
Não consigo entender porque os críticos chutaram imaginariamente o filme À procura da felicidade, com Will Smith. Aliás, consigo. Mas não concordo. Aceito a vida e o drama ali. É uma bela história, uma interpretação marcante de Smith. Só porque soava melodramático demais e era narrado?
Soava assim para os que nunca viveram o extremo da necessidade básica. Quando se tem um filho para criar e uma mulher que já perdeu a confiança em você, achando-o um visionário sem talento, quando se sabe inteligente e capaz de grandes empreendimentos, e é abandonado por esta mulher, tudo fica mais difícil mesmo.
Quando se ama o filho a ponto de não querer fracassar, porque estaria criando um ambiente de fracasso ao próprio filho, e ao mesmo tempo vê dias duros, o drama se instala sem a necessidade da música. Mas há o fundo melódico que empurra a história rumo à pieguice. Eis o problema. Passemos por cima disso.
A história é quase real. O protagonista realmente viveu algo semelhante até alcançar os objetivos, trabalhar numa corretora do mercado financeiro. Para tanto, comeu o pão que o diabo amassou:
Foi enxotado do apartamento onde morava por falta de pagamento. Foi preso por não pagar uma multa de trânsito. Viu o filho passar fome, passou fome, perambulou de albergue a albergue na Nova York plena, teve de doar sangue para ter o que comer com o filho, num dia desesperado.
E fez tudo isso, enquanto – durante um mês – acabava em aulas e trabalho não remunerado, conseguindo clientes para a carteira daquela que seria sua futura empregadora.
Quando conseguiu o emprego na corretora, no meio da rua e da multidão, pôs os braços para cima e aplaudiu o nada (ou seria a vida?), narrando: “esse momento, esse pequeno momento, é a felicidade.”
E é assim para todos. A felicidade não é uma realidade possível, como um pão na padaria. É mais como um pão na mesa, ou na boca, de uma família afundada na miséria. Esta nem sempre terá um fumegante pãozinho para comer, mas quando o tem, tem-se, de quebra, uma sensação de absoluto contentamento com o mundo.
Nem só de pão vive o homem, tal como não só de felicidade é feita a vida. Ela, a felicidade, surge como um momento em que se pode ficar em pé na proa do barco, depois da tempestade. E é preciso saber que o mar voltará a ser bravio. E entender também que muitas vezes, ou sempre, o equilíbrio sobre a proa é uma proeza interior.
A felicidade, em vez de dor, traz um alívio, e é bom. Mas como uma anestesia, não pode durar o tempo todo, sob o risco de se perder a sensibilidade para a vida. Senão, haveria quem morresse, e talvez haja, de felicidade, como quem morre em função de angústia e depressão.
Mas essa felicidade momentânea, e o estado prolongado que ela pode oferecer, dependendo de cada organismo e sua volatilidade, é uma coisa boa. Não vale só para o empreendedor do mercado financeiro. Vale para todos os corpos e almas, desde que estes se lembrem, como lembrou Paulo Henriques Britto:
“Nenhum sinal da solidão se vê lá onde o Amor corrói a carne a fundo.
Dentro da pele, no entanto, você é só você contra o mundo.”