Tudo começou em Nova Iorque, em 2003. Foi a escola pública Harvey Milk, que ganhou o nome do político norte-americano gay assassinado em 1978, a primeira a ser dedicada ao público LGBT.
Depois vieram iniciativas semelhantes em Chicago e na Califórnia, também nos Estados Unidos. Hoje, até a Tailândia possui uma universidade [Suan Dusit], que permite e incentiva o ingresso de alunos transexuais.
Recentemente foi a Argentina que inovou. Lá foi criada a Bachillerato Popular Mocha Celis, a primeira escola para travestis do mundo. A instituição faz parte de uma organização não-governamental de apoio ao público LGBT e começou a atuar esse ano com 25 alunos, sendo que dez deles não são homossexuais, mas pertencentes a outras minorias, como imigrantes.
A escola nasceu com a proposta de reduzir o impacto da discriminação na educação das jovens travestis, já que a maioria delas abandona a escola por conta do preconceito. De acordo com um diagnóstico realizado pela ALITT (Asociación de Lucha por la Identidad Travesti y Transgenero), apenas 14% das travestis concluem o Ensino Fundamental e mais de 70% desejam estudar, mas não estão dispostas a negar ou dissimular a sua sexualidade em troca disso.
Na Argentina, 90% das travestis vivem da prostituição e a estimativa de vida delas é de apenas 35 anos, enquanto a média da população é de 76. Essa pesquisa foi a justificativa para a criação da Bachillerato Popular Mocha Celis, que oferece o Ensino Médio e onde são ministradas aulas de Literatura, cooperativismo, Matemática, noções digitais, memória e reconhecimento trans, entre outras.
Mas para a psicóloga do Centro de Referência da Igualdade (CREI), órgão vinculado a Secretaria Estadual de Políticas para Mulheres e Promoção e Igualdade Racial de Goiás (Semira), Beth Fernandes, iniciativas como a da Argentina não são positivas. “Não é a solução montar guetos, pois isso só reforça o estigma que existe em determinadas pessoas. Eu defendo a inclusão, ou seja, todas as pessoas podem participar de tudo, transitar em todos os espaços, porque são espaços públicos”, considera.
Para Beth, os gays, as lésbicas e os transexuais devem fazer matrícula na escola pública, que é um espaço de todos. “Se tiver um problema dentro da escola, um especialista vai interferir naquele ambiente para fazer um diagnóstico. O que não concordo é em criar uma escola exclusiva para essa população”, destaca Beth.
Caso tupiniquim
Opinião semelhante é a de Deco Ribeiro, fundador e diretor da Escola Jovem LGBT, a primeira desse tipo no Brasil. Para ele, a segregação não é a alternativa, por isso a escola que ele administra oferece cursos complementares aos estudos formais do Ensino Fundamental e Médio.
Ribeiro explica que o objetivo da escola é proporcionar um ambiente confortável e livre de preconceito para esses jovens e fornecer conhecimentos sobre os direitos dos LGBT. “A ideia sempre foi criar um espaço onde os jovens LGBT pudessem se expressar livremente, sem o preconceito que eles encontram na sociedade. A escola também é um espaço para eles receberem todas as informações necessárias, tirarem suas dúvidas e se apoderarem desse conhecimento para voltar para a escola e para dentro de casa. Assim, eles podem conversar e desconstruir todo o discurso preconceituoso que existe na sociedade”, ressalta.
Fundada há três anos na cidade de Campinas, interior de São Paulo, a instituição recebe alunos de 12 a 35 anos LGBT ou heterossexuais, sem distinção. “O objetivo é justamente promover essa integração e valorizar a diversidade dentro da cultura”, explica o diretor.
Lá são oferecidos cursos gratuitos de arte e cultura com duração de 10 meses, incluindo teatro, dança, música, cinema, expressões gráficas, literatura, além do curso de drag queen que, segundo Ribeiro, é o mais procurado.
A instituição nasceu de um projeto da organização não-governamental E-Jovem e recebe apoio financeiro do Ministério da Cultura e da Secretaria Estadual de Cultura de São Paulo. Já passaram por lá mais de 200 alunos em dois anos de existência.
A grande família
Entre os mais de 200 alunos que já passaram pela escola Jovem LGBT de Campinas está Juana. Travesti, ela conta que conheceu a organização não governamental E-Jovem através de amigos e descobriu um espaço não só de troca de informações, mas de construção de laços. “Acabou virando uma coisa mais família. Eu fui ficando e acabei me tornando coordenadora regional de cultura da ong. Depois me tornei professora de dança e agora sou presidente da E-Jovem na regional de Campinas. Já estou aqui há cinco anos e está sendo maravilhoso até hoje”, comemora.
Mas nem tudo foram flores para Juana. Vítima de preconceito na escola, a estudante do 2° ano lutou para impor sua sexualidade e agora está determinada a concluir o Ensino Médio. “Faziam brincadeirinhas, mas quando eu decidi definitivamente ir de 'menininha' não teve mais isso. Acabou virando uma coisa normal para todo mundo, porque eles sabem que se eles debaterem comigo, eu vou debater com eles, porque eles não têm direito nenhum”, assegura ela.
De acordo com Deco Ribeiro, é esse apoderamento dos direitos dos LGBT a principal contribuição da escola. “A escola tradicional é considerada um terror pelos jovens homossexuais hoje em dia. É o local onde eles mais sofrem preconceito, além de casa. Muitos alunos que começam a ir para Escola Jovem LGBT começam a se assumir perante a família e à escola. A partir disso, eles passam a reivindicar seus direitos com mais propriedade”, destaca ele.
O preconceito em Goiás
O preconceito nas escolas goianas ainda é grande. A psicóloga do Centro de Referência da Igualdade (CREI), Beth Fernandes, responsável pelo acompanhamento psicológico das vítimas de homofobia em Goiás, reconhece isso. “Eu tenho, no mínimo, um caso por mês de atendimento de população adolescente lésbica, gay ou travesti que sofre preconceito nas escolas estaduais e municipais de Goiânia. Essa é uma questão séria, pois muitas vezes vem da coordenação ou mesmo dos próprios professores”, denuncia a especialista.
Quando Beth recebe um novo caso de homofobia na escola, um especialista é enviado à instituição de ensino para fazer um diagnóstico e, assim, realizar a interferência necessária para solucionar o problema. “O monitoramento disso inclui ir na sala de aula, na escola e envolver a diretoria”, explica ela.
Aluno do 3° ano do Ensino Médio, J.G. (que não quer se identificar), 18 anos, por exemplo, foi vítima de cyberbullying por conta de sua opção sexual. “ Tiraram uma foto minha, colocaram características femininas nela, e postaram na internet”, conta o estudante, acrescentando que o constrangimento foi grande e, por isso, ele ficou muito revoltado com a situação.
Mas, segundo ele, os colegas de classe se mobilizaram em sua defesa e, com a intervenção de Beth Fernandes, a situação foi parcialmente resolvida. “A Beth recomendou que a turma fizesse um trabalho sobre homofobia, mas não deu para fazer porque já tinha acabado as aulas”, destacou J.G.
Homofobia na rede pública goiana
De acordo com as assessorias de imprensa da Secretaria Estadual de Educação (Seduc) e da Secretaria Municipal de Educação de Goiânia, atualmente não há nenhuma ação específica que tenha como objetivo reduzir a homofobia nas escolas.
Na Seduc existe a Gerência de Projetos Transversais que atua nessa área, mas a responsável pelo órgão, Luiza Helena de Miranda, está de férias e não foi localizada pela reportagem do Escola.
Também na esfera estadual, o Conselho de Educação (CEE) adotou, em 2009, uma resolução que procura garantir os direitos dos alunos transexuais de serem chamados na escola pelo nome social, ou seja, o nome adotado por eles.
Já na SME, os casos de homofobia são direcionados à Rede de Atenção, que atende crianças, jovens e mulheres em situação de violência. Já os cursos e capacitações de profissionais da rede são realizados dentro do programa Escola da Paz.
Genivalda Cravo, coordenadora do programa, diz que a instituição promove regularmente encontros, seminários e cursos de capacitação para os profissionais da educação que tratam da questão da diversidade sexual ou do respeito às diferenças e à diversidade. “Nós não temos um curso específico sobre homofobia, mas o tema está inserido em nossas formações”, garante ela.
Genivalda afirma ainda que só este ano já foram capacitados 160 profissionais com enfoque nessa área. Porém, também em 2012, três casos de homofobia foram registrados formalmente na Rede de Atenção, muito embora as denúncias nem sempre ocorram.
Segundo Beth, o preconceito e a discriminação são, muitas vezes, causadas pela falta de informação e capacitação dos profissionais da educação. Mas, para ela, o que realmente falta são políticas públicas. “Nós não temos gestores na área da educação que atuem na capacitação dos professores e que invistam no aluno enquanto cidadão,” critica.
O fundador da Escola Jovem LGBT, Deco Ribeiro, reforça o discurso de Beth. Ele diz que a escola se torna cúmplice da homofobia a partir do momento em que nega a sua existência. “O assunto deve ser tratado na escola, mas o que acontece é que a escola finge que o problema não existe. O primeiro passo é mostrar que existe sim, e buscar uma solução.”






