Líder do DEM no Senado, partido que tentou emplacar a CPI da Corrupção no governo Dilma Rousseff (PT), o senador Demóstenes Torres deve ser um dos alvos de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) em processo de instalação na Câmara dos Deputados. Esta semana o deputado Protógenes Queiroz (PCdoB-SP), autor do requerimento da CPI para investigar o envolvimento de políticos com a máfia dos jogos ilegais comandada pelo empresário Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, deve apresentar requerimento com as 171 assinaturas necessárias para instalação da comissão.
Protógenes projeta para a próxima quarta-feira, 14, entregar ao presidente da Câmara, Marco Maia, o requerimento com pedido de abertura da comissão. “Acredito que até terça-feira nós já teremos as 35 assinaturas restantes para a abertura dessa CPI, que terá prioridade assim como a CPI da Privataria Tucana”, diz o deputado federal.
Segundo o deputado, até sexta-feira a deputada Iris Araújo (PMDB) tinha sido a única parlamentar goiana a assinar o requerimento que a instalação da CPI. “Ainda não deu tempo para o seu pessoal ter acesso ao requerimento por conta da agenda da Casa na semana passada ter sido focada na Lei Geral Copa. Mas acredito que mais deputados goianos irão assinar o requerimento”, diz Protógenes.
O pedido de abertura a CPI na Câmara foi apresentado um dia depois do senador Demóstenes Torres ter ido à tribuna do Senado justificar os contatos telefônicos com Carlinhos Cachoeira, revelados pela Operação Monte Carlo, deflagrada pela Polícia Federal há duas semanas. O líder do DEM disse aos colegas de parlamento que nunca teve negócios com Cachoeira e que o relacionamento era apenas de amizade.
Disse que “apesar do relacionamento de amizade”, nunca teve negócios com Cachoeira. “As ligações telefônicas apontam para conversas triviais, e aumentaram quando eu e minha mulher interferimos num episódio envolvendo a mulher de Carlos Cachoeira”, afirmou. O senador disse que quer ser investigado no Supremo Tribunal Federal (STF), caso haja alguma suspeita.
“Podem grampear a vontade, não vão encontrar nada. Isso não vai me intimidar. A investigação está encerrada. Agora, eu que exijo ser investigado pelo fórum legal, o previsto na Constituição Federal, o Supremo Tribunal Federal”, discursou.
Demóstenes disse que seus advogados buscaram informações que provam que ele não está sendo alvo de investigação. “Não há possibilidade jurídica do meu envolvimento ou de qualquer outro parlamentar neste assunto [...] Estamos em um estado democrático de direito. Com a conclusão das informações, sabe-se que nunca existiu nenhuma investigação que envolve meu nome”.
Demóstenes foi à tribuna do Senado depois de ter fugido dos holofotes por conta de declarações à mídia que complicaram ainda mais sua situação. À revista Época, o democrata negou ter conhecimento das atividades empresarias de Carlinhos Cachoeira. “Depois do escândalo Waldomiro Diniz, eu pensei que ele tivesse abandonado a contravenção, e se dedicasse apenas a negócios legais”, afirmou o senador. “Para mim, foi uma surpresa as revelações feitas por essa operação da Polícia Federal”, concluiu. À revista Veja, Demóstenes tentou justificar a informação de que a PF interceptou quase 300 ligações telefônicas com Cachoeira. Segundo os investigadores, as conversas revelam, “no mínimo”, uma relação muito próxima entre os dois. O democrata disse que, recentemente, muitos dos seus contatos com Cachoeira tiveram por objetivo administrar uma crise conjugal entre amigos.
A reportagem relata que Carlinhos Cacheira gastou quase R$ 30 mil em um fogão e uma geladeira, de uma marca americana conhecida por equipar a cozinha da Casa Branca, para presentar o senador em seu casamento em julho do ano passado. “É meu amigo. É uma figura conhecida em Goiás, simpática com todo mundo, é um empresário daqui", explicou ele. "Carlinhos não era conhecido entre nós por explorar jogos de azar. Ele tinha explorado, lá atrás, jogos legais em Goiás. Para os amigos, dizia que não mexia com nada ilegal”, alegou o democrata.
Monte Carlo
Carlinhos Cachoeira foi preso há duas semanas pela operação deflagrada pela Polícia Federal. O empresário é acusado de chefiar uma organização criminosa de exploração e cartelização do jogo do bicho e caça-níqueis. Foram presas com Cacheira mais 31 pessoas.
Polícia Federal também apontou o envolvimento de mais 80 pessoas com o esquema, entre os envolvidos, quatro delegados da Polícia Civil, três tenentes-coronéis, um major, um capitão, dois sargentos, quatro cabos e 18 soldados da Polícia Militar de Goiás. Também estariam envolvidos dois delegados da Polícia Federal.
Além de Demóstenes, o inquérito da PF também aponta contatos de Carlinhos Cachoeira com outros políticos. Entre eles, o governador Marconi Perillo (PSDB) e os deputados federais Jovair Arantes (PTB) e Carlos Alberto Lereia (PSDB). De acordo com o documento de mais de 900 páginas, a máfia contaria com sofisticada espionagem política e empresarial, mediante supostas interceptações ilegais. Um desses conteúdos foi vazado na semana passada à revista Veja, em seu site, no qual envolve o deputado federal, Rubens Otoni (PT).
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As revelações da Operação Monte Carlo e seus efeitos continuaram a movimentar a cena política em Goiás na última semana. As principais revistas do País apresentaram os contatos políticos de Carlinhos Cachoeira com outras lideranças, além de Demóstenes Torres. Entre os citados nas investigações está o governador Marconi Perillo (PSDB).
A revista Época revelou que o ex-presidente da Câmara Municipal de Goiânia, Wladmir Garcez, preso na Operação Monte Carlo, era o interlocutor entre Cachoeira e o governador. Segundo as investigações, Garcez trocou dezenas de torpedos pelo celular com o governador. Depois, segundo a polícia, o ex-vereador repassava as informações para Cachoeira.
O governador justificou que há anos mantém relações políticas com Garcez, com quem fala com frequência e troca mensagens eletrônicas. "Não me lembro bem sobre o que a gente falava, só que ele me ajudou a vender uma casa", disse Marconi, por meio da assessoria, à publicação semanal.
A casa na qual Marconi se referiu é a mesma onde Carlinhos Cachoeira foi preso pela Polícia Federal na Operação Monte Carlo, na Rua Cedroarana, Quadra G-3, Lote 11. O governador disse que vendeu a casa no Residencial Alphaville Ipês, onde morou por quatro anos – de 2007 a 2010 - , para Walter Paulo Santiago, proprietário da Faculdade Padrão, no início de 2011
Marconi disse que a casa foi vendida por R$ 1,4 milhão, dividido em três parcelas. “Foi um negócio normal, fechado há um ano e já devidamente declarado no Imposto de Renda deste ano. Essa pergunta (sobre o morador) tem de ser feita ao proprietário da casa”, afirmou ao jornal O Popular. Na campanha de 2010, na declaração de bens apresentada à Justiça Eleitoral por por Marconi à Justiça Eleitoral, a imóvel foi declarado com o valor de R$ 417.816,13.
Os investigadores também revelaram à revista Época que Carlinhos Cachoeira também manteve contatos com o deputado federal Jovair Arantes (PTB). O petebista justificou à publicação que “sempre” conversou com o empresário do jogo do bicho, mas negou tenha negócios com ele. “Ele sempre foi ligado à política. Eu liguei recentemente para ele, por exemplo, para pedir apoio porque sou candidato à prefeitura de Goiânia. Mas era uma ajuda legal”.
Segundo a revista, as investigações também apontaram contatos de Cachoeira com o deputado federal, Carlos Alberto Leréia (PSDB). O parlamentar reconhece que é amigo do empresário do jogo do bicho (leia entrevista com Carlos Alberto Lereia na página 5), e assim como Jovair, Marconi e Demóstenes, disse que não tem negócios com Cachoeira. “Nossas famílias são amigas há muitos anos. Nunca escondi nossa amizade, sempre frequentei a casa dele. Mas nunca tive negócios com ele”, contou Leréia à Época.
Rubens Otoni
O escândalo que teve como estopim a Operação Monte Carlo também envolveu outro deputado federal. Na manhã de sexta-feira, 9, a coluna Radar no site da revista Veja revelou vídeo do petista Rubens Otoni em uma negociação de doação ilegal de campanha.
O vídeo de quase 1 minuto é dividido em duas cenas na qual a primeira Cachoeira diz que já passou R$ 100 mil e voltará a dar a mesma quantia. A segunda deixa o petista ainda mais comprometido. O empresário pede que a quantia doada não seja declarada e Rubens Otoni concorda. “Os R$ 100 mil você não declara, não”, diz Cachoeira. “Claro, não, não, não, claro que não”, concorda o petista.
O deputado alega que a gravação foi feita há oito anos, em 2004 quando foi candidato a prefeito de Anápolis, e que ele teria sido vítima de uma armadilha. O petista disse que vem sendo perseguido por não ter ajudado Cachoeira a reerguer sua empresa de medicamentos, a Vitapan.
Rubens Otoni afirma que tomará medidas judiciais contra o empresário, já que, a gravação foi usada nas duas últimas campanhas eleitorais na cidade de Anápolis. “Já usaram isso em 2006, 2008 e 2010, em panfletos, matérias de jornal.. ", disse.
O episódio com Rubens Otoni revela que a cena política é tensa em Goiás em razão do que ainda pode surgir das relações entre Carlinhos Cachoeira e lideranças políticas do Estado. A expectativa é de que mais políticos sejam envolvidos no escândalo, já que como aponta as escutas telefônicas da Polícia Federal na Operação Monte Carlo, metade da bancada de Goiás na Câmara conversava habitualmente com Cachoeira.






