Uma das festas religiosas mais prestigiadas do país, a Romaria do Divino Pai Eterno, em Trindade, há 18 quilômetros de Goiânia, chega ao fim neste domingo com muitas histórias para contar. A intensidade da fé e da movimentação das pessoas não se diferencia ao longo desses dez dias de encontro com a espiritualidade.
Na manhã de segunda-feira, 25, por exemplo, ainda no quarto dia do evento, enquanto no interior do Santuário fiéis rezavam em mais uma das 100 missas realizadas ao longo de toda a jornada de fé, alguns devotos apenas circulavam na Sala dos Milagres, localizada no subsolo da Basílica.
Objetos como aparelhos ortopédicos e pinturas que retratam as graças recebidas tomam conta do local. Os fiéis agradecem e ao mesmo tempo divulgam os frutos da fé no Pai Eterno. Instalada em um ofertório, uma réplica da imagem que alçou Trindade ao posto de capital da Fé recebe as orações e as lágrimas de três mulheres: a dona de casa Joana Fernandes da Silva (59 anos) e suas filhas, a analista de contas Jainy Ferreira de Almeida (25) e a estudante Janaína Ferreira de Almeida (16).
Devota ao Pai Eterno, Jainy não comparecia ao Santuário há dez. Culpa do trabalho, diz ela. Na última segunda-feira, entretanto, foi obrigada a deixar a rotina de lado para resolver, urgentemente, problemas envolvendo a escritura de um lote comprado pela mãe.
Há seis anos elas pagam as prestações do terreno e precisaram procurar um cartório às pressas para providenciar a escritura do local. “O antigo proprietário se separou da esposa e mudará para Mato Grosso do Sul. Se a gente não conseguisse regularizar, ele iria embora e tomaria o terreno”, relata a jovem. Apenas um cartório de Trindade conseguiria transferir a posse do lote a dona Joana antes da viagem.
Para tanto, precisariam desembolsar R$ 200 pelos serviços do cartório, R$ 288 pela escritura e R$ 100 para cobrir uma taxa. O problema é que elas não tinham todo esse montante. “Quase perdemos o lote por causa de R$ 100”, explica Jainy, entre lágrimas. Mas ao chegar ao cartório, a família foi surpreendida: não era mais preciso pagar os R$ 100.
“Quem tem fé não perde a esperança. Pensava que tudo poderia ser resolvido pelo dinheiro, mas vejo que não é bem assim”, reconhece a jovem, ao lado da mãe, da irmã e da filha Estefany Almeida Menzoti (4), que também acompanharam a romaria a Trindade, do cartório à Basílica.
Cura e devoção
A devoção também surge graças às curas creditadas ao Pai Eterno, como aconteceu com a enfermeira Sílvia Maria Brás (49), que mora em Goiânia. Quando tinha 12 anos, Aline Daiana da Silva, sua única filha, foi diagnosticada com câncer. Por causa da doença, perdeu o útero, as trompas e um rim. O prognóstico médico era desanimador. “Diziam que ela iria morrer, mas por meio das orações ao Pai Eterno ela acabou se curando”, conta a enfermeira.
Hoje com 29 anos, a jovem herdou não apenas a profissão da mãe, mas também a devoção ao Divino. Desde que foi curada, Aline participa da Festa de Trindade. “Se não fosse o Divino, hoje ela não estaria conosco. Vir ao Santuário, à Sala dos Milagres, aumenta mais a minha fé”, resume Sílvia.
Também por uma cura, Aurivaldo Lourenço Rodrigues (63) buscou o auxílio do Divino Pai Eterno, em Trindade, quando retornou à cidade em 1989, depois de 12 anos ausente, morando em Abadia de Goiás. A esposa estava com câncer, e o casal se apegou às novenas como uma forma de receber a graça almejada. “Ela viveu mais sete anos. Creio que foi por intermédio do Pai Eterno”, explica Rodrigues.
Viúvo, ele acabou casando novamente também com uma devota ao Divino, Sônia Maria Cândida (55). A neta dela, a pequena Geovana Cândida Silva (7) participou este ano, pela primeira vez, da Romaria de Trindade para pagar uma promessa feita pela avó. “Ela estava passando mal, tendo desmaios, e prometi que viria ao Santuário em 2012, caso ela fosse curada ”, relembra Sônia, que também levou outro neto à Basílica, o menino Gustavo Cândido (10).
Tradição
Casos em que pais, filhos e netos são devotos ao Pai Eterno foram fundamentais para que o culto ao Divino permanecesse vivo e em crescimento, mesmo 172 anos depois de seu surgimento. “É uma devoção que passa de geração a geração”, destaca o padre redentorista Jesus Flores, membro da congregação responsável pelo Santuário Basílica do Divino Pai Eterno.
A história do Pai Eterno começou em 1840, quando o casal Constantino e Ana Rosa Xavier encontrou, enquanto trabalhava na lavoura, um medalhão de barro com a estampa da Santíssima Trindade coroando Nossa Senhora. Segundo Flores, com o passar dos anos, o culto se concentrou na figura do Pai Eterno e não no episódio da coroação, como ocorre em Muquém, distrito de Niquelândia.
O padre explica que o objetivo da Romaria de Trindade é “proclamar que Deus é Pai e reafirmar com força e vigor que Ele nos ama e quer o nosso amor.” O tema da Festa, que em 2012 é “Acompanhados, alentados e amados pelo Pai Eterno”, e o trabalho de preparação para os dias de louvor ao Pai Eterno, são baseados nessas premissas.
À espera da nova casa
Junto com a tradição familiar, os meios de comunicação - com a transmissão das missas e novenas pelo rádio e pela TV, além do uso das redes sociais da internet - têm sido um importante instrumento na tentativa de levar o culto ao Pai Eterno para além das fronteiras de Goiás. Até agora, segundo o padre Jesus Flores, a estratégia capitaneada pelo reitor da Basílica, padre Robson de Oliveira, rendeu bons frutos.
Prova disso é a construção do novo Santuário para abrigar os filhos do Pai Eterno, resultado do aumento do número de fiéis que visitam a cidade não apenas no período da Romaria, quando o fluxo de devotos alcança, ao longo dos dias, a casa de 2,5 milhões de pessoas.
De acordo com levantamento do Instituto Verus realizado durante a Romaria de 2011, o número de pessoas que conheceu a devoção ao Pai Eterno nos últimos cinco anos cresceu 28%. Além disso, o Santuário Basílica recebe cerca de 3,5 mil novos visitantes por semana, uma média de 70 excursões, em geral pessoas de outros estados. A chegada de mais romeiros tem ajudado a incrementar a economia de Trindade, principalmente o setor de hotelaria (leia mais na página 6).
“A nova Basílica simboliza justamente esse crescimento do culto ao Divino. A maior quantidade de devotos exige também um local mais amplo, mais moderno e com melhores condições para acolhermos o romeiro”, explica o religioso. Operários trabalham no local, onde uma capela já foi construída para que os devotos possam rezar para o Pai Eterno.
As irmãs Maria Cristina de Oliveira e Rosalita Neves de Oliveira, que participam da Festa de Trindade há mais de 50 anos, aproveitaram a Romaria deste ano para conhecer, junto com a amiga Maria José dos Santos, a nova casa do Divino. “Acho que a nossa geração não vai ver a Basílica pronta”, brincam, se referindo ao prazo final da obra.
Conforme mostrou a Tribuna em janeiro deste ano, o término da construção do novo Santuário está previsto para 2022. O novo Santuário terá capacidade para acomodar 6 mil pessoas sentadas, mas acolher até 10 mil visitantes. Haverá também um estacionamento para 30 mil carros e 4 mil ônibus.
Matriz
Apesar da expectativa em relação à nova Basílica, há quem prefira passar os momentos de devoção no Santuário Paróquia do Divino Pai Eterno, também conhecido como Igreja Matriz. É o caso da dona de casa Sônia Maria de Jesus (56 anos), moradora de Goiânia. “Sinto mais afinidade com essa igreja. Aqui, sinto que o Divino está comigo”, justifica Sônia, que teve os dois filhos batizados na Matriz de Trindade.
Tombado pelo Governo de Goiás em 2011, o local completa 100 anos em setembro. Para comemorar, na última quinta, 28, o pároco do Santuário Paróquia, padre Marco Aurélio, junto com outros 40 fiéis caminharam os 18 quilômetros entre Goiânia a Trindade.
Continua






