Pequena Amazônia no cerrado

Cultivo de seringueiras para extração de látex é opção para diversificar produção agrícola e atividade crescente em Goiás, que apresenta produtividade acima da média nacional

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Fotos: Síglia Souza/Embrapa

Thiago Queiroz 

Em meio aos espaços que somem de vista ocupados por cana-de-açúcar, soja, cereais ou pastagem para gado, tem sido cada vez mais constante em Goiás se ver plantações de árvores de tronco reto que se destoam dos retorcidos do cerrado. É o cultivo de seringueiras para extração de látex, que surge como nova opção de produção agrícola e é uma atividade crescente no estado, com destaque para os municípios de Barro Alto, Vila Propício, Santa Rita do Novo Destino, Goianésia, Anápolis e Niquelândia, os maiores produtores atualmente. 

O estado ocupa a terceira posição nacional no ranking de produção de borracha, segundo dados da Radiografia do Agro, publicado pela Secretaria de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Seapa) de Goiás. Em 2020, a área plantada disponível para colheita era de 9,1 mil hectares, e a produção chegou a 25,9 mil toneladas, um rendimento médio de 2,8 toneladas por hectare, segundo o IBGE Produção Agrícola 2020. O valor aproximado calculado da produção é de R$ 58,5 milhões. Em Goiás são pelo menos 190 propriedades com mais de 50 pés de seringueira, divididas em aproximadamente 40 municípios. 

Os números mostram crescimento, já que o mesmo diagnóstico feito em 2018 revelou que eram, naquele ano, 7,5 mil hectares já produzindo látex, e a produção ficou em 20,7 mil toneladas. Em 2015, foram apenas 15 mil toneladas, e Goiás ocupava a quinta posição nacional, segundo o IBGE.  

O líder em produção é o estado de São Paulo, responsável por quase 60% do látex extraído no país. Minas Gerais fica em segundo lugar, com 28 mil toneladas em 13,5 mil hectares; depois vem Goiás, com 25,9 mil toneladas em 9,1 mil hectares; Mato Grosso do Sul 14,6 mil toneladas em 5,7 mil hectares; e Mato Grosso, 14,3 mil toneladas em 14,7 mil hectares. O país, também em 2020, alcançou 376 mil toneladas, numa área de 163 mil hectares. O valor da produção foi calculado em aproximadamente R$ 1 bilhão. O Brasil já foi o maior produtor mundial de látex e, atualmente, está na décima colocação. 

Sangria precoce é responsável pela viabilidade 

Segundo informações da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), as plantações goianas usam mudas provenientes de clones de rápido crescimento, que possibilitam sangria precoce de látex a partir de quatro e meio ou cinco anos depois do plantio em solo ou, no máximo, em sete anos. A vida útil das árvores supera os 30 anos. Diferentemente das árvores de enxerto, a seringueira nativa da floresta Amazônica inicia a produção só depois dos sete anos.  

Em pesquisas feitas pela empresa, Goiás apresenta produtividade acima da média nacional, podendo chegar ao dobro da média mundial. Enquanto a produtividade média no mundo é de aproximadamente 1,0 tonelada de borracha seca por hectare, a brasileira é de 1,2 tonelada. Em Goiás, a média é de 1,5 tonelada por hectare, se considerado o plantio rústico. Fazendas com alto nível tecnológico empregado conseguem produtividade de até 2,5 toneladas por hectare colhido. 

Cultivo é opção para diversificar produção 

Em Goianésia, o cultivo de seringueiras passou a ser uma das atividades do Grupo Otávio Lage no ramo da agricultura. Atualmente, a empresa agropecuária possui aproximadamente 2 milhões de árvores plantadas, quase metade delas em produção.  

A empresa afirma que, inicialmente, os investimentos na área foram realizados com o objetivo de empregar a mão de obra excedente do corte da cana-de-açúcar devido à implantação da colheita mecanizada em suas lavouras. “A atividade emprega uma pessoa a cada 6 hectares plantados e, se comparada a culturas tradicionais, proporciona melhor rentabilidade ao produtor, maior remuneração aos trabalhadores e, consequentemente, mais contribuição para o município por meio de impostos”, garante a empresa.  

O Grupo Otávio Lage, segundo a assessoria, lidera o processo de implantação de uma futura indústria de beneficiamento de borracha na região de Goianésia, em parceria com os demais produtores. O objetivo é agregar valor ao produto e possibilitar melhores oportunidades de comercialização, já que toda sua produção é vendida para outros estados. 

Produtores assistidos desde o plantio 

A Embrapa oferece aos produtores apoio desde o início das atividades, ao disponibilizar hastes de planta básica para fazer enxerto e produzir os chamados clones de seringueiras. O objetivo é promover a diversificação clonal, o aumento de produtividade e a sustentabilidade dos seringais.  

Já a Agência Goiana de Assistência Técnica, Extensão Rural e Pesquisa Agropecuária (Emater) oferece mudas prontas para plantio, em alguns casos. Um exemplo é o executado através de uma parceria entre o governo do estado, a Central das Associações dos Mini e Pequenos Produtores Rurais de Niquelândia (Camprun), a Embrapa e o conglomerado Anglo American. Denominada Projeto de Apoio ao Cultivo de Seringueira, a iniciativa contemplou 26 produtores do município com mudas de seringueira, em 2007, e, desde então, acompanha e oferece cursos de capacitação e assistência técnica. 

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