, por exemplo, não contemplar os cinco itinerários formativos”, diz.

O novo Ensino Médio é um modelo de aprendizagem por áreas de conhecimento que permitirá ao jovem optar por uma formação continuada ou técnica e profissionalizante. Ivan deixa bem claro que não tem como deixar o Ensino Médio da forma como ele é desenhado hoje. “Ele não entrega resultado de aprendizagem, ele não prepara os estudantes para o mercado, várias pesquisas mostram que a escola não é atrativa para o jovem e, por isso, o novo modelo foi pensado”, avalia. 

Para o especialista, o Ensino Médio precisa ser mais atrativo e o jovem necessita fazer mais parte do processo. Ele acredita que essa reforma vai dar essa direção, já que ela parte de um diagnóstico e tem um bom desenho, além de que o protagonismo juvenil traz a participação do estudante. “Quando olhamos os resultados do Ensino Médio, que é a etapa mais desafiadora no Brasil, vemos que os indicadores mostram que é a fase que menos avançou, principalmente quando se refere ao 3º ano. Quando vemos os indicadores de Matemática, por exemplo, no Ensino Médio basicamente só um a cada dez alunos sai com aprendizagem adequada”, conta.

Além disso, é a etapa que tem maior evasão e o número de alunos que repetem ou concluem o ciclo fora da idade é grande. “Portanto é uma fase desafiadora que necessita ter essas mudanças drásticas”, pontua.

MUDANÇAS NOTÓRIAS 

Marcelo Costa, vice-presidente da Undime: “O ensino médio precisa se articular com o mundo do trabalho”. Foto: Divulgação

O vice-presidente da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), Marcelo Costa, conta que já há algum tempo que estavam buscando uma reforma para o Ensino Médio devido ao alto índice de abandono nessa etapa. A lei que aprovou a reforma é de 2017 e, desde então, as instituições educacionais discutiram sobre o novo formato de ensino que deveria entrar em vigor no país. “Hoje, o Ensino Médio precisa de mais significado, que seja de tempo integral, que possa se articular com o mundo do trabalho, que as escolas consigam trabalhar projetos de vida para que os jovens possam decidir melhor o seu futuro”, diz.

Para Marcelo, a reforma não é a que esperava, e talvez não seja a melhor que poderia ser, todavia ele admite que, de um modo geral, os avanços são notórios pelo país e devem ser reconhecidos. Um dos pontos que ele destaca entre as mudanças introduzidas são os caminhos da escola de tempo integral, que, segundo ele, não ficaram expressos no currículo e será necessária uma revisão. “Para funcionar, todas as redes de ensino do país devem estar bem alinhadas e fazer acontecer com êxito”, declara.

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