Crise no Inep enfatiza descaso do governo federal com Educação, afirmam especialistas

Exoneração dos 37 funcionários do INEP revela insatisfação dentro do órgão e causa insegurança nos alunos que estão realizando exame

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Foto: MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO

Fabiola Rodrigues 

Estudantes que estão fazendo a prova do Enem precisam lidar com um novo desafio, a insegurança, além dos já enfrentados durante a preparação para encarar a prova. Isso se dá porque, neste ano, o exame se vê cercado por uma crise que envolve a organização responsável pela prova, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). 

Faltando poucos dias para a avaliação, que já está sendo aplicada desde o dia 21 e vai até o dia 28 de novembro, um grupo de servidores do Inep solicitou afastamento dos seus atuais cargos e funções. O que começou com um pedido coletivo de dispensa de cargo, inicialmente assinado por 13 servidores, cresceu para englobar um conjunto de 37 funcionários que, no dia 8 de novembro, citaram falta de comando técnico e clima de insegurança e medo, promovido pela gestão atual do presidente do Inep, Danilo Dupas Ribeiro. 

Também conhecidos como funcionários de carreira, os exonerados deixam apenas seus cargos comissionados, mas permanecem trabalhando no órgão, sem exercerem função de coordenação ligada ao exame. Em mensagem enviada à diretoria, o grupo afirma que a solicitação não se trata de posição ideológica ou de cunho sindical. Além disso, os funcionários reiteram que o presidente Dupas Ribeiro promoveu um desmonte no órgão, com decisões sem critérios técnicos, segundo denúncia da Associação de Servidores do Inep (Assinep). 

A preocupação levantada pela atual crise acomete o Enem, que, com pouco mais de 3,4 milhões de inscritos neste ano, fica sob risco de falhas em sua aplicação. O Inep, por sua vez, afirmou que as provas não estão sendo afetadas pelos pedidos de demissão. Há poucos dias, o presidente Jair Bolsonaro disse, em entrevista, que as questões da prova não estão repetindo “absurdos” do passado e que a prova, agora, tem “a cara do governo”.  

A doutora em Educação pela Universidade Federal de Goiás (UFG), Lúcia de Assis, que também é professora da Faculdade de Educação e do Programa de Pós-graduação da instituição, explica que o exame não pode exprimir uma tendência pessoal, mas, sim, o conteúdo socialmente produzido. Ela afirma que não é correto intervir em uma prova desta magnitude. “O presidente Bolsonaro, ao fazer isso, está incorrendo em um erro primário, que é intervir ideologicamente em uma pauta que é técnica. Em toda trajetória do Enem isso nunca aconteceu”, relata. 

Para a especialista, o desejo do presidente Bolsonaro é que a prova reflita o modo dele de ver o mundo, mas ela ressalta que o Inep é constituído por funcionários de carreira que fazem um trabalho republicano, e, por isso, denunciaram as tentativas de intervenção no conteúdo técnico das provas. 

AUSÊNCIA DE COMANDO TÉCNICO  

Segundo Lúcia de Assis, o que levou os técnicos do Inep a pedirem a exoneração foi a ausência de um comando técnico que pudesse garantir a segurança na logística da aplicação do exame. Ela conta que eles se queixam de muitas pressões do atual presidente do Inep no sentido de fazer seleções de itens que vão ao encontro à visão do governo. Segundo ela, o Enem não pode ter conotação de direita nem de esquerda e a prova deve ser tecnicamente elaborada com base em princípios pedagógicos e políticos, no sentido amplo e não partidário. 

A professora, que é também pesquisadora da História da Educação, conta que a ideia dos funcionários do Inep, inicialmente, era impedir que, no Enem, houvesse questões de cunho “ideológico”. “Pelos estudos que temos feito, os técnicos garantiram que não houve ingerência na prova”, declara.  

A doutora afirma que, tecnicamente, o exame é seguro. “Até onde nós sabemos, não chegou a ter uma interferência na prova, apesar de ter tido tentativas, do próprio governo de fazer filtros ideológicos nos itens. Só que tecnicamente isso é inviável porque a prova é elaborada por critérios técnicos”, garante. 

A doutora conta que as questões do exame vêm sendo construída com referências dos acontecimentos ao longo de dois, três, quatro anos e que, a cada ano, a equipe é reforçada com novos times de avaliadores, que são treinados para que os testes sejam elaborados de acordo com critérios técnicos e não ideológicos, como foi dito por membros do governo. 

Lúcia de Assis afirma que os estudantes podem ficar tranquilos quanto ao exame desta edição, que a integridade das questões permanece. Ela aponta que o que preocupa é a logística de segurança da aplicação da prova, porque isso envolve muitas frentes a serem observadas. O que tranquiliza a professora é que cada pacote tem um mecanismo de segurança que mostra a hora exata que o pacote da prova foi aberto.  

“A logística que isso envolve é muito complexa, então, isso sim, afeta o aspecto psicológico dos estudantes que estão diante de uma prova muito importante, que definirá o futuro das suas vidas. E estar diante de um dilema como esse pode comprometer o desempenho deles lá na ponta”, revela. 

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