Tribuna do Planalto

Desde 1986 Fundador e Diretor-Presidente Sebastião Barbosa da Silva tribunadoplanalto.com.br
Ano 26 - Nº1.327 Goiânia, 13 a 19 de maio de 2012
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É tempo de falar de drogas

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É fim de ano, e as pessoas se reúnem para rever toda a trajetória feita em 2011. E ao fazer essa retrospectiva, chega-se à conclusão: “Este foi “o ano das drogas!” Sem ironia nas palavras, mas nunca se falou tanto no assunto, seja para criticar ou tentar incentivar o uso de algumas.
Quando se fala em drogas, é comum que as pessoas se lem­brem imediatamente de substâncias nocivas à vida do ser humano, que acabam com a integridade e a estima do indivíduo. Inúmeras foram as notícias e reportagens de destaque nos grandes veículos que mostraram o fundo do poço à que algumas pessoas chegam quando se envolvem com essas substâncias.
Mas é possível, para alguns, que fique uma dúvida no ar: Afinal, o que são as drogas? Para a coordenadora da Di­visão de Saúde Mental da Secretaria Municipal de Saúde de Goiânia, Heloísa Massana­ro, pode-se considerar como droga toda substância que altera o funcionamento do organismo da pessoa.
Com essa definição, fica claro que o nome “drogas” não se limita a maconha, cocaína ou similares, mas vai além. Para Heloísa, desde um simples medicamento, até um café ou chocolate (isso mesmo, o amado chocolate), podem ser consideradas como drogas se analisarmos a definição.
E você pode dizer nesse mo­mento: “Mas existem drogas lícitas e ilícitas!”. É aí que gos­taríamos de chegar. O que é lícito e ilícito? Basicamente, as drogas lícitas são aquelas legalizadas, com regulamentação na produção e tributação. Ilícito então seria tudo aquilo que não possui uma regulamentação ou tributação própria.
Na opinião de Heloísa, essa diferenciação do que pode ou não pode ser consumido no Brasil é confusa e “superficial”. Para a coordenadora da Divisão, essa regulamentação nada tem a ver com a saúde do indivíduo, e sim com questões econômicas e de costumes morais da sociedade.
Para ela, não se analisa de fato o quanto essas substâncias prejudicam a saúde do indivíduo, mas simplesmente o fato de que algumas drogas já são culturalmente toleradas e aceitas pela sociedade, enquanto outras não.
Heloísa acredita que, antes de qualquer discussão sobre as drogas, é preciso entender o que está por trás dessas definições. “A gente precisa compreender os critérios que tornam uma droga lícita ou ilícita. Temos dentro de um mesmo pacote substâncias com características diferentes, e o homem precisa conhecê-las sem preconceito”, considera.

Lícitas que matam
Quando se fala em drogas lícitas, álcool e cigarro são, indiscutivelmente, as mais lembradas. E as mais perigosas. Mas como dizer que elas matam? O álcool e o cigarro não causam somente mortes diretas, como acontece com a overdose por drogas, mas principalmente fazem vítimas de forma indireta.
De acordo com o Ministério da Saúde, as maiores causas de morte hoje são problemas cardiovasculares e o câncer, doenças relacionadas facilmente ao álcool e ao cigarro. Mais de 35 mil pessoas morrem por ano, no trânsito, e metade dessas mortes está relacionada à bebida. Isso sem falar nos crimes de violência também relacionados à embriaguez.
Ainda falando do álcool, na Divisão de Saúde Mental da SMS, 60% das pessoas que buscam atendimento são vítimas da bebida. Os outros 40% estão ligados ao consumo de entorpecentes ilícitos, como cocaína, crack e maconha.
“Somente em 2004 o governo lançou sua primeira política trazendo o tratamento dessas drogas para o âmbito da saúde”, explica Heloísa, completando que o combate ao cigarro é um pouco mais antigo, de 2000, quando as propagandas nos veículos de comunicação foram proibidas.
A coordenadora conta que alguns especialistas na área acreditam, inclusive, que o tabaco causa mais danos à saúde do indivíduo do que a maconha. O seu índice de dependência também seria um dos maiores. Motivo que faz com que muitos tentem, por inúmeras vezes, parar de fumar, mas não conseguem.
Para ajudar aqueles que tentam, sem sucesso, abandonar o vício sozinhos, a prefeitura de Goiânia conta com o Programa Municipal de Controle do Tabagismo. Abacy Macedo Rocha, chefe da divisão de doenças crônico-degenerativas, explica que o programa é gratuito e dura em média seis meses.
“Os interessados entram no site, ou procuram a unidade de saúde do seu distrito sanitário e se cadastram para fazer parte de um grupo. Mais ou menos 80% das pessoas chegam ao final do tratamento, tendo parado de fumar”. Abacy revela que atualmente 14% dos adultos de Goiânia são fu­mantes. Em todo o Brasil são 27,9 milhões de fumantes.
No último dia 15, o go­verno federal sancionou a lei que proíbe o consumo de cigarro em locais fechados, acabando com inúmeros fumódromos. Antes, existiam somente leis locais que restringiam o uso em algumas cidades, como exemplo de Goiânia, onde desde 2009 a lei funcionava.

Proibir ou liberar: qual a saída?

O fato das políticas públicas de “negativização” do tabaco terem iniciado em 2000 parecem mostrar que o ser humano buscava se “limpar” para o novo milênio. Hoje, com as intensas campanhas de combate ao fumo, é difícil associá-lo a ideias de liberdade e prazer, como acontecia antigamente.
O mesmo ainda não aconteceu com a bebida. Parece ser um costume bem mais arraigado à cultura brasileira, e difícil de ser abolido. As propagandas passam a mesma ideia de prazer e liberdade total quando se está com um copo de cerveja nas mãos.
Mas será que proibir essas propagandas é a saída? E com o tempo, é possível que essas drogas também se tornem ilícitas? Para a coordenadora do Centro de Referência para For­mação Permanente sobre Dro­gas, Tânia Maria da Silva, não.
Ela acredita que o ilícito abre brecha para o tráfico. Mais importante do que questionar o que deve ou não ser legal, é preciso crescer o diálogo sobre o tema. “Ninguém gosta de conversar sobre o assunto. É preciso tratar dele abertamente, sem preconceitos”, analisa Tânia Maria.
Heloísa Massanaro, coordenadora da Divisão de Saúde Mental da SMS, também acredita que o caminho mais certo é o diálogo. “O pai proíbe falar de drogas dentro de casa, mas bebe ou fuma. Então ele não sa­be argumentar ou discutir. Para a Aids e o aborto, já en­con­tramos o diálogo de forma saudável. O mesmo precisa a­contecer com as drogas”, reflete.
Recentemente, o Brasil se viu pela primeira vez diante de uma mobilização séria com o intuito de legalizar uma droga ilícita. Sinal de que as pessoas estão mudando seus conceitos sobre o assunto. Para Heloísa, embora a droga já esteja presente na vida do ser humano há milênios, sempre foi tratada de forma obscura, escondida da legalidade.
“Precisamos buscar maneiras de resolver essas questões sem preconceito, sem esconder o sujeito da sociedade. Jovens são expulsos da escola quando se envolvem com bebidas ou drogas, sendo que a educação é a melhor ferramenta para auxiliá-lo”, argumenta Heloísa.
Milhares de pessoas conseguem beber e até mesmo fumar socialmente. Quando a pessoa passa dos limites, seria então o momento em que ela agiria de forma antissocial? E qual é o limite para o 'consumo social'?
Tânia Maria explica que o nível de dependência é muito complexo, e não pode ser definido em miligramas ou maços. Mas, segundo a especialista, é justamente o exagero que caracteriza o vício, e aí a droga passa a reger a vida da pessoa.
“Você não sabe em que momento termina o beber exagerado e começa a dependência. E, passado esse limiar, a substância passa a reger a vida da pessoa. Ela perde a liberdade de escolher quando usa ou não. E isso vale para qualquer droga”, explica Tânia Maria.
O problema, portanto, está implícito na quantidade, e não na substância escolhida. É claro que algumas drogas, como a novata óxi, possuem um efeito bem mais devastador no organismo da pessoa. Mas no final, todas caminham para um mesmo abismo.
Na opinião de Tânia Maria, é preciso que as medidas de combate e regulamentação do álcool e do cigarro sejam reestruturadas. Não se pode mais ignorar o mal que elas causam.
“É preciso fazer valer as leis de controle, assim como no trânsito. Temos, sim, que conversar sobre assuntos como a descriminalização de algumas drogas ilícitas e os seus usos. É necessário o reconhecimento de todos que as drogas são um problema social e que todos, alguma vez, já fizeram uso de uma delas”, considera.
A intenção aqui não é dizer que uma barra de chocolate pode causar uma overdose (por vezes isso pode acontecer), ou que cocaína, maconha e crack devem ser livremente comercializados nos supermercados. Todas as especialistas que fazem parte desta matéria foram unânimes em dizer que chegou o momento de conversar. Sem preconceitos, proibições ou apologia.
A droga, seja ela qual for, pode ser comparada a um automóvel. Inúmeras pessoas fazem o uso inadequado dos carros e acabam provocando mortes. Nem por isso os outros são proibidos de dirigir. Basta que cada um aprenda o que é certo ou errado no trânsito e siga essas leis. Seguindo na velocidade controlada, é possível dirigir para qualquer lugar. Sem perigos.

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