De acordo com dados da Sociedade Brasileira de Neurologia (SBN), a cada cinco minutos uma pessoa é vítima de um Acidente Vascular Cerebral (AVC) no país, o que contabiliza cerca de 100 mil mortes ao ano em decorrência da doença. No Brasil, a principal causa de morte são as doenças cardiovasculares, com o AVC representando cerca de 1/3 das mortes por doenças vasculares.
Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), os acidentes vasculares cerebrais são a segunda principal causa de óbito no mundo, levando à morte de cerca de 7 milhões de pessoas por ano. Conhecido popularmente como derrame, acontece quando há uma perda rápida de função neurológica, seja por uma obstrução das artérias que irrigam o cérebro, ou por uma hemorragia.
O acidente vascular cerebral é um inimigo silencioso, que age rápido e de maneira fatal em inúmeras vítimas. Para as que sobrevivem, ficam sequelas e lembranças nada agradáveis de momentos que merecem ser esquecidos.
A aposentada Noêmia Porfírio Silva, 77, não guarda muitas lembranças dos momentos que passou quando teve seis AVCs. Mas lembrar pra quê? Ela prefere não guardar esse tipo de lembrança. Ao contrário, busca recordações mais antigas, do tempo que era professora do primário.
Embora Noêmia não se lembre quando foi a primeira vez que sofreu um derrame, foi o último, há pouco mais de dois anos, que lhe trouxe maiores sequelas. “Até o quinto AVC, ela conseguia fazer tudo normalmente”, conta sua nora, Rosilene Aprígio de Aquino.
Noêmia, até então, tinha como sequela uma pequena deficiência na visão, fruto dos outros cinco derrames. Até fez uma cirurgia que conseguiu reverter parte da cegueira, mas o último acidente vascular afetou a coordenação motora do lado esquerdo, além da visão do olho esquerdo.
O cardiologista do Hospital do Coração (Hcor) de São Paulo, Ricardo Pavanello, explica que o AVC é uma doença perigosa, e que afeta pessoas cada vez mais jovens, já que pode ser estimulada por diversos fatores de risco.
“Hipertensão arterial, diabetes, colesterol alto e o tabagismo são só alguns dos fatores que podem desencadear o AVC, em especial o de ordem isquêmica, que é mais comum”, conta.
Isquêmico é o nome que se dá quando o acidente vascular foi ocasionado pela obstrução das artérias que irrigam o cérebro, exatamente como aconteceu com dona Noêmia. Ela possui alguns dos fatores de risco apontados pelo especialista, como a pressão alta e diabetes.
De acordo com Pavanello, é essencial que as famílias estejam atentas a qualquer sintoma que indique o início de um derrame. Quanto mais cedo é feito o diagnóstico, maiores são as chances de um tratamento eficaz.
Dores de cabeça, tontura e perda sensitiva de um dos lados do corpo ou do rosto são alguns dos sintomas mais comuns. Caso o paciente apresente sintomas parecidos, algumas orientações como pedir para a pessoa sorrir, tentar falar corretamente ou levantar os braços ajudam a identificar o mal.
No caso de dona Noêmia, no entanto, o sintoma do último derrame foi um pouco diferente. Ela sentiu dores de ouvido no fim de semana. A família a levou para um pronto socorro, onde um médico de plantou passou um remédio para aliviar a dor e a liberou. Na segunda-feira, vendo que a aposentada não apresentava melhora, a levaram a um oftalmologista, que imeadiatamente identificou o AVC.
Rosilene acredita que a demora para diagnosticar o AVC tenha sido um dos fatores determinantes para os traumas que surgiram nessa última vez, e que após dois anos, continuam presentes. “Sinto dificuldade para movimentar o braço esquerdo, e sinto minha mão gelada, quase sem força”, revela Noêmia com bastante lucidez.
Durante toda a sua vida, a professora aposentada cuidou dos quatro filhos que agora se revezam para auxiliar a mãe. “Ela faz sessões de fisioterapia uma vez por semana no Centro de Reabilitação e Readaptação Dr. Henriqeu Santillo (Crer), pois não há vagas nos outros dias. Então, durante a semana a gente repete as sessões em casa, para que o tratamento tenha efeito”, conta Rosilene.
Além das sessões de fisioterapia, dona Noêmia vai começar a fazer hidroginástica em uma clínica particular. Todas essas sessões fazem parte do tratamento de reabilitação pós-acidente.
Tramento
Quando se fala em AVC, é possível falar em três diferentes estágios de tratamento. O primeiro é o tratamento preventivo, que inclui a identificação e controle dos fatores de risco. Pavanello ressalta que pessoas com histórico familiar da doença, além das que se encaixam no perfil dos mais acometidos e as que possuem alguns dos fatores de risco devem tomar mais cuidado com a doença.
O segundo estágio consiste em no uso de terapias que tentam cessar o acidente vascular cerebral quando ele está ocorrendo, por meio da rápida dissolução do coágulo que está causando a isquemia ou contenção da hemorragia, no caso dos hemorrágicos. A chance de recuperação aumenta quanto mais rápida for a ação terapêutica nestes casos.
Agora, dona Noêmia quer aproveitar as chances que recebeu da vida. Já está planejando viajar para o litoral. Vai conhecer o mar e andar de avião pela primeira vez. Tristeza por que o AVC pode dificultar sua tão sonhada viagem? Ela não aparenta. Continua fazendo quase todas as atividades normalmente, e só tem um lamento a fazer:
“Só acho ruim porque não posso mais ficar em pé para cozinhar. Sinto falta do meu tempero! Meus filhos não herdaram isso de mim, a comida deles é sem sal, parece doce! Sinto falta da carne assada, de um quibe frito e dos bolos que eu fazia...”
Diagnóstico rápido pode salvar vidas
Prevenir. Esse com certeza é o primeiro passo para manter a saúde em ordem, não importa qual seja a doença. Mas, e se a enfermidade aparece de repente, e já não há mais tempo para prevenir? A saída é agir rápido. Quanto mais o tratamento se antecipa à doença, mais ele é eficaz.
No caso de um Acidente Vascular Cerebral (AVC), a rapidez também é aliada de um bom resultado, e o primeiro passo está em um processo por vezes complicado: o diagnóstico. Como saber se a pessoa está ou não com um AVC? E de qual tipo?
De acordo com o cardiologista do Hospital do Coração (Hcor) de São Paulo, Ricardo Pavanello, é de suma importância o pronto atendimento do paciente para evitar maiores lesões. Além de identificar o tipo de AVC para tratar o problema de forma mais direcionada, o rápido atendimento pode diminuir ou até mesmo reverter um dano cerebral que com o passar das horas pode se tornar irreversível.
Apesar de comumente ser chamado de derrame, o acidente vascular cerebral nem sempre é caracterizado pela ruptura de um vaso sanguíneo. Em verdade, na maioria das vezes, o AVC é classificado como isquêmico, quando há uma obstrução arterial e ocorre a falta de fluxo sanguíneo cerebral. O “derrame” é o caso menos comum.
De acordo com Ricardo Pavanello, para cada acidente vascular que ocorre de forma hemorrágica, acontecem outros três a quatro AVCs de origem isquêmica. Especialistas afirmam que cerca de 80% dos acidentes vasculares são isquêmicos, e o restante é de origem hemorrágica. Mas por que um é tão mais comum que o outro?
Pavanello explica que o AVC isquêmico é mais comum pois pode ser desencadeado por uma série de fatores externos, como a hipertensão arterial, o cigarro, o colesterol alto e até mesmo a obesidade. Já o hemorrágico, possui como fator determinante a má formação dos vasos sanguíneos.
Na opinião do especialista, é de suma importância o atendimento rápido e feito por um neurologista competente, pois a identificação do tipo de acidente vascular é de suma importância para a recuperação do paciente.
“O tratamento de cada um dos tipos de AVC é totalmente diferenciado. Se é uma hemorragia, é preciso fazer algo para estancar o sangramento e evitar a dispersão do sangue. Já no caso do isquêmico, temos que ministrar um anticoagulante ou medicamento que diminua a pressão e acabe com o coágulo”, revela.
Identificado o tipo de lesão, o tratamento deve ser ministrado com o objetivo de restabelecer as funções neurológicas que foram danificadas e diminuir ao máximo os danos causados. Para os casos mais comuns, o AVC isquêmico, a medicina conta com um aliado: o anticoagulante.
Para os casos de acidente vascular originados por uma obstrução arterial e que acaba causando falta de fluxo sanguíneo em parte do cérebro, os anticoagulantes podem auxiliar na diminuição desse êmbolo, e facilitar sua saída da artéria.
Com a evolução dos tratamentos médicos, esses remédios podem ser capazes não só de tratar a vítima acometida por um AVC, como também prevenir que ele ocorra. Um exemplo é a rivaroxabana, um anticoagulante oral descoberto nos laboratórios da Bayer HealthCare, em Wuppertal, na Alemanha.
O medicamento, comercializado sob a marca de Xarelto® já é usado na prevenção do tromboembolismo venoso (TEV) em pacientes adultos, e após cirurgias eletivas de substituição do joelho ou quadril.
Não importa a idade, o indivíduo deve sempre cuidar da sua saúde e se prevenir de surpresas desagradáveis. Fazendo um exame, a pessoa pode identificar doenças pré-existentes, como a Fibrilação Atrial ou Auricular, que é um ritmo anormal e irregular do coração. Esse descontrole pode causar coágulos que viajam do coração para o cérebro causando o ataque isquêmico. Daí recorre ao tratamento com anticoagulantes para evitar o AVC.
O especialista do Hcor, reconhece a importância dos anticoagulantes como tratamento preventivo. “Havendo a necessidade pré-existente, o anticoagulante é a forma mais eficaz de se evitar um AVC. Mas é imprescindível que o paciente seja acompanhado por um médico. Se a pessoa tiver um ferimento ou então algum tipo de hemorragia e tome o remédio sem orientação, pode ter sérios danos”, adverte.








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