
Mesmo porque, se fosse, não iria, viria. Em todo caso, a pergunta é: o que o Oscar tem a ver com as ruas de Goiânia? Nada, certamente. A não ser o fato de um dia eu ter saído caminhando pela avenida Goiás e, ao atravessar a esquina com a rua Três, quase ter sido atropelado.
Um motoqueiro cruzou na hora errada, e eu pensava no filme de Woody Allen, no momento mais equivocado de minha vida. Allen concorre ao Oscar de melhor diretor com seu Meia-noite em Paris, que também pode ser laureado como melhor filme e melhor roteiro original.
Meia-noite narra o drama lírico de Gil (Owen Wilson), roteirista de cinema de Hollywood dos tempos atuais que adora a Era de Ouro francesa, que abraça a chamada geração perdida, de artistas vindo de todos os lugares sendo acolhidos em Paris, como Hemingway, Cole Porter, Djuna Barnes, Pablo Picasso, Modigliani, Scott Fitzgerald e tutti quanti
Tudo que Gil queria era viver aqueles áureos tempos. Até que certa meia-noite, em certo lugar parisiense, ele pega carona com um grupo de pessoas que o leva a uma balada das antigas. E lá o roteirista nostálgico se descobre nos incríveis anos 20, na presença de seus artistas favoritos.
Eu estava pensando, se conseguisse encontrar um furo no tempo, rumo ao lugar do não-mais, que época escolheria? Se fosse para a mesma Era de Ouro aqui no Brasil, cairia de paraquedas em cima da Semana de Arte Moderna, cujos 90 anos estão sendo celebrados agora.
Se eu estivesse inserido no glamour da época, teria encontros e debates com Mário de Andrade, Graça Aranha, Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral e Anita Malfatti.
Entre os membros da geração perdida havia um negro genial, Paul Robeson, ator, cantor e linguista, que também aparecia nas famosas festas mostradas no filme de Allen.
No meu caso, sem o talento de Robeson, seria o visitante de outra época e o representante dos filhos de África, mais próximo de Mário, porém distante de outra figura polêmica e bem viva por ocasião da Semana, Monteiro Lobato.
Gil se deu bem nas festas e nos encontros com seus mestres. Um meeting hipotético e sonhador através do tempo aqui no Brasil, principalmente naquela época, me colocaria em que situação? Mas nem sei se gostaria de ir para aqueles tempos.
Talvez meu interesse fosse mais modesto, e eu mergulharia nos anos 60. Na literatura, o que eu encontraria seria o jovem senhor Cony lançando seu oitavo romance, Pessach – a travessia, e os festivais da canção, com Caetano e companhia, além de gente genial como os irmãos Batista refazendo a música brasileira.
Mas encontraria também a censura, a poesia marginal e muita porrada. Depois, eu e minha força imaginária, entraríamos mais um pouco até chegar aos anos 50, em sua segunda metade. Num dos cruzamentos no Rio de Janeiro, talvez até me deparasse com Guimarães Rosa e Drummond.
Mas tudo isso é muito irreal. O que me resta é torcer por Allen. A cerimônia do Oscar será realizada em Los Angeles, como sempre, no próximo domingo, 26, e os milhões de aficionados estarão de olhos bem abertos para apurar se acertaram as apostas. Só então poderão sair por aí dizendo “não falei, sou bom nisso, entendo de cinema.”