Em 2011, durante viagem a Barcelona, na Espanha, o tecnólogo em redes Fernando Accioly (35 anos) se deu conta de uma realidade bem diferente da constatada em Goiânia quando o assunto é o uso da bicicleta como meio de transporte. Nas ruas, ciclofaixas separavam os ciclistas dos pedestres e motoristas. Na hora de estacionar a bike, nada de deixá-la em qualquer lugar. Havia bicicletários.
Na época, com o advogado Eduardo Costa e Silva, ele já tinha fundado o grupo Pedal Goiano, pioneiro na luta pela implantação de ciclovias em Goiânia. Se Barcelona é referência para Accioly, Costa e Silva tem como principal inspiração Copenhague, na Dinamarca, cidade que visitou antes da criação do grupo de cicloativistas e que é considerada a segunda mais amigável para o uso de bicicletas, seguida de Barcelona.
O levantamento é do site Copenhagenize, especializado no assunto. No ranking, que contempla 20 cidades, apenas um município brasileiro é relacionado: o Rio de Janeiro, que ocupa o 18º lugar e possui 240 quilômetros de ciclovias. A semelhança de Goiânia com as cidades europeias, no entanto, é bem pequena. Ainda vai demorar, talvez muito, para que a capital se transforme na Copenhague do Cerrado, como deseja Accioly.
As diferenças podem ser exemplificadas facilmente, começando pela extensão das vias cicláveis. Até agora em Goiânia, só é possível pedalar em ciclovia no trecho que vai do Terminal da Praça da Bíblia, no setor Universitário, ao final da Rua 10, na Praça Cívica, totalizando 2,5 quilômetros de vias seguras para o trânsito de ciclistas.
O percurso de ciclovias previsto pelo plano diretor da cidade, no entanto, é de 140 quilômetros. A promessa da prefeitura é que até o final do ano a ciclovia seja ampliada e chegue até o Campus II da Universidade Federal de Goiás (UFG), no setor Itatiaia.
Mobilização
A tímida presença das ciclovias pode ser reflexo do próprio plano diretor da capital, elaborado em 2007. O documento coloca esse tipo de rede viária em sexto lugar na hierarquia de prioridades, atrás das vias expressas, arteriais, coletoras, locais e pedestres.
O texto também não traz diretrizes aprofundadas sobre a implantação de ciclovias e do plano cicloviário, que deve ser “detalhado pelo órgão competente”, no caso, a Secretaria de Planejamento e Urbanismo de Goiânia (Seplam Goiânia).
A falta de diretrizes aprofundadas sobre a implantação das ciclovias faz com que ações previstas tenham de ser rediscutidas, aponta o coordenador do curso de Arquitetura e Urbanismo da UFG e coordenador do projeto da ciclovia que liga o Campus II da UFG ao setor Universitário, Camilo Vladimir de Lima Amaral. Foi o caso do Eixo Guanabara, ciclovia que ligaria a região nordeste de Goiânia à Praça da Bíblia, cuja implementação foi considerada inviável.
O número de bicicletas em Goiânia, se comparado ao de carros, também já dá o tom dessa guerra entre Davi e Golias para a construção de espaços exclusivos para a circulação das magrelas. De acordo com dados do Pedal Goiano, existem em Goiânia 210 mil bikes e mais de um milhão de veículos.
Para incentivar o uso da bicicleta, o grupo Pedal Goiano promove trimestralmente o Pedala Goiânia, evento que está na terceira edição e que já chegou a reunir cerca de 800 ciclistas em uma manhã. Aos sábados, o grupo se reúne em parques da capital para incentivar o uso da bicicleta. “É um trabalho voltado para iniciantes”, explica o cicloativista Fernando Accioly.
Sistema cicloviário
A ciclovia é apenas um dos elementos que pode colocar Goiânia de vez na seleta lista de cidades propícias para o uso da bicicleta. Conforme prevê o plano diretor da capital, um Sistema Cicloviário deve ser implantado na cidade. De acordo com o documento, ele terá que ser “integrado à rede estrutural de transporte coletivo deve atender à demanda e à conveniência do usuário da bicicleta em seus deslocamentos em áreas urbanas, garantindo segurança e conforto.”
O Sistema Cicloviário, assim como a ciclovia Praça Universitária-Campus, será desenvolvido em parceria com a UFG, explica o secretário da Seplam, Lívio Luciano. O projeto, que ainda dá as suas primeiras pedaladas. O urbanista Camilo Vladimir de Lima Amaral, que também participa dos trabalhos de elaboração do plano, explica que levantamentos ainda estão sendo realizados.
“O estudo envolve toda essa compreensão da cidade e a análise da topografia, de iluminação e até de arborização, para diminuir a temperatura da pista”, detalha. O objetivo é mapear as origens e os destinos de maior demanda em Goiânia, os pontos de cruzamento intermodal. Assim, a ideia é que nesses locais de articulação o ciclista deixe seu veículo em bicicletários e prossiga a viagem por outro mecanismo, como o transporte coletivo.
Insegurança nas ruas desanima
O estudante Ítalo Augusto Santos de Almeida (14) já vivenciou os danos que o uso da bicicleta nas ruas e calçadas da capital podem provocar. “Meu irmão estava pedalando na calçada quando caiu. Ele se machucou, mas sem gravidade, mas isso me deixou alerta sobre o uso da ciclovia”, relembra.
Morador do setor Universitário, durante o mês de julho ele pedalou na ciclovia da Rua 10 todos os dias. Além dos momentos de lazer, Ítalo também acredita que o uso da bike é uma forma de conhecer a cidade. Poderia ser melhor se as ciclovias abrangessem mais áreas.
A falta de segurança é o principal empecilho para o uso da bicicleta como meio de transporte, defendem o cicloativista Fernando Accioly e o urbanista Camilo Vladimir de Lima Amaral. “Os carros não respeitam o ciclista e nessa disputa quem usa a bicicleta sempre leva a pior. A ciclovia é um importante suporte para o cidadão utilizar esse meio de transporte durante o dia a dia”, explica Accioly.
Além da insegurança provocada pela quase total ausência de vias cicláveis, a falta de estrutura das empresas também dificulta a adoção da bike como meio de transporte para ir ao trabalho. Segundo Accioly, em Goiânia poucas empresas disponibilizam vestiários para o banho e bicicletários para estacionar as bicicletas. Ele destaca que para sobreviver à disputa de espaço com os carros o ciclista precisa estar atento e equipado com capacetes e lanternas, por exemplo.
Para Amaral, a implantação de ciclovias é dificultada também por dificuldades técnicas. Ele lembra que os próprios profissionais da Seplam, que em conjunto com a UFG devem elaborar o Sistema cicloviário, foram formados em uma escola rodoviarista, “ensinados a construir rodovias e não ciclovias”, ressalta o urbanista.
Bicicleta: saúde e sustentabilidade
Há quem já aproveite a ciclovia Praça da Bíblia-Praça Cívica para usar a bicicleta com segurança. É o caso dos estudante Rafael Novais Révio (23), que mora no setor Universitário. Rafael cursa Educação Física na Escola Superior de Educação Física do Estado de Goiás (Eseffego) e recomenda o uso da bicicleta, porque a atividade ajuda a combater o sedentarismo.
Já o auxiliar de cartório Israel Borges (28), que faz parte do Pedivela Bike Clube, conta que a pedalada o ajudou a abandonar o vício do cigarro. “Quanto mais pedalamos, mais queremos melhorar o desempenho, ir mais longe e para isso é preciso fôlego”, explica o jovem.
No início do ano, ele percorreu de bicicleta os mais de 300 quilômetros que separam Goiânia de Aruanã, no noroeste do estado. Apesar de integrar um grupo que pedala fora da cidade, percorrendo trilhas, Israel reconhece a importância da bike como uma alternativa principalmente em relação ao transporte público.
O urbanista e professor da UFG Camilo Vladimir de Lima Amaral acredita que o uso da bicicleta como meio de transporte humanizaria Goiânia por meio da junção de atividade física e locomoção ao ar livre. “Construir ciclovias é pensar a cidade à escala do ser humano, como a Europa já faz desde a década de 1970”, compara.
Amaral destaca que a bike é um veículo inclusivo, que custa pouco tanto em relação a aquisição quanto no que se refere a manutenção, e pode facilitar o acesso de pessoas com menor renda aos serviços que a cidade oferece, otimizando sua locomoção.






