Atividades culturais ganham mais espaço e se tornam arma contra o preconceito

Durante a pandemia, secretarias de Cultura intensificam ações para entreter e combater atitudes preconceituosas

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Foto: Divulgação

Fabiola Rodrigues 

As atividades culturais, que foram amplamente afetadas durante a pandemia, começam a retomar suas atividades em Goiânia e no estado. As práticas culturais para entretenimento, aprendizagem e inclusão vêm ganhando maior visibilidade para ajudar na quebra de preconceitos enraizados na sociedade, como o racismo, a misoginia e a homofobia.  

Na opinião da secretária de Direitos Humanos e de Políticas Afirmativas de Goiânia, Cristina Lopes, a sociedade ainda é muito preconceituosa com as pessoas pretas, africanas, indígenas, com deficiência e em relação à mulher. “Precisamos vencer isso. Portanto, intensificamos, agora, durante a pandemia, políticas públicas que reduzam o sentimento de desigualdade racial e os preconceitos em relação à mulher e ao grupo LGBTQIA+. Ampliamos a aproximação social e incentivamos o convívio com o outro”, relata. 

Uma ação que tem incentivado os segmentos que sofrem preconceito é o acompanhamento e incentivo para que essas pessoas tenham acesso ao mercado de trabalho. “Preparamos essas pessoas negras, deficientes, indígenas para o trabalho e as acompanhamos depois que a vaga foi conquistada, porque a autonomia financeira é fundamental para quebra de barreira”, explica. 

Segundo a secretária, a arte e a cultura são fios condutores para transformação e se não for por meio de atividades culturais e artísticas essas pessoas nunca serão vistas. Ela observa que a arte traz uma linguagem mais afetiva. Cristina Lopes lembra que foi a arte e cultura que salvaram a humanidade durante a pandemia, mesmo tudo sendo feito de maneira virtual. 

Entre os incentivos que a secretaria oferece dentro desse objetivo, estão a produção de livros. O mais recente é o que conta a história de uma pessoa autista. São promovidos também festivais de capoeira inclusiva, exposição da representatividade da mulher e Feiras das Pretas e mais, que englobam pessoas portadoras de algum tipo de deficiência, negros, indígenas e quilombolas. 

Para a secretária, ações como as das feiras, que agora já são realizadas presencialmente, são as que mais trazem visibilidade para os diversos segmentos que sofrem preconceitos. “Dá um resultado pessoal, porque essa pessoa melhora sua autoestima e irradia mais brilho, e isso contagia a todos de sua convivência. Todos são beneficiados. A cultura muda o mundo porque ela tem uma comunicação que envolve sentimentos como afetividade e amor”, afirma. 

A secretária ressalta que todas as ações da pasta são voltadas às diferentes frentes sociais que lutam por seus direitos. Para ela, a pessoa que pratica atos preconceituosos é mal resolvida. “Tem muita gente assim, isso representa que ela tem um problema muito sério e precisa se tratar”, declara.  

O superintendente de Gestão Integrada da Secretaria de Estado de Cultura (Secult), Leandro Santiago de Azeredo, relata que o estado vem integrando as ações culturais, e que, recentemente foi lançado 20 editais da Lei Aldir Blanc, que favorecem grupos distintos e genéricos, editais para população LGBT QIA+ e para obras relacionadas à mulher. “Estamos trabalhando para que haja no estado uma integração entre a cultura e a sociedade”, afirma. 

Segundo ele, as ações culturais de incentivo estão sendo assertivas e reverberam efeitos positivos, como músicas e livros que são pontes para a revolução de conceitos. Para ele, esse é um trabalho de formiguinha, referente a quebra de preconceitos, mas que as ações estão bem pontuais e com resultados positivos.  

O superintendente conta que muitas ações realizadas neste ano serão executadas no próximo ano, já que essas ações são necessárias e representam muito mais do que uma apresentação. “É importante ver que as pessoas se identificam com a cultura. A pandemia afetou o ambiente cultural violentamente. Estamos fazendo o resgate dela. O trabalho tem sido muito intenso”, relata.  

Leandro reforça que a cultura é uma vertente muito interessante, porque ela pode transcender qualquer situação em que se fecha um círculo em torno de uma determinada classe ou grupo. Ela faz a integração, a mescla. “Atendemos também os grupos quilombolas, porque estamos com a pasta aberta para fazer da cultura um lugar de transformação e, com cultura, fomentar o fim da violência e do preconceito”, observa. 

“O que me incentivou a escrever o livro foi uma situação em sala de aula” 

A especialista em Neuropedagogia e professora Erivânia Brito resolveu desconstruir essa visão de um único tom de pele, baseado em um padrão eurocêntrico, e fazer as crianças se enxergarem dentro de uma enorme paleta de cores com diversos tons de pele.  

Erivânia resolveu transformar essa experiência feita em escolas públicas da cidade de Goiânia em um livro literário e tornar esse aprendizado possível para outras crianças, de uma forma lúdica e simples. Dessa vontade surgiu o livro “Onde está meu lápis cor da pele?”. 

pis cor da pele?”. Por meio de ilustrações variadas e textos curtos, o livro é ideal para ser trabalhado em sala de aula e no ambiente doméstico, enfim, onde houver aprendizagem e educação, para que o público infantil aprenda sobre diversidade e repense padrões de beleza. 

A especialista explica que o preconceito ainda está muito enraizado na cultura brasileira e que ele aparece na sala de aula. Ela enfatiza que cabe aos professores incentivarem esse conceito na escola. “O que me incentivou a escrever o livro foi uma situação em sala de aula. Acho importante falar por causa da falta do respeito”, conta.  

“Somos de cores diferentes, de família diferentes, dentro da sala de aula precisamos levar para a sociedade. Não falar do racismo é negar que ele exista, mas se falarmos sobre a questão do respeito, de igualdade entre as pessoas, da beleza, da diferença de cada uma, gera uma mudança social, através do ensino”, diz. 

Erivânia acredita que tem que trabalhar, nos primeiros anos escolares, a quebra de preconceito dos estudantes, para eles não deixarem o preconceito se aprofundar. 

 

Dicas para professores combaterem o preconceito em sala de aula 

  • Leve diversidade cultural para a sala  

Levar para a sala de aula adereços sobre diferentes culturas é uma ótima forma de fazer com que os alunos saibam que existe uma diversidade entre povos e regiões no país. Se os estudantes apenas leram nos livros, pode ser que essa diferença não fique tão clara para eles. Permita que sintam, ouçam, vejam e conheçam itens interessantes.  

  • Exponha os alunos a diferentes pessoas e ambientes  

Caso a escola consiga, leve-os a uma viagem de campo. Essa é uma ótima forma de inovar em suas aulas. O importante é mostrar aos estudantes que o mundo é cheio de pessoas e culturas diferentes, e que devemos respeitar cada uma delas. Assim, fica mais fácil evitar o preconceito tanto em sala de aula como fora dela.  

Implemente lições explícitas sobre racismo e resolução de conflitos. 

Não podemos fingir para as crianças que não existem problemas e desafios relacionados a diferentes culturas e etnias, que precisam ser superados. Por isso, mostre aos seus alunos exemplos que retratam algumas situações de preconceito e explique que é essencial combatê-lo para vivermos em um mundo que seja melhor para todos. 

  • Converse com os estudantes sobre justiça social  

Mostre aos seus alunos o trabalho de organizações e movimentos que promovem a tolerância e a compreensão entre as pessoas. Também é muito interessante discutir algumas opções de carreira que envolvam esse tipo de atividade.  

  • Use livros para explorar tópicos difíceis  

Os livros oferecem inúmeros caminhos e abordagens para apresentar aos estudantes assuntos mais densos ou subjetivos, além de permitir que eles tenham autonomia para interpretar as informações e formar uma opinião a respeito. É interessante, também, usar em sala de aula algumas opções que compartilhem experiências pessoais de indivíduos, como livros de biografia, por exemplo. 

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