Entrevista | “Meu pai era muito diferente”

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Ana Paula Craveiro, filha de Iris Rezende. Foto: Divulgação/Instagram

Diferente é um termo que o próprio Iris Rezende usava para se referir a uma pessoa que considerava muito especial. Ana Paula, a filha que o acompanhou durante os últimos 30 anos, não vê substitutos para o pai, apesar das especulações em torno de seu nome e do filho Daniel, de 16 anos. “Não sou eu que eles querem, não é Daniel, meu filho, querem meu pai.” Ana Paula cuidava dos assuntos particulares de Iris desde que se formou em Direito e esteve a seu lado nas vitórias e nas derrotas. Ela atendeu a reportagem do Tribuna do Planalto no escritório da Avenida T-9, onde continua recebendo diariamente os admiradores do pai. Apesar da dor da perda, Ana Paula se diz grata pela oportunidade que teve de conviver de tão perto com o pai, um dos principais políticos goianos.

TRIBUNA DO PLANALTO Como é ser filha de Iris Rezende?

ANA PAULA Eu sou uma pessoa privilegiada e tenho muita gratidão por ter tido a oportunidade de conviver tão de perto com uma pessoa muito especial porque meu pai era uma pessoa extraordinária. Eu tinha muito prazer em estar perto dele, era bom, não foi nenhum esforço ou sacrifício; nunca foi. Eu achava muito bom ver a forma com que ele fazia política. E não era a política, era a forma como ele vivia, a vida dele era aquilo; onde ele estivesse, não tinha diferença. Meu pai viveu os 87 anos de vida daquele jeito. Eu acho que meu pai já veio pronto. De quando era vereador até hoje, ele era o mesmo, o mesmo pensamento, e ele sempre foi muito coerente. Ele nunca mudou. Quem ensinou meu pai quando era vereador? Quando ele falava que a vida dele só tinha explicação no âmbito espiritual eu não tenho dúvida nenhuma disso. Meu pai não aprendeu a fazer política, o pai nasceu para fazer aquilo e já veio pronto. E acho que ele sabia que o dia que parasse de fazer isso, Deus ia levá-lo.

Houve pesar naquele momento em que ele decidiu deixar a política? 

Não foi uma decisão fácil para ele. Eu nunca tinha visto meu pai sofrer tanto com uma decisão porque ele sabia que era a hora de parar, mas dentro dele era aquela coisa: eu ainda estou bem, tenho saúde. Ele estava com a eleição praticamente ganha. Mas ele sabia que tinha que terminar ali. Muita gente pedia para ele continuar, e eu sentia que, às vezes, ele tinha dúvida. Até que um dia, depois de ter uma queda, ele chegou na prefeitura, chamou Paulo Ortegal e eu para conversar e disse: a minha decisão está tomada, eu não sou candidato.

A queda pode ter influenciado na decisão? 

Eu perguntei o que o tinha levado a decidir e ele disse: “Aquela queda que eu tive foi um sinal de Deus. Eu tenho perguntado muito para Deus.” Acho que ele já sabia, mas quando ele caiu, confirmou: “Deus está me mostrando que que está na hora de parar.”

Na família, você sempre esteve mais próxima de Iris durante toda a sua trajetória. Qual o impacto dessa experiência na sua vida? 

Eu aprendi muito. Meu pai nunca deu valor a pequenas coisas e ele nunca pensou em dinheiro. Meu pai não sabia que carro ele tinha, tanto é que eu troquei o carro dele sem ele saber – para ele não brigar comigo – porque o carro que ele tinha já não tinha condição, deixava ele na estrada para Guapó; nunca ligou para relógio, para roupa – a Adriana todo dia colocava a roupa para ele usar no dia seguinte; nunca teve cheque nem cartão de crédito. Ele guardava no bolso o dinheiro que eu descontava para ele e, quando ia acabando, pedia mais. Ele queria preservar os bens que lutou muito para conseguir; tudo que temos hoje foi fruto de muito suor dele. Hoje eu vejo que ele olhava além, o olhar dele era maior do que o que a gente enxerga. Meu pai me ensinou muitas lições e, depois que ele se foi, parece que eu entendi melhor.

Há poucos dias, houve uma pressão de alguns políticos para que você saísse de vice na chapa do governador Ronaldo Caiado. Na sua opinião, por que as pessoas tentaram te trazer para a política? 

Por ele, as pessoas o querem. Não é a mim, porque ninguém me conhece, eu não sou nada. A presença dele é tão forte que tem horas que eu sinto que parece que não aconteceu, porque ele está tão presente, a marca dele foi muito forte, a presença dele na vida das pessoas. Eu não tinha noção disso e fico pensando, será que ele tinha noção do tanto que ele era amado? Acho que as pessoas citam meu nome porque é ruim esse sentimento de perda. Eu sinto isso e acho que as pessoas sentem um pouco isso também, que nós perdemos um político que fazia a política no seu verdadeiro sentido.

Você acha que alguém vai herdar esse legado dele? 

Isso ele recebeu de Deus e essa herança ele não passa, ele não transfere. É claro que podem surgir, assim como ele surgiu, outros nomes, outras pessoas com esse sentimento que ele tinha, mas hoje eu acho que não tem ninguém.

Na família tem alguém que demonstre interesse em se tornar político? 

A política para nós sempre foi muito difícil e acho que isso afastou todo mundo. Meu pai sempre foi muito rígido, muito exigente com a gente todas as vezes que ocupou um cargo. Nós nunca tivemos emprego público, ele não aceitava esse tipo de coisa, não aceitava a gente tirar proveito ou usar o nome dele para tentar conseguir alguma coisa. O poder para nós sempre foi ruim, tanto é que, quando passava, nossa vida até melhorava, porque era um alívio. Não sei se foi isso que nos fez afastar da política ou o jeito dele fazer política, eram 24 horas. Eu tenho a minha família, a minha casa, um monte de coisa que eu gosto de fazer, eu gosto de viajar e nunca conseguiria ter essa dedicação. Ele era dedicado de verdade. Meu pai fez o que mais amava a vida inteira. E isso até me conforta, porque ele viveu intensamente. E ele era intenso em tudo. Isso também nos assustava porque ninguém quer uma vida tão difícil e a vida para ele não foi fácil. Ele teve derrotas, sofreu injustiças.

O que mais te marcou na trajetória de seu pai? 

Durante 20 anos a oposição tentou de alguma forma destruir meu pai com ações baixas. Só nós sabemos o que passamos.De todas as formas eles quiseram achar alguma coisa na vida do meu pai ou fabricar alguma coisa para poder destruí-lo. Acho que era essa a palavra. Se meu pai não fosse o homem que ele foi: forte, porque ele era forte, corajoso e correto, extremamente correto, ele não teria conseguido. Ele conseguiu, e não é fácil, sem o poder, lutar contra um poder forte e conseguir se reerguer. A derrota para senador para mim foi a pior, a que mais me marcou,porque eu achava que era uma grande injustiça. Nós tivemos momentos difíceis, doídos.

Quando ele voltou para disputar a Prefeitura de Goiânia, a família não apoiou a decisão. 

Eu nunca falei nada porque eu sabia que dentro dele aquilo era muito importante e, no fundo, eu também achava que ele não devia parar.Mas a família ficou um pouco traumatizada. Mas hoje eu sou muito grata, porque acho que meu pai foi feliz, foi realizado e conseguiu. Meu pai não deixou nada, tudo que ele começou, ele foi até o fim. Não deixou mandato por acabar,não deixou nada para eu terminar, deixou tudo pronto, tudo finalizado. Isso é um privilégio. Ele viveu 87 anos com saúde, com sonhos, com brilho no olhar que era igual ao de um menino, o mesmo que vejo nos meus filhos. Isso é um privilégio grande demais. Eu só tenho que agradecer porque eu acho que meu pai foi privilegiado.

Qual foi o seu papel na carreira política de seu pai? 

Meu pai fazia o que queria, tomava as decisões e, às vezes, consultava para ter certeza. Às vezes, pedia informações porque não tinha como ter informação de tudo e, como eu sempre estava por perto, muita coisa chegava a mim; gente que não tinha coragem de falar as coisas para ele, mas para mim falava. Eu ajudei levando informações e ele sabia que eu não estaria mentindo ou inventando. Quando chegava alguma denúncia, por exemplo, ele queria as provas e eu só levava quando tinha. Eu não deixava chegar certas coisas até ele, para poupá-lo.

Iris Rezende sempre foi um político conciliador. Você tem ou aprendeu essa característica? 

Não sei. Eu estou começando a entender o que ele falava muito para mim, que é preciso entender as pessoas como elas são. Muitas vezes eu ficava brava por ele receber algumas pessoas e ele dizia que a gente tem que entender as pessoas porque não se sabe por que elas chegaram nesse ponto, ou porque que elas falaram aquilo. Hoje, eu tirei toda a mágoa que eu tinha, inclusive recebi pessoas aqui que eu não gostava nem de ver e as abracei ,porque entendi que aquelas pessoas gostavam muito do meu pai. Eu perdoei total. Meu pai era assim. Eu nunca tinha ido à fazenda em Mato Grosso sem ele nestes 40 anos e tive que ir agora pela primeira vez. Foram os momentos mais difíceis para mim depois que ele se foi. Toda vez que a gente chegava lá ele me puxava e ia em uma árvore que ele tinha plantado há dez anos e falava: “Você precisa ver a flor que essa árvore dá, é a coisa mais linda, uma raridade.” Agora, a primeira vez que eu fui sem ele, cheguei lá e estava cheio de flor. Ele sabia admirar e queria que você admirasse junto com ele, sabia ver a natureza, enxergava o sofrimento das pessoas e enxergava de verdade. Certo dia, nos últimos mutirões, eu fiquei muito impressionada. A gente ia para o mutirão e depois ia ver as obras e, em uma dessas visitas ele me falou assim: “lha aquela moça ali; ela me pediu alguma coisa e eu não entendi. Procura ela para saber o que que ela quer.” Eu fui atrás dela e ela me disse que queria fazer uma cirurgia para retirar os seios, porque era homem, mas havia nascido mulher. Eu queria saber a reação do meu pai, porque ele é conservador, com os valores das pessoas mais velhas, mas eu nunca vi preconceito em meu pai. Eu expliquei para ele o que a moça estava querendo e ele disse: “Então, vai procurar a Fátima [Mrué] para ver se a prefeitura faz essa cirurgia, porque aquela mulher está sofrendo demais.” Ele não só enxergou o sofrimento dela, ele queria resolver o sofrimento. Nunca o vi apontar o dedo, julgar; ele olhava para as pessoas, e quanto mais humilde, mais ele tinha vontade de ajudar. Isso era verdadeiro e me encantava. Eu adorava ir aos mutirões e participar dessas coisas porque, hoje eu entendo, eu gostaria de ver ele fazendo política. Tanto é que, quando me perguntam se vou sair candidata, eu não me vejo nesse meio sem ele.

Mas você concorda que a sua experiência te torna uma pessoa com grande potencial para exercer um cargo eletivo? 

Eu nunca pensei assim. Inclusive, nos dois eventos políticos que fui – o primeiro foi a entrega de um troféu que a Federação Goiana dos Municípios pediu para eu entregar para o governador e o outro, o mutirão – eu achei tão sem sentido. No segundo mutirão, eu pedi mil desculpas, mas não dei conta de ir. Está muito recente também. Ali parece que eu sinto mais a falta dele.

Como você vê essa discussão sobre a troca do nome do Aeroporto Santa Genoveva para homenagear seu pai? Eu achei que seria uma homenagem muito bonita e que meu pai merecia uma homenagem dessa pela vida dele, pela carreira política, por tudo que ele fez; porque ele fez muita coisa. Mas fiquei muito chateada com essa polêmica e descobri que, por trás disso, estão aqueles mesmos adversários querendo impedir a homenagem, tentando desmerecer. Virou uma questão política e eles são muito rasteiros. Começaram a usar a igreja. Genoveva não era a santa, mas a mãe do Altamiro de Moura Pacheco, e não existia um contrato para se colocar o nome dela. Tem um setor com o nome dela. Quando viram que não tinha contrato e não ia dar em nada, levantaram essa questão religiosa, que não existe; de evangélico querendo trocar o nome da santa.Eu fiquei realmente muito chateada. Eu não sei que sentimento é esse que não aceita que meu pai foi um político amado e não adianta, ninguém vai tirar isso dele. O que recebo de mensagens de pessoas que têm sentimento de perda, como se fosse alguém da família deles. Meu pai conseguiu, de alguma forma, entrar na casa dessas pessoas, na vida, na história delas. Eu me pergunto se meu pai sabia que ele era tão amado. Meu pai teve o AVC na sexta-feira e, na quarta-feira, na hora de ir embora, ele falou assim: “Esse escritório foi um presente de Deus. Aquelas pessoas que foram que vieram aqui hoje, nenhuma me pediu nada. Elas vieram porque queriam me ver.” Foi uma moça que veio contar para ele que a avó tinha muita vontade de tirar uma foto com ele e ele adorou aquela visita; a outra pessoa também queria tirar foto com ele.Ele ficou tão feliz. Quais são seus projetos agora? Na realidade, eu não perdi um pai só, eu perdi a segurança que eu tinha. Eu resolvia tudo, só que eu sabia que eu o tinha ali. Eu estou meio perdida, porque eu perdi a referência, né? Por mais que eu tenha a minha família, que me ajuda, mas meu pai era muito presente. Agora, eu vou tentar fazer tudo que ele me ensinou.

Você é filiada ao MDB e como é sua relação com o partido. 

Sou filiada há muitos anos. Três dias antes do meu pai ter o AVC, o pessoal do MDB Jovem veio aqui dizer que fariam uma homenagem para meu pai e sugeriram que meu pai assinasse a filiação de meu filho Daniel. Eu achei lindo. Meu pai ficou satisfeito, aquela coisa de avô. Aí meu pai teve o AVC e não teve como fazer. Agora, o Daniel disse que vai se filiar porque o avô tinha ficado feliz com a ideia. Mas foi só uma homenagem que ele quis fazer para o avô, que eu contei para o Daniel Vilela. Aí começaram as especulações, mas não tem nada disso e nem é o momento.

 

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