A criança pede um brinquedo, o pai responde que não tem dinheiro. Surge o argumento: compra com cheque ou com cartão. Entre os pequenos, a afirmação é justificável, afinal eles talvez não entendam que o cheque e o cartão também deverão ser pagos com dinheiro. O problema é quando a prática se torna comum entre os adultos.
Uma pesquisa divulgada pela Bolsa de Valores, Mercadorias e Futuros de São Paulo (BM&BOVESPA) em 2008 apontou que o nível de Educação Financeira da população brasileira é muito baixo. Entre os dados apresentados: três em cada dez entrevistados declararam pagar apenas o valor mínimo da fatura do cartão de crédito e 25% deles têm restrições cadastrais na praça.
Para evitar isso, especialistas defendem que essa conscientização deve começar na escola. O assunto ganhou até mesmo um movimento: a Estratégia Nacional de Educação Financeira (ENEF). Ela surgiu em 2007, no âmbito do Comitê de Regulação e Fiscalização dos Mercados Financeiros, de Capitais, de Seguros, de Previdência e Capitalização (Coremec).
Instituída por decreto presidencial em 2010, a proposta tem o objetivo de fazer com que a sociedade desenvolva habilidades para identificar riscos e oportunidades em suas decisões econômicas. Professora ligada à Secretaria Municipal de Educação (SME), Michelle Ribeiro explica que a ideia é que o tema seja inserido no contexto escolar por meio de conteúdos abrangidos pelos componentes curriculares.
Obrigatório?
Alguns veículos nacionais de comunicação divulgaram que a inserção das temáticas de Educação Financeira nas escolas públicas seria obrigatória a partir de 2012. Mas não é bem assim que a Enef será colocada em prática em todo o país. A adesão é voluntária. Por meio de sua assessoria, o Banco Central informou que este será o ano da expansão de um projeto piloto iniciado em 2010.
Em parceria com o Ministério da Educação (MEC), com as secretarias de Educação e com escolas voluntárias, o Comitê Nacional de Educação Financeira (Conef) irá expandir o programa já testado. Novas escolas de ensino médio vão recebê-lo. Além disso, o comitê vai iniciar um outro projeto piloto, este com as escolas de ensino fundamental.
Especialista em Educação Financeira, Álvaro Modernell enfatiza que a inserção dos conteúdos não será obrigatória. “Vai estar disponível para todas as escolas públicas do Brasil, mas as escolas poderão optar por incluir ou não”, afirma. Ele foi membro do Grupo de Apoio Pedagógico que ajudou a formular a proposta da Enef, mas se afastou para se dedicar a seu portal Mais Ativos.
Modernell explica se fosse obrigatório, a rejeição ao programa poderia ser instantânea. Por isso, são as escolas que devem demonstrar interesse em fazer parte da estratégia. O complicado é encontrar como fazer isso. Um meio é o site Vida e Dinheiro (www.vidaedinheiro.gov.br), criado como referência da estratégia. Porém, ele não é atualizado, o e-mail de contato não oferece respostas e não há telefones.
As instituições envolvidas também fornecem poucas informações. Estão à frente do projeto: a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), a Superintendência Nacional de Previdência Complementar (Previc), a Superintendência de Seguros Privados (Susep) e o Banco Central do Brasil (BCB). Este foi o único a responder as questões enviadas pela equipe do Caderno Escola.
A CVM, que desenvolveu o projeto piloto, informou que a responsabilidade sobre o programa, atualmente, é da Previc. Já a Previc respondeu que o porta-voz do assunto é a CVM. Assim, nenhum dos dois fala sobre o assunto. O MEC não pôde responder por causa das trocas ocasionadas pela mudança de ministro.
Necessário, sim!
Modernell acredita que a questão das finanças deve, sim, estar nas escolas. “Não existe maneira melhor de educar a população de maneira geral do que por meio das crianças nas escolas”, opina. Ele informa que o Brasil não é o primeiro a tomar essa iniciativa, mesmo que aqui ela ainda engatinhe. Segundo o especialista, mais de 60 países estão fazendo o mesmo.
No site criado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) sobre a temática, 79 países estão listados entre os que contêm programas sobre o assunto. Mas ainda não há pesquisas sobre o impacto desse conteúdo para os alunos. E há, sempre, algumas ressalvas a serem feitas.
“Educação Financeira não é para ensinar ninguém a ficar rico, é para ajudar as pessoas a gerirem de maneira saudável os seus recursos financeiros”, alerta Modernell. A ideia é que as crianças aprendam a administrar seu dinheiro de maneira mais saudável. “Eu aproveito a parte boa (as negociações, o pagar mais barato, o pechinchar) e me afasto da parte ruim (o endividamento, a preocupação, o descontrole, o desperdício).”
Assim, explica ele, é possível, com pequenas mudanças no cotidiano, fazer a renda familiar oferecer uma condição de vida melhor. “Se educarmos as próximas gerações, não teremos tanta dificuldade para educar adultos como temos hoje”, avalia. O especialista complementa que é mais difícil mudar o adulto, já acostumado a gastar, do que ensinar uma criança a buscar seu bem-estar financeiro.
Mas e se pais e professores, já adultos, não têm essa consciência? Para Modernell, este é o maior desafio. Haverá muita dificuldade no começo, ele avalia. É preciso treinar os professores, que são de uma geração que não teve essa formação. Quanto aos pais, a responsabilidade pode ser das próprias crianças. “Elas sensibilizam as famílias para adotarem ações mais saudáveis.”
Já realizado
A proposta de Educação Financeira nas escolas já foi iniciada, em 2010. O Comitê Nacional de Educação Financeira (Conef) aplicou o programa piloto de Educação Financeira nas Escolas em 900 escolas de São Paulo, Rio de Janeiro, Distrito Federal, Ceará, Tocantins e Minas Gerais. O que envolveu aproximadamente 27 mil alunos.
Em maio de 2011, pesquisadores do Banco Mundial (Bird) divulgaram os primeiros resultados. Em quatro meses, os alunos que receberam conceitos financeiros já começaram a desenvolver mais habilidades para entender contextos econômicos, como a análise do orçamento familiar, por exemplo.
Entre agosto e dezembro de 2010, o porcentual de alunos que fazem poupança aumentou de 44% para 49%; o dos que fazem lista de compras passou de 13% para 16%; e o dos que compreendem o que é inflação aumentou de 33% para 36%.
Por aqui!
Nas redes públicas de Goiás e de Goiânia já há iniciativas relacionadas à Educação Financeira. No estado, ela é infante. Por meio de sua assessoria, a Secretaria de Estado da Educação (SEE) informou que está revisando os currículos e que a temática será considerada entre os novos conteúdos. Houve, ainda, no ano passado, um curso de Educação Fiscal para cem professores da rede.
Professores da capital também participaram desse curso, como informa Michelle Ribeiro, professora do departamento pedagógico da Secretaria Municipal de Educação (SME). Ela explicou como a Estratégia Nacional de Educação Financeira (Enef) será adotada na rede.
“O Planejamento de um orçamento familiar, a criação de planilha de gastos mensais, a abertura de uma poupança, os cálculos de juros de financiamentos ou rendimentos em aplicações, por exemplo, já farão parte dos conteúdos ensinados nas unidades escolares a partir de 2012”, conta Michelle. Para isso, a secretaria irá adquirir 30 mil kits de Educação Financeira, que serão distribuídos para 167 escolas.
Na prática
Na dúvida se o programa de Educação Financeira chega ou não às escolas goianas, aí vão algumas dicas para quem quer estar por dentro do assunto.
Turma da Bolsa
A BM&BOVESPA tem um programa voltado para crianças de 7 a 10 anos. É o Turma da Bolsa. Para conferir os vídeos é só entrar no site www.turmadabolsa.com.br.
Até Você
Outro programa é o BM&BOVESPA Vai Até Você. A instituição oferece palestras direcionadas por meio de uma unidade móvel que percorre o Brasil. É possível marcar uma visita pelo site http://www.bmfbovespavaiatevoce.com.br.
The Money Camp
Programa de Educação Financeira voltado para todas as faixas etárias. Uma vez por ano há, durante as férias, um acampamento realizado em São Paulo, onde crianças e jovens recebem formação sobre o assunto por meio de atividades recreacionais. Confira em http://www.themoneycamp.com.br.
Museu Escola
O Banco Central do Brasil promove visitas monitoradas de escolas ao Museu de Valores, em Brasília. Mais informações em: www.bcb.gov.br.
BC Jovem
Trata-se de uma área do site do Banco Central que busca oferecer Educação Financeira para o público jovem. É só entrar no site do banco e procurar pelo ícone do programa.








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