Opinião | A intolerância (política, religiosa e social) nos tempos de Agonia do Eros

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Herbert Lopes é advogado e professor universitário

O filósofo sul-coreano, Byung-Chul Ha, tem se dedicado a apresentar conceitos de que certas matérias precisam ser buscadas tanto na literatura, quanto na psicologia; tanto na história, quanto no modo como se relacionam em sociedade. O autor ganhou repercussão ao lançar a obra Sociedade do Cansaço, sob a perspectiva de que vivemos uma época de velocidade e esgotamento em uma forma precisa de transmitir para o leitor o aspecto de indivíduos hiperativos que se arrastam no cotidiano produtivo, realizando múltiplas tarefas, onde o bem-estar e o lazer não seriam pré-condições para viver mais e melhor, mas recompensas pela maior eficácia e eficiência como prestadores de serviços. Ou seja, o excesso de liberdade trouxe, de modo diverso, uma escravidão do próprio ser – sociedade do desempenho. Ao nos tornarmos nossos próprios coaches, a disciplina não precisa mais ser imposta, ela se torna uma meta tatuada em nosso mindset e, de alguma maneira, se naturaliza. Se tudo apenas depende de nós, querer é poder. Inclusive a melhor “mercadoria” do Tinder. Por isso, agora a relação não é entre ter e ser, mas entre produzir e existir.

Após esse primeiro choque de realidade, lançou outra obra, batizada com o nome Agonia do Eros(o deus do amor), que retrata a falta de empatia da sociedade pós-moderna. Engana-se quem pretende separar o individual do coletivo, como se fossem botões on/off. O livro começa com a afirmação de que providos da infinita liberdade de escolha, da multiplicidade de opções e da coerção de otimização, nos debruçamos pela busca de um ideal de amor. Ao compararmos tudo com tudo, nivelamos tudo ao igual e desgastamos a ideia do outro. No Eros, não é possível nos centrar em nós mesmos, mas sim no outro, na diferença da negatividade. Porém, na sociedade do desempenho não há espaço para a negatividade, vivemos o excesso da positividade. As crises de relacionamento pessoal ligam-se à atuação coletiva: o narcisismo consumista evoluiu para a forma dos mega indivíduos, a disputar centímetros, holofotes, likes e hits numa sociedade de sujeitos, cheios de si, mas vazios em relação aos demais. Quanto mais negamos o senso de coletividade e mais introjetamos a falsa crença de que o sucesso pessoal depende da pretensa exclusividade de seres unos, mais condenamos o emprego de certas palavras como união ou empatia, pois elas sinalizaram indesejável grau de compaixão. Assim, constantes ataques de alguns setores da sociedade aos tipos sensíveis, também aos intelectuais (por extensão, à coisa pública), envolvem um modo estreito e pobre de conceber um país exclusivista, como o nosso, em que uns e outros se relacionam segundo pseudo religiosos e o descaso de certos políticos, armados de pistola, bíblia e má-intenção. O terreno é o lugar da civilização e da democracia numa sociedade que cultiva a violência e positiva o ódio como se se tratasse de sentimento legítimo e legitimado? Qual a engrenagem do discurso de ódio? Vivemos numa sociedade que se torna cada dia mais narcisista, e explico que isso não significa amor próprio, mas uma delimitação frente ao outro em benefício a si mesmo. Ou seja, o sujeito narcisista não consegue perceber no outro a sua diferença, lembro Caetano na música Sampa: É que Narciso acha feio o que não é espelho. Assim, só encontra significação ali onde consegue reconhecer de algum modo a si, por isso, vagueia nas sombras de si mesmo até que se afoga em si mesmo. Assim, o sujeito, voltado ao desempenho está à busca do sucesso, o que traz a confirmação pelo bom resultado, e, quando não se alcança, vai mais férteis para que se introjete a ideologia do êxito pessoal e profissional, simulacros da suposta liberdade se criando a depressão do sucesso, em que o sujeito afunda e se esconde em si. O pensamento sem Eros é meramente repetitivo e aditivo. E o que fazemos não é exatamente pensar. Nós calculamos. E números não geram transformação e, sim, conservação. O amor torna-se empecilho para o cálculo, a projeção de metas, a produtividade. A narradora de Água Viva alertava: “Amor demais prejudica o trabalho”. Eros, a exemplo dos efeitos despertados pela arte, é improdutivo. Paradoxalmente, é justamente dessa falta de produtividade que mais carecemos.

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