Tabu interfere no desenvolvimento dos alunos, afirmam especialistas

Crianças e adolescentes se tornam reféns de abusos físicos e emocionais por não terem compreensão sobre o assunto

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Hoje, cerca de cem crianças e adolescentes de até 14 anos são estupradas por dia no Brasil. Foto: Divulgação

Fabiola Rodrigues 

O preconceito da família ao falar sobre educação sexual com os filhos se estende para a escola, impedindo a criança e o adolescente de se conhecerem melhor. A falta de conhecimento a respeito do assunto, em pleno século XXI, tem impedido que os adolescentes tomem conhecimento sobre seu corpo e, em muitos casos, a falta de autoestima, o emocional abalado e abuso sexual podem ocorrer pela omissão dessas orientações. 

Rosângela Ferreira, especialista em Educação: “Ouço frequentemente relatos,
no ambiente escolar, de casos de abuso sexual na família”. Foto: Divulgação

Segundo a especialista em Educação Rosângela Ferreira, que também é psicopedagoga, a dificuldade da família falar é quase que a mesma dos professores de debater o assunto. Para ela, há uma urgente necessidade de ensinar sobre educação sexual para o adolescente ter domínio do seu corpo, entender o que pode fazer com ele, o que pode ser permitido ou não, de compreender sobre ele, já que essa compreensão ajuda no combate ao abuso sexual.

Hoje, cerca de cem crianças e adolescentes de até 14 anos são estupradas por dia no Brasil, segundo levantamento feito pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em parceria com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), divulgados no final de outubro. De 2017 a 2020, 81% das vítimas de estupro tinham de até 14 anos, um total de 145 mil casos, ou 36 mil por ano. Durante o período, foram registrados 179.277 casos de estupro ou estupro de vulnerável com vítimas de zero a 19 anos, uma média de quase 45 mil casos por ano. Crianças de até 10 anos representam 62 mil das vítimas, ou seja, quase 35%.

A especialista afirma que a falta de conhecimento a respeito da educação sexual impossibilita a criança, em certos casos, de entender o que está acontecendo com o seu corpo. “Às vezes, ela nem consegue identificar se era um abuso ou não”, diz. Rosângela Ferreira explica que educação sexual não é só ensinar a criança e o adolescente a conhecer o próprio corpo, mas ensinar eles a entenderem os limites desse corpo, a ter autoestima, controle emocional, a selecionar quem fica perto ou não. “Ouço frequentemente relatos, no ambiente escolar, de casos de abuso sexual na família. Talvez um dos medos da família de tocar no assunto é porque tem medo de estimular uma atividade sexual precoce. E isso é um pensamento errado”, afirma.

A especialista esclarece que a educação sexual precisa ser debatida na família, em primeiro ponto, primordialmente. Depois, na escola e em qualquer instituição a que a criança pertencer, já que educação sexual é diferente de orientação sexual. Ela conta que as famílias confundem educação sexual com orientação sexual e isso impede que a escola faça seu trabalho. A especialista relata que a escola não tem muita autonomia para tratar o assunto devido à resistência social, aliada também à falta de preparo do ambiente escolar.

Na Lei de Diretrizes Base (LDB) está relacionado o tema educação sexual dentro da escola, mas Rosangela observa que não tem visto falar do assunto, e muito raramente, vê uma escola colocando o tema como um projeto a ser trabalhado durante o ano. Segundo ela, às vezes, um professor de ciências, dentro do conteúdo dele, trabalha alguma coisa relacionada em datas mais propícias, como Carnaval ou Dia dos Namorados. E que, raramente, alguma escola leva um palestrante psicólogo ou sexólogo, mas geralmente essas palestras são voltadas à conscientização para evitar abusos sexuais ou gravidez fora da época.

TEMA NÃO É PRIORIDADE NAS ESCOLAS 

Segundo a especialista Rosangela Ferreira, a escola deveria trabalhar essa questão da educação sexual como uma disciplina curricular, sendo que, cada faixa etária teria um conteúdo a ser trabalhado. Ela explica que não é simplesmente chegar na Educação Infantil, por exemplo, e “despejar um monte de informação que a criança não está preparada para ouvir, porque tem assuntos que deveriam ser iniciados não pela escola, mas, sim, pela família”.

Para a criança aprender, Rosângela explica, deve haver começo, meio e fim da aprendizagem. Mas o que ela tem visto em relação à educação sexual nas escolas é que o processo de aprendizagem não tem começo, meio e fim. Às vezes, parte do meio. “Como eu falei, em datas específicas trabalham um assunto só. Não tem aprendizagem linear, que vai aprendendo pouco a pouco. E é a que se necessita”, diz.

Para ela, falta iniciativa da gestão pedagógica colocar o tema como um projeto prioritário. A especialista afirma que a criança que recebe uma boa orientação em casa e boa formação escolar a respeito de sua sexualidade pode tanto evitar uma gravidez na adolescência, quanto amadurecer os seus relacionamentos. Convivendo no ambiente escolar, Rosângela afirma que lida com muitos adolescentes imaturos em relação a suas emoções e a sua sexualidade. “Nós temos muitos adolescentes que não conseguem se relacionar bem com o parceiro porque não teve uma boa formação em casa e na escola e, por isso, não entende como funciona o seu corpo”, relata.

Rosângela conta que a grande maioria das crianças e adolescentes não recebe nenhuma educação sexual em casa. “São tabus antigos. Até porque os pais têm medo de tocar no assunto. Eles só vão falar sobre o tema quando o problema estiver instalado. A maioria das famílias não trabalha com a conscientização. Elas tentam trabalhar com o remédio, na hora do problema”, diz. Além disso, observa ela, os pais não têm tempo. “Jogam a responsabilidade para a escola ou para a igreja e pensam que não é responsabilidade deles falar sobre o assunto”, relata.

Segundo ela, essa situação ocorre inclusive em famílias mais liberais. “E, quando a adolescente engravida ou pega uma doença sexualmente transmissível (DST), a família entra em desespero. Em alguns casos, tenta culpar a escola, que a escola não deu orientações.” A especialista afirma que meninas que crescem em famílias que não falam sobre o assunto, muitas vezes, são infelizes no relacionamento, seja no namoro ou no casamento, e acabam permitindo maus comportamentos do parceiro. “Talvez, se ela tivesse recebido uma boa orientação, ela teria autoestima para conseguir se livrar desse comportamento”, observa.

 

Rodrigo Gondim, especialista em Neuroaprendizagem: “Percebo que as famílias resistem a que a escola
trabalhe o assunto. O conservadorismo acaba influenciando”. Foto: Divulgação

“Tenho a sensação de que estamos retrocedendo cinco décadas”

O especialista em Neuroaprendizagem Rodrigo Gondim aponta que, além do tabu, o conservadorismo impede que a educação sexual seja melhor compreendida nas escolas. “Trabalho no ambiente escolar e percebo que as famílias resistem a que a escola trabalhe esse assunto, inclusive, na área da Ciência da Natureza. Quando o professor aborda o assunto há muito receio”, diz. 

Ele conta que percebe um certo desconforto até mesmo por parte do aluno ao receber o conteúdo. “Porque, afinal de contas, ele não tem essa educação em casa e, para ele, continua sendo um tabu que se estende pelo ambiente escolar.” Ele ressalta também que a escola sente a interferência da comunidade que não quer falar sobre o tema, diante disso, a escola tem receio de a comunidade voltar contra ela. “Essa questão do conservadorismo acaba influenciando. Essa onda neoconservadora acaba transformado a escola em um campo onde não se pode trabalhar temas que são fundamentais.”

Para o especialista, a escola pode e deve trabalhar essa questão de forma interdisciplinar para que os alunos tenham a oportunidade de compreender o tema e também de se informarem corretamente. Segundo ele, é necessário que esse trabalho seja desenvolvido na Rede Pública de ensino, que deve evidenciar o quanto é importante falar sobre o assunto. “Como é relevante trazer para o estudante temas que despertem sua atenção sobre temas que tratam de sua proteção dentro do processo educacional; falar do cuidado com o corpo e do cuidado com o outro para que o adolescente aprenda a lidar com o comportamento sexual sem que ele seja banalizado”, diz.

Rodrigo Gondim conta que precisa lidar com barreiras atitudinais e que derrubar o tabu é mais difícil do que muros físicos. “Somos uma escola do século XIX, com professores do século XX, trabalhando com uma geração do século XXI. Tenho a sensação de que estamos retrocedendo umas cinco décadas, por toda essa falta de debate sobre um assunto tão importante, e que já deveria ser normal”, frisa.

“A escola é lugar de promover educação, e não de influenciar”

O gerente de Programas e Projetos Intersetoriais e de Socioeducação da Secretaria de Estado da Educação (Seduc), Marcos Pedro da Silva, conta que é justamente pelo acirramento do não entendimento da sociedade quanto à educação sexual que o tema não é mais bem explorado nas escolas. Segundo ele, a escola quer falar, mas por conta da polarização em torno do assunto, evita a polêmica. Ele defende que a sociedade se abra para esse diálogo, já que o assunto preserva até mesmo a identidade, sobretudo da mulher. 

Marcos Pedro, gerente da Seduc: “Tema que traz muita tensão, mas os pais têm que acompanhar o filho”. Foto: Divulgação

“O tema está inserido na Lei de Diretrizes Bases (LDB) como um assunto transversal a ser dialogado na escola, mas sabemos que é um tema que traz muita tensão. Está presente no currículo, mas não há um adensamento. Nós temos apenas algumas ações que colocam a educação sexual em debate no ambiente escolar”, explica.

Marcos diz que a escola fica receosa porque muitas vezes os pais não entendem que a escola quer ajudar. Ele relata que algumas famílias pensam que abordar o tema em sala de aula vai influenciar os alunos em relação à prática sexual. Todavia, observa, a família deveria temer que o assunto fosse discutido em outras esferas, onde não há controle social. “A escola tem legislação e não há que se ter receio em relação à abordagem do tema dentro da escola, lugar de promover a educação e não de influenciar”, pontua.

O gerente conta que todo conteúdo explorado na escola é acompanhado por um conselho, o que a sociedade não tem. “Os pais deveriam se preocupar em acompanhar o filho naquilo que ele está assistindo nas redes sociais e no tempo em que deixa o filho sozinho, sem acompanhamento. A família tem que impor limites e, por isso, precisamos começar a trabalhar com a família também”, afirma.

Ana Lúcia, assistente Social da Seduc: “A sociedade tem que ajudar a escola a trabalhar”. Foto: Divulgação

A assistente social da Seduc Ana Lúcia Basílio conta que realiza ações na escola para conseguir ajudar os professores a levarem essa discussão para o ambiente escolar e fazer com que ele chegue ao “chão da escola”. “Temos campanha de ativismo contra a violência sexual, o Maio Laranja Faça Bonito, mas isso não significa que trabalhamos somente na perspectiva da campanha, mas também de levar orientações de forma constante. É o que estamos buscando fazer por meio de rodas de conversa, lives, trazendo pessoas para debater o tema. A sociedade tem que ajudar a escola a trabalhar. Nós clamamos por isso”, diz a assistente.

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