Goiás registrou 176 mortes de crianças e adolescentes

A maioria das vítimas de mortes violentas no estado eram adolescentes de 15 a 19 anos. Foram 162 óbitos de 2016 a 2020

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A maioria das vítimas de mortes violentas são adolescentes de 15 a 19 anos. Foto: Luiz Marques/Unicef

Dhayane Marques

Todo os dias, 32 crianças e adolescentes morrem assassinados no Brasil, segundo o Panorama da Violência Letal e Sexual contra Crianças e Adolescentes no Brasil, divulgado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), através do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). De acordo com o levantamento, 35 mil crianças e adolescentes de 0 a 19 anos foram mortos de forma violenta entre 2016 e 2020, com uma média de 7 mil mortes por ano. Em Goiás, foram registrados 176 óbitos de crianças e adolescentes decorrentes de violência.

Danilo de Souza, de 7 anos, está entre as crianças vítimas de violência em Goiás. O caso ganhou repercussão nacional, após o sumiço do menino no dia 21 de julho de 2020, quando saiu para ir até a casa de sua avó, que morava no mesmo setor, no Parque Santa Rita, em Goiânia. Depois de sete dias, o corpo do garoto foi encontrado em uma mata da região. De acordo com a Polícia Civil, a causa da morte foi por asfixia.

Para a professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Goiás (UFG) Silvia Zanolla, esses números são preocupantes e a ausência de investimento e políticas públicas para combater a violência contribuíram para o agravamento da situação. “Essa violência tem crescido muito, sobretudo, agora com a pandemia. É como se a violência se tornasse epidêmica”, pontuou. A maioria das vítimas de mortes violentas no Estado eram adolescentes de 15 a 19 anos. Foram registrados no período 162 óbitos nessa faixa etária.

“A violência contra a criança acontece, principalmente, em casa. A violência contra adolescentes acontece na rua, com foco em meninos negros. Embora sejam fenômenos complementares e simultâneos, é crucial entendê-los também em suas diferenças para desenhar políticas públicas efetivas de prevenção e resposta às violências”, afirma Florence Bauer, representante do Unicef no Brasil.

O estudo também revelou que, em 2020, foram registrados 2.135 crimes de violência sexual com autor conhecido, ou seja, na maioria dos casos, as vítimas conviviam com o abusador. No levantamento feito pela Secretaria de Segurança Pública de Goiás (SSP-GO) em 2019, foram registradas 3.023 denúncias. Zanolla reforça a urgência de investir em políticas capazes de prevenir e responder à violência letal e sexual contra crianças e adolescentes.

“Existem vários fatores de violência, mas o estupro tem um índice elevado em relação às crianças. A violência física também é muito presente, como aquelas agressões que parecem comuns, como por exemplo, um empurrão, um tapa, um soco. Às vezes, a pessoa acha que não vai machucar ou ter grandes consequências, e assim começam as agressões e espancamentos, como se fosse algo normal, até chegar ao ponto de essas crianças e adolescentes irem parar em um pronto-socorro”, lamenta.

Só nos seis primeiros meses deste ano, Goiás registrou o total de 1.004 denúncias de violência infantil, segundo o levantamento da SSP-GO. Com a pandemia, o cenário da violência doméstica cresceu, tendo em vista que a convivência expôs adolescentes e crianças a situações de vulnerabilidade. 

“Esse é um problema muito sério. Com a mudança na rotina das pessoas nesta época de pandemia, a proximidade familiar ficou maior. Como já havia uma dificuldade de convivência antes mesmo da pandemia, a situação ficou mais complicada e, de fato, o ambiente tornou-se dramático”, relata a professora. “Enquanto não se dá atenção para situações graves de violência, crianças e adolescentes estão morrendo” lamenta a professora, que também atua no Núcleo de Estudos em Educação, Violência, Infância, Diversidade e Arte (Nevida), da UFG.

Conselhos Tutelares sobrevivem em meio ao descaso

A falta de investimento e a precarização da estrutura, do efetivo, equipamentos e espaços dificultam o trabalho dos conselheiros tutelares. Apesar das péssimas condições, a ação do Conselho Tutelar é sempre de extrema importância para resgatar e acolher as vítimas.

A professora Silvia Zanolla ressalta a necessidade de se destinar recursos para melhorar a atuação dos conselheiros. Segundo ela, “a situação dos conselhos tutelares é crítica e caótica e é uma instituição que merece uma atenção do poder público e que deveria mobilizar muito mais a sociedade”.

Educador Social e coordenador do Centro de Referência em Assistência Social (CRAS) Vera Cruz, Diego Peres conta que a maioria das denúncias é feita por meio de prontos socorros ou instituições de ensino, quando se é comprovada a violação de algum direito ou constatado um caso de agressão. “No CRAS, temos um programa chamado ‘Serviço de convivência e fortalecimento de vínculos’, no qual trabalhamos a erradicação do trabalho infantil, a prevenção a violência e questões de direitos humanos”, conta.

Hoje, a capital possui 30 conselheiros, que estão distribuídos entre as regiões Centro-Sul, Norte, Leste, Oeste, Noroeste e Campinas. Perez já foi conselheiro tutelar e, atualmente, é o primeiro suplente da unidade do Conselho Tutelar de Campinas.

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