Obesidade cresce durante a pandemia

De acordo com levantamento do IBGE, uma em cada três crianças entre cinco e nove anos está acima do peso

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Fabiola Rodrigues

A má educação alimentar entre crianças e adolescentes aliada às medidas de isolamento adotadas durante a pandemia acelerou a obesidade infantil. Pesquisas revelam que o índice de compulsão por alimentos entre esses grupos aumentou em grande proporção e, na maioria dos casos, a ansiedade se destaca como vilã desse descontrole alimentar. 

Estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostram que, em 2025, o número de crianças obesas em todo mundo pode chegar a 75 milhões. Aqui no Brasil, os registros do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que uma em cada três crianças entre cinco e nove anos está acima do peso.

Segundo o Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional, em 2019, 16,33% dos brasileirinhos entre cinco e dez anos estavam com sobrepeso; 9,38% com obesidade e 5,22% com obesidade grave. Nos adolescentes, 18% tinham sobrepeso; 9,53% obesidade; e 3,98% obesidade grave.

Mirna Sousa, cardiopediatra da SGP:
“O que aconteceu foi que os maus hábitos alimentares não só foram reforçados, mas foram recomendados”. Foto: Divulgação

A cardiopediatra da Sociedade Goiana de Pediatria (SGP) Mirna Sousa explica que a população já vivia, antes da pandemia, uma realidade que já era preocupante. Os índices de sobrepeso de crianças e adolescentes já vinham aumentando progressivamente e o cenário de pandemia contribuiu para o aumento. “O que aconteceu foi que os maus hábitos alimentares não só foram reforçados, mas recomendados.

Para ela, a Covid-19 provocou um boom nos casos de obesidade infantil, que já existiam antes da pandemia, não foram criados pela condição imposta pelo coronavírus, mas a doença serviu como um reforço negativo. Os índices de obesidade infantil apresentaram um grande avanço, afirma a médica. O “fique em casa” e a escola que foi fechada propiciaram esse avanço de casos de crianças obesas”, destaca. Mirna observa que a ansiedade, a redução do tempo de sono, a exposição ao computador e celular, tudo isso aumenta a ansiedade de crianças e adolescentes, e a compulsão alimentar acaba sendo uma válvula de escape já conhecida por eles.

A cardiopediatra lembra que, antigamente, as crianças brincavam no quintal, de bete, queimada, corriam, mas, com as mudanças de hábitos da sociedade, as famílias se tornarem menores, com menos filhos, e a própria violência afastou crianças e adolescentes desse convívio social mais saudável. “Eles passaram a ficar mais em casa, usando como distração aparelhos eletrônicos, desenvolvendo transtornos emocionais, que também acabam sendo descontados no descontrole alimentar. A falta do exercício físico e a ansiedade desaguam na compulsão alimentar e temos cada vez mais crianças reclusas, vivendo em um mundo menos saudável”, ressalta. 

A criança acima do peso é um indicativo de outros problemas que exigem atenção. Mirna orienta os pais a buscarem ajuda de profissionais da área da saúde mental, psicólogo e pediatras. A cardiopediatra observa que não é só a saúde emocional das crianças que exige atenção neste momento; a dos pais também, “já que toda a família deu uma engordada e está mais ansiosa”. Diante disso, segundo ela, todo o núcleo familiar precisa buscar o retorno de uma vida mais ativa e saudável com urgência. “Precisamos da unidade entre família e escola. A primeira coisa que temos de fazer para mudar essa realidade é a informação, que vai ajudar a transformar esses maus hábitos. Sobrepeso e obesidade são problemas de saúde pública”, diz.

COMPULSÃO ALIMENTAR 

Daniel Mozarc, professor de Educação
Física: “Eles precisam entender que a
atividade física é fundamental para a
mente e corpo”. Foto: Divulgação

Geovana Costa, de 12 anos, está entre as crianças obesas e conta que tem comido descontroladamente. Sem restrições, já que os pais não impõem limite, ela acaba descontando na comida sua ansiedade. “Fico muito em casa e não tenho amigos para brincar. Ainda mais agora, que fiquei bastante tempo sem ir para escola. Foi pior ainda. Acho bom ficar comendo, me deixa feliz”, diz.

Casos como o de Geovana se repetem diariamente e a atenção dos pais se torna essencial para que a criança comece a mudar sua rotina alimentar. O professor de Educação Física Daniel Mozarc explica que os pais devem ser os primeiros incentivadores das crianças para que elas comecem a se alimentar melhor e façam atividades físicas. 

“O adolescente deve ser estimulado a fazer atividade física. O melhor incentivo à prática deve partir do exemplo dos pais. Eles precisam entender que a atividade física é fundamental para a mente e corpo”, diz o profissional.

O professor enfatiza que a atividade física ajuda no desenvolvimento e fortalece a imunidade, inclusive, da criança, já que ela precisa correr, brincar e se exercitar. Ele reforça que essas práticas servem para todas as idades. “Praticar regularmente atividades físicas fortalece o sistema imunológico, previne a obesidade e tem até ação anti-inflamatória”, ressalta.

“Existe a fome emocional e eles descontam na alimentação”

A psicóloga Nayara Soares explica que a fase da adolescência já é uma fase de transição, na qual o adolescente come muito ou deixa de comer, e tende a comer mais quando a transição se associa a outros fatores emocionais. Em razão disso, as mudanças provocadas pela pandemia intensificaram a compulsão alimentar. “Existe a fome emocional, que ocorre quando há um vazio existencial, e os adolescentes descontam na alimentação. Já as crianças não conseguem falar sobre os sentimentos e, em muitos casos, comem compulsivamente”, observa. A psicologia corrobora com a recomendação de que a família precisa olhar com mais cuidado como todos estão se alimentando, pois os pais são espelhos para os filhos em tudo, inclusive na alimentação.

Outro fator que tem gerado ansiedade nas crianças, segundo Nayara, é a retomada das aulas. “Muitos pais, no consultório, têm relatado que as crianças estão comendo muito e que isso está relacionado ao misto de emoções que os adolescentes têm vivido ao mesmo tempo e acabam descontando na alimentação em excesso”, relata.

Um fator importante ressaltado pela psicóloga é que os pais devem tirar o celular da criança, já que ela tem ficado muito tempo com o aparelho e isso faz com que coma muito até mesmo sem perceber, além dos problemas de ansiedade e sedentarismo que acarretam na infância.

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