Estudantes enfrentam dificuldade no retorno

Parte dos alunos preferiu manter as aulas remotas e alguns apresentaram problemas emocionais decorrentes do isolamento

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Foto: SEDUC / Divulgação

Fabiola Rodrigues

No retorno gradativo das aulas presenciais nas escolas públicas, que ocorreu no segundo semestre, professores têm relatado dificuldade na retomada por parte dos alunos, que demonstra falta de vontade de voltar para a sala de aula e alguns apresentam sentimentos de medo, ansiedade e angústia causados pelo isolamento. A psicopedagoga Sara Bernardes explica que a pandemia afetou profundamente os alunos, tanto no aspecto cognitivo como no emocional. Eles estão abalados, afirma Sara.

Sara Bernardes, psicopedagoga: “A limitação no convívio continua porque o contato direto e o abraço não foram retomados”

De acordo com a psicopedagoga, crianças e adolescentes sofrem mais do que os adultos os efeitos da pandemia de Covid-19 porque ainda não conseguem administrar seus conflitos emocionais. Alunos com depressão e as crianças que não sabem falar sobre seus sentimentos foram os mais afetados pelo isolamento social e a falta de convivência com os colegas. “Esses grupos estão passando por debilidades emocionais”, afirma a psicopedagoga, que trabalha na rede estadual de Educação em Goiás. Ela conta que é grande a procura de alunos por assistência psicopedagógica.

A retomada das aulas presenciais nas escolas foi feita de forma cautelosa. Segundo Sara, a escola se adaptou à situação, começando pela maneira de receber e tratar o estudante. “Falamos de aulas presenciais, mas o contato direto não foi retomado, o abraço não foi retomado e o toque também não”, diz Sara. Ou seja, as restrições permanecem mesmo com as pessoas mais próximas. “A limitação continua no aspecto emocional”, pontua.

Esse convívio na escola que foi suspenso é, segundo a educadora, uma mola propulsora para o aprendizado, além de favorecer o bem-estar. A criança ou o adolescente que não se encontram bem emocionalmente têm o processo de aprendizagem dificultado, explica. Esse isolamento não é compensado nem mesmo pela presença da família, afirma Sara. “Portanto, há uma emergência em se olhar para essas crianças, tanto na escola quanto na família, já que esses sentimentos negativos, em muitos casos, são silenciosos e estão recorrentes”, alerta.

Kaique Silva, estudante: Terapia para superar a falta da interação que tinha no ambiente escolar

De acordo com a psicopedagoga, na rede estadual, boa parte dos alunos está preferindo estudar de forma online por razões diversas. Ela tem incentivado os pais a motivarem os filhos a voltarem de forma presencial para a escola, que está tomando os cuidados quanto aos protocolos de combate ao coronavírus. “Estamos buscando trazer os alunos para que eles voltem a conviver no ambiente escolar, pois trocar experiências é fundamental para amenizar os conflitos emocionais que estão enfrentando neste momento”, relata.

Para a retomada das aulas, as escolas adotaram diversas medidas, como a aferição da temperatura, o uso do álcool e a demarcação das carteiras. O recreio, por enquanto, está suspenso e essa é uma das principais mudanças no ambiente escolar.

EFEITOS DO ISOLAMENTO 

O estudante Kaique Silva, de 16 anos, cursa o 2° ano do Ensino Médio em uma escola estadual em Goiânia. Durante a pandemia, ele ficou isolado juntamente com a família, assistindo somente às aulas on-line. Chegou a ficar 16 horas por dia usando o celular. “Meus amigos, a maioria, são virtuais e é com eles que converso desde que deixei de ir à escola”, diz o adolescente. Morando com os avós maternos, ele já tinha o hábito de ficar mais isolado e, em razão da pandemia, desenvolveu crises de ansiedade e angústia. Um dos sintomas foi a dificuldade para acompanhar as aulas remotas. Há dois meses, Kaique começou um tratamento psicológico.

O estudante retomou as aulas presenciais em agosto, mas com pouca interação devido aos protocolos de distanciamento. A avó Teresinha Moreira espera que a volta da rotina escolar tenha efeito no comportamento do neto, haja vista que a escola era o ambiente no qual ele tinha contato com pessoas da idade dele. “Ele é um adolescente mais retraído e isso se agravou com a ausência das aulas presenciais. Estou tentando ajudá-lo para que o isolamento não o prejudique tanto. Ele tem conversado cada vez menos, fica boa parte do dia calado ou no celular. Isso me incomoda e por isso busquei ajuda”, conta Teresinha.

Experiências de um novo ambiente escolar

O Centro Municipal de Educação Infantil (Cmei) Euler Fernandes, em Aparecida de Goiânia, teve a rotina escolar modificada desde agosto para cumprir os protocolos de segurança. Até os lençóis das crianças, que ficavam a semana toda na escola, precisam ser retirados todos os dias para serem higienizados na casa da família. As crianças devem permanecer de máscara o tempo todo, tirando apenas para a refeição, momento no qual as coordenadoras precisam ficar atentas, já que os pequenos querem estar perto uns dos outros.

Ester Macedo, diretora: “A participação dos pais na escola está sendo fundamental para o desenvolvimento
da criança”

Segundo a diretora do Cmei, Ester Macedo, o início da retomada presencial, em agosto, foi uma fase de medo, principalmente por parte dos professores, mas ela conta que as crianças estão aderindo bem aos protocolos a serem cumpridos. “Elas estão amando voltar para a escola e, na maioria das vezes, são obedientes, até mesmo quanto ao uso da máscara. Achei que iriam ter dificuldade, mas são compreensíveis”, diz.

A diretora conta que a participação dos pais na escola está sendo fundamental para a adaptação da criança, já que é uma situação nova para todos. Ela reforça que o Cmei passa por pulverização todos os dias para manter a higiene das salas, além dos outros cuidados obrigatórios que todos devem tomar.

Na Escola Estadual do Setor Palmito, em Goiânia, que atende adolescentes dos Ensinos Fundamental e Médio, a diretora Juliana dos Santos conta que parte dos alunos não querem retomar as aulas presenciais, mesmo com o revezamento de turmas. “Estamos analisando o que motiva muitos alunos a permanecerem em aulas remotas, porque a aula online, se o aluno não estiver focado, ajuda a dispersar a atenção”, explica.

Juliana dos Santos, diretora: “Na aula on-line, se o aluno não estiver focado favorece a dispersão do aluno”

Juliana relata que, em muitos momentos, os alunos querem se reunir em grupos, mas que isso não pode acontecer ainda. Outra questão que a diretora da escola abordou, além dos cuidados que a escola está tendo, é o escalonamento no horário da entrada das turmas.

Com dois meses da retomada presencial, a diretora conta que, aos poucos, os alunos estão se adaptando aos regulamentos exigidos nas aulas presenciais. Já os estudantes que estão em formato remoto, ela tem buscado a família para que os incentive a voltar para sala de aula, presencialmente.

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