Quando se tem poucos anos de idade e muita disposição no corpo, 24 horas são pouco para curtir tudo o que um dia pode oferecer. As crianças não se cansam. Querem brincar, aprender, se surpreender e, acima de tudo, sonhar. E quando o período de aulas acaba, e muitas delas ficam com o dia inteirinho livre, a imaginação rola solto.
Que o digam as irmãs Tharsilla Grazielle Alves Sena e Emylle Alves Sena, de sete e cinco anos respectivamente. As duas já encerraram o período escolar de 2011, e agora curtem as tardes chuvosas de dezembro com atividades que vão desde assistir a desenhos animados até brincar de casinha ou pular corda, quando o tempo favorece. Sem, no entanto, sair de perto dos olhos atentos da avó Arlete.
Mais velha, Tharsilla explica que elas podem brincar de pique-esconde, ou qualquer outra coisa, desde que não baguncem muito a casa nem saiam para a rua. Durante as férias, enquanto a mãe trabalha cuidando de outras crianças em um berçário, as irmãs ficam na casa da avó, e sempre acompanhadas de outros quatro primos na mesma situação.
Histórias assim se repetem em centenas de casas na grande Goiânia. As férias chegam e surge a pergunta: O que fazer com as crianças? No final, todo mundo acaba “dando um jeito”. Quem não pode ficar em casa com os pequenos inventa uma temporada na casa de uma avó ou tia, ou então paga uma babá. Há até mesmo aqueles que se arriscam em deixar os filhos sozinhos. Quando não se tem opção, atitude arriscada e pouco recomendável.
Com mais de um mês de férias, sobra tempo para se entediar. Se já é difícil manter as crianças ativas e “sob controle” durante o ano, imagine nessa época saltitante de liberdade e longe da escola? É nesse momento que surgem as opções de lazer, disponíveis em todas as cidades e que são uma “mão na roda” para qualquer pai.
Mas este ano, os pais que moram na capital não podem contar com essa “ajudinha”. É que as opções de lazer disponíveis, que não são muitas, foram fechadas para reforma e ainda não foram entregues, e nem serão a tempo de as crianças se esbaldarem nos largos espaços.
As idas ao parque zoológico, ou ao Mutirama, que sempre foram roteiro obrigatório das férias de muita gente, estão canceladas. Os dois locais estão fechados, com um futuro de data incerta para serem reabertos. O poder público anunciou a abertura do zoológico para o Dia das Crianças, em outubro passado, mas foi apenas uma promessa em vão.
O não lugar
No começo do ano, havia uma estimativa de agora em dezembro o parque seria reaberto, mas o que se vê é um muro imenso segregando a paisagem. O que sobra para os pequenos em meio a tantas obras? É claro que existem outras opções, como um cinema, ou uma festa do pijama na casa do amiguinho. Mas quando se trata de lugares públicos, Goiânia está temporariamente manca.
A capital, que se considera uma das que têm a melhor qualidade de vida do país, não parece ter muitas opções para oferecer, sem que os pais gastem mais do que o planejado. Nas férias, muitas famílias saem da cidade, viajam. O problema é com quem fica.
Guilherme Moreira Siffermann (sete anos), por exemplo, encerrou o 1° ano do Ensino Fundamental e agora curte suas merecidas férias. Quando questionado sobre o que gosta de fazer, ele é rápido na resposta: “Gosto de ir para a roça e pescar!”.
Mas, e quando Guilherme está na cidade, o que prefere? “Brincar de videogame e computador”. E brincar com o bichos, ele não gosta? “Gosto sim, mas ainda estão construindo o zoológico daqui”, explica o garoto que só tinha cinco anos quando o zoo fora fechado. Suas respostas esclarecem um pouco o porquê da preferência por computadores.
Se mesmo uma criança sabe dos motivos que a levam a ficar em casa, ao invés de brincar na rua, como questionar o gosto cada vez mais tecnológico? Para o pai de Guilherme, o engenheiro de tecnologia Murilo Moreira Costa, deveriam existir mais incentivos para a criação de espaços de lazer mais próximos da população.
“Não dá para entender como uma metrópole nas proporções de Goiânia não é capaz de oferecer opções de lazer adequadas”, diz Costa.
Opções
Em alguns setores existem mais opções. No Setor Alto do Vale, na região noroeste, o Clube do Povo oferece atendimento de lazer para toda a população da capital, com a utilização gratuita de suas piscinas, além de lanchonete, quadra poliesportiva, campos de futebol, parquinho e área verde.
A Secretaria Municipal de Esporte e Lazer (Semel) informa que, para se associar ao clube, que fica aberto das 9 às 17 horas, nos finais de semana, basta levar carteira de identidade, comprovante de endereço e foto. Durante a semana, atividades de iniciação esportiva são oferecidas para crianças e idosos.
Na região sudoeste, é o Centro Esportivo Morada Nova que oferece lazer de segunda a domingo para os moradores. Outra opção é o projeto Lazer Itinerante, que leva atrações e brinquedos para os bairros de Goiânia. Escolas e diversas entidades solicitam a presença da Semel no bairro para levar as atrações.
São iniciativas ainda pontuais, e que não estão ao alcance de todos. As irmãs Tharsilla e Emylle, por exemplo, passam o dia na casa da avó que fica no outro extremo da cidade, e sentem falta de uma “brincadeira diferente”. “Eu já fui no Zoológico, mas só me lembro da cobra. Queria ir de novo...”, reclama Emylle, enquanto a irmã explica: “Você era muito pequena na época! Não lembra, não”.
E quando não se tem opções por perto, a saída é pagar pela diversão. Algo, que na opinião de Murilo Costa deveria ser gratuito, dado a quantidade de impostos que o contribuinte paga.
O Memorial do Cerrado é uma opção para quem quer algo diferente sem gastar muito. Com tarifas que variam de R$ 5 para crianças e estudantes e R$ 10 para adultos, o local é administrado pela Fundação Aroeira em parceria com a Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO). Lá, os visitantes podem passar o dia curtindo ambientes como o Museu de História Natural, o Quilombo, a Fazenda e a Aldeia.
Uma tarde no Memorial do Cerrado, uma ida ao Shopping, uma sessão de cinema em casa... Percebe-se que manter uma criança estimulada não é fácil, nem barato. Que o diga o pai de Guilherme que diz desembolsar bastante quando as férias chegam.
Assim, vai-se o dinheiro e ficam as dúvidas: “Dizem que Goiânia é conceito em qualidade de vida, mas cadê essa qualidade no lazer? Como vão mostrar para os visitantes a qualidade de vida, se aqui não se tem opções de lazer, como um musical ou teatro gratuito?”, questiona o pai de Guilherme, que continua vendo filmes locados em casa e no computador. Afinal, para onde ir, se a chuva, e as obras, não deixam?
Lazer em meio a obras
Enquanto as crianças esperam dentro de casa por uma tarde mais agitada, o Jardim Zoológico e o Parque Mutirama continuam fechados, cada um por seus motivos. A expectativa, no entanto, é que ambos voltem a funcionar até junho de 2012.
De acordo com o secretário à frente da Secretaria Municipal de Esporte e Lazer (Semel), Luiz Carlos Orro, a previsão é que o parque Mutirama seja entregue antes das férias de julho do próximo ano. "Infelizmente, a grande opção de lazer não está disponível para as crianças e adolescente nestas férias, que é o Parque Mutirama”, reconhece.
Quanto ao Zoológico, o prazo para cumprir o Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) que prevê as mudanças que estão sendo feitas no local vai até 15 de fevereiro. O diretor do zoo, Raphael Cupertino, acredita que estão dentro do prazo, e que até lá o parque seja reaberto.
O Planetário de Goiânia (o mais antigo do Brasil), sempre foi uma boa opção para as crianças aprenderem brincando, até mesmo de noite. Mas este ano, impulsionado pelas obras do Parque Mutirama, onde se localiza, estará fechado durante o mês de janeiro para troca dos aparelhos de ar condicionado, que são do início da década de 1970.
Enquanto isso, as famílias que não têm condições de pagar por uma diversão a mais, podem contar com as áreas arborizadas da cidade. De acordo com Orro, são 32 Parques em Goiânia com áreas de lazer e esportes, além de mais de 800 praças urbanizadas.
Entretanto, é fato que muitas dessas praças e parques ficam ladeados por importantes avenidas (o que pode tirar o sossego de alguns pais) e no cair da tarde alguns se tornam até mesmo perigosos, sem iluminação ou segurança eficiente. E quem só tem o período da noite para sair com os filhos? Quais são suas opções?
Se perguntas como essa, feitas por muitos pais e adultos continuam sem resposta, imagine a centenas de questões que passam na cabeça das crianças nesse momento que estão de férias, mas... continuam tendo aulas. Aulas de paciência.








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